Um dia na vida

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Finalmente consegui fazer o Igor dormir, e tenho ainda uma lista extensa de coisas para fazer: ver umas aulas do curso de construção de personagem, um vídeo do Carreira Literária, fazer as reflexões e anotações do Diário de Bordo (desafio 50 dias de autoconhecimento), uma meditação guiada, uma oração, ler o material da introdução alimentar do Igor que a nutricionista enviou e, se eu der conta, ler um pouco mais do livro O Inventário das Coisas Ausentes, da Carola Saavedra, que comecei essa semana. Antes, porém, levanto para procurar o probiótico do Igor, que não dou há dias porque não sei onde está. Marido pergunta o que eu estou procurando, eu respondo, meio irritada, muito cansada. Digo que não encontro nada nessa casa (aquele exagero causado pela irritação e cansaço). Ele começa a procurar também. Não encontramos. Digo pra ele ir para o banho – o Ivan está na banheira esperando o pai tirá-lo de lá – e vou deitar.

Quando o marido também desiste de procurar, passa por mim dizendo “tem que começar a guardar as coisas sempre no mesmo lugar. Colocar isso na caixinha de medicamentos”. Respondo que nem sempre consigo guardar tudo no mesmo lugar, e que preciso das coisas em lugares acessíveis para eu ver, lembrar e conseguir pegar carregando o bebê, cuidando do Ivan, resolvendo tudo ao mesmo tempo. Ele responde rindo “é, tá bem acessível agora”. Um riso sarcástico, debochado, que me ofende profundamente. Aposto que não foi essa a intenção dele, mas eu sinto uma carga enorme de acusações naquela risadinha. Ela parece dizer que eu sou desorganizada, relaxada, preguiçosa, incapaz, que perco as coisas à toa, que meu filho está sem tomar o probiótico há dias por minha culpa. Sinto a absoluta falta de reconhecimento de milhares de coisas que fiz no dia, pelos meninos, pela casa, pela família, pelo marido e de vez em quando até por mim.

Irrompo em lágrimas, mando se catar, digo pra trocar de lugar comigo um dia na vida, pra ver se dá conta. Falo que tudo que eu não preciso é de liçãozinha de moral depois de um dia tão cansativo. Quando finalmente deito na cama, em vez de um agradecimento, um elogio, um “boa noite” ou mesmo a gentileza do silêncio, recebo uma crítica. Porra, sabe. Ele não diz nada. Vai tomar banho, vestir o Ivan, colocar pra dormir. Percebo que está tratando o Ivan com gentileza, mais do que em outros dias. Mais tarde eu o ouço levantar, ouço barulhos dele organizando coisas. Lembro-me do tempo em que eu dizia que era uma regra no nosso relacionamento nunca irmos dormir brigados. Na manhã seguinte eu veria que ele postou no Instagram uma foto de 10 anos atrás, do nosso primeiro jantar à luz de velas na nossa primeira casa juntos, mostrando que ele também foi dormir lembrando do tempo em que nunca íamos dormir brigados.

Antes de ir dormir com o Ivan (estamos dormindo assim, cada um com um filho, já que os dois demandam atenção de noite e assim eu não fico sobrecarregada), ele manda uma mensagem pedindo desculpas por ter sido babaca. Diz que sabe que a parte mais difícil da criação dos nossos filhos ficou comigo. Agradeço.

Meu despertador (Igor) me acorda às 7h. Tento apertar o botão soneca (mamá e cafuné), mas não funciona e ele sai engatinhando pela cama e me dá tapas na cara. Logo escuto o Ivan chorando, então levanto de vez. Abro as janelas e cortinas.

Depois de ir ao banheiro, solto a gata, deixo os meninos brincando e passo aspirador na casa. Depois de terminar, sirvo uma mesa farta para o café. Coloco Mozart pra tocar, pra gente ir ficando inteligente enquanto come. Preparo meu café com leite. O Ivan quer suco, depois quer leite, e uma laranja, que descasco. Para o Igor, um pedaço de manga, depois um de abacate, depois maracujá (não precisa tudo isso, mas eu vou oferecendo coisas diferentes pra ele aguentar mais um pouquinho e quem sabe me deixar comer algo). O Ivan levanta, vai lavar as mãos e trocar de roupa sozinho. Fica entalado na camiseta e me pede ajuda. Leio as mensagens e ouço os áudios das amigas, não respondo ninguém. Leio os exercícios de hoje do desafio de autoconhecimento. O Igor não quer mais ficar no cadeirão. Ivan vai ver desenho, uma musiquinha insuportável com voz de gás Hélio, abaixo um pouco o volume e ele reclama.

Troco a fralda do Igor (cocô) e a roupa também. É como vestir um polvo. Só que o polvo tem a força de um javali e foi posto vivo sobre uma frigideira com óleo quente, algo nesse nível de desafio. Coloco-o para brincar. Encontro minha caneca com metade do meu café, frio. Lavo o babeiro do Igor, que ele herdou do Ivan, pensando que precisamos comprar outro desses, é o melhor que ele tem mas demora pra secar. Penduro no varal do quartinho, lá seca mais rápido.

Troco a fralda do Ivan (xixi) e sua calça também. Decido que também mereço tirar o pijama, visto a primeira roupa limpa que encontro. Escovo os dentes do Igor, depois os do Ivan.

Decido fazer o Igor dormir. Amamento enquanto embalo e leio umas mensagens. O Itaú me informa por SMS que entrei no cheque especial. Obrigada por avisar. Tenho uns trocados na poupança, que resgato para cobrir. Sigo embalando o Igor até ele parecer bem adormecido. Tento colocá-lo na cama. Ele acorda ao encostar no colchão, deito com ele, amamento mais um pouco. Finalmente dorme, coloco uma cobertinha encostada de um lado, um travesseiro do outro, deixo meu celular com ele tocando lullabies. Tiro as coisas da mesa e as coloco sobre o balcão da cozinha, desligo o Mozart que está me irritando. Tomo o resto do suco do Ivan. Tomo o resto do leite que ele pediu depois do suco e também não terminou de tomar. Como o resto do maracujá do Igor. Junto com minha caneca de café com leite frio, esse foi meu café da manhã. Sei que o Ivan vai sentir fome daqui a pouco, pois só comeu fruta. Enquanto escovo os dentes, guardo as comidas na geladeira. Não lavo a louça, tarefa que deixo para o marido. Procuro deixar o mais fácil possível pra ele, as coisas mais ou menos organizadas na pia, os restos de comida na lixeira, o lixo reciclável já lavado e posto na sacola. Pergunto-me se ele percebe, se faz diferença, se é daquelas coisas que a gente só repara quando não acontecem.

Estendo meu tapetinho na sala, ligo a TV e acesso os vídeos de yoga salvos num pen drive. Tento um que o marido salvou pra mim, mas acho extremamente difícil. Tento uma aula mais fácil, que ainda é difícil. Para acrescentar doses extras de desafio, o Ivan fica pulando meu tapetinho de um lado para o outro, se machuca, chora, quer o pai. Na casa da vizinha, uma furadeira é ligada. Rezo para o Igor não acordar. Tenho câimbra no quadril, minha perna não estica, não consigo me equilibrar, estou morrendo. Enfim, 20 minutos, termina a aula, sobrevivi.

A professora recomenda ficar pelo menos de 3 a 5 minutos relaxando em shavasana, a posição do cadáver. Embora eu me sinta como um cadáver, levanto correndo, certeza que a professora não tem um bebê que acorda e sai engatinhando durante sua prática de yoga. Encontro o Igor tentando escapar da cama. Coloco-o no chão para brincar.

Igor está impaciente, vamos para a sala. Amamento enquanto escrevo um pouco. Ele não quer mamar. Vai para o chão. A essa hora já preciso decidir o que será mais difícil: fazer almoço (não tenho nada preparado) ou sair para almoçar com os dois. Pedir alguma coisa, talvez? Não consigo pensar em um delivery com comida adequada pra nós três. O Igor foi até minhas plantas e está mascando as folhas que caíram no chão. Alguém sabe se folha de fícus é tóxica? Tiro as folhas da boca dele, ele chora. O Ivan ameaça passar com a bicicleta por cima do Igor, peço para parar. Ele me olha de um jeito desafiador, segurando a bicicleta com uma só mão como quem vai derrubá-la sobre o irmão. Perco a paciência com ele pela primeira vez hoje, ainda é de manhã. Grito, ele pede pelo pai.

Meu celular já está quase sem bateria, coloco para carregar. O WhatsApp tem centenas de mensagens não lidas, o Facebook e o Instagram têm várias notificações. Ignoro, estou tentando evitar o desperdício de tempo nas redes sociais.

Vou fazer xixi, é apenas o segundo do dia e está amarelo. Deixar o celular de lado me fez perder os lembretes para beber água. O Igor está se esgoelando na sala. O Ivan toca guitarra pra ele, que se acalma. Lavo as mãos e, aproveitando que estou ali, passo protetor solar com cor e corretivo. Apesar das olheiras acentuadas, hoje será só isso mesmo de maquiagem. O Ivan sobe nas caixas de fralda que chegaram e pula de cima delas, machuca as costas. Chora, eu faço massagem até ele dizer que está bom. Ajeito meu cabelo e lembro que preciso marcar o salão, uma das tarefas que me propus ontem à noite no diário de bordo. Dou a vitamina do Ivan e pego o celular, só carregou 30%.

Bebo um copo de água e pego o Igor no colo, está chorando porque o Ivan o derrubou. Ligo para o salão, marco um horário pra sexta-feira, anoto na agenda do celular. O Igor está tentando sair do meu colo, ponho no chão, ele chora. O sino da igreja avisa: é meio-dia.

Vejo a previsão do tempo para hoje. Visto uma calça. O Ivan chora, machucou a perna de algum jeito, faço massagem até ele dizer que está bom. Escolho a roupa do Ivan, ajudo-o a se vestir. Ele vai pra sala e tira o brinquedo do Igor, “é meu dinossauro”, o bebê chora. Pego no colo, ofereço mamá.

Fecho as janelas, ouço o Ivan repetir diversas vezes “acorda gata” e me pergunto se a gata morreu. Por um instante penso que seria um alívio, pois ela está dando tanto trabalho e o Igor anda sofrendo com a alergia. Imediatamente me recrimino por ter pensado isso, confiro e ela está viva, apenas de saco cheio do Ivan mexendo na cara dela.

Bebo mais um copo de água. Escolho a roupa do Igor e o visto, é como vestir um polvo, só que dessa vez o polvo está determinado a me matar. Peço ao Ivan pra pegar o tênis do irmão. Limpo o nariz do Ivan, é uma luta ingrata. Uso o sugador de meleca, saem 2 litros de secreção verde. Passo diante do espelho, essa calça não ficou bem em mim, me arrependo de tê-la comprado. Visto outra.

Brinco um pouco com os dois enquanto tento decidir onde almoçar. Penso num buffet, mas não quero arriscar sozinha a logística de servir dois pratos com um bebê no sling e uma criança solta pelo restaurante. Falta-me um par de mãos. Ligo para o marido para ver se ele já almoçou, seria bom contar com ele. Está em reunião e já almoçou. Faço xixi. Não tem papel, peço para o Ivan alcançar, ele não encontra. Levanto pra pegar, acabou o papel mesmo. Uso a ducha higiênica.

Ivan pergunta quem quer sorvete, respondo que eu quero, e como um sorvete imaginário de morango enquanto encho as garrafinhas de água, e o Igor chora na sala. Acabou a água do filtro, mas não dá tempo de encher agora. Arrumo a mochila, pego celular, carregador, iPad, sling, brinquedos, tapete, agasalhos, frutas. Chegam mensagens da sogra, não consigo ler. Decido almoçar no La Rauxa, que é a la carte e tem espaço kids para o Ivan. Erro o caminho e pego um pouco de engarrafamento. Igor dorme. Gilberto Gil canta Não Chores Mais, e eu choro enquanto dirijo. Quando você está há algum tempo segurando o choro, basta alguém dizer “não chore” para as lágrimas rolarem.

O motorista de uma Range Rover branca tenta sair da garagem, eu não vejo e paro bem na frente. Quando percebo, peço desculpas. Lembro da meditação guiada que já tenho feito há 10 dias. A moça sempre repete que o objetivo é aprender a estar presente. Preciso praticar mais.

Tem uma vaga na frente do restaurante. Estaciono, mas percebo que está muito perto da esquina, mudo de lugar. O Igor está dormindo, então retiro o bebê-conforto do carro com ele dentro. Coloco o casaco no Ivan. Entramos no restaurante e ele tira o casaco, “aqui não tá frio, mamãe”.

Tento ajeitar um lugar para colocar o bebê-conforto. Derrubo as garrafas de azeite e vinagre que estavam sobre a mesa, mas consigo evitar que caiam no chão. Uma mulher bem vestida com roupas de trabalhar fora me olha com cara de “o que essa louca tem na cabeça pra vir sozinha com dois bebês num restaurante, devia estar em casa”, mas tenho certeza que ela só está pensando “ufa, que bom que as garrafas não caíram” e o restante é só projeção do meu autojulgamento mesmo.

Ivan chora no espaço kids. Corro para lá, ele derrubou uma caixa de brinquedos em cima de si mesmo. Vejo que o cardápio não oferece nenhuma opção de comida para o Igor. Que bom que o leite materno é o principal alimento do bebê até um ano de vida.

Quero o prato do dia (alcatra empanada com molho sugo e queijo gratinado, arroz e batata frita), mas peço o talharim porque sei que o Ivan vai preferir. Quero a saladinha de entrada, mas peço a sopa porque sei que o Ivan vai preferir. Quando a comida chega, o moço traz um pratinho para eu dividir com o Ivan, mas eu não o deixo comer sozinho porque não quero ter que trocar a roupa dele.

Peço sobremesa, em parte porque mereço, em parte porque o Ivan comeu bastante do nosso prato e eu ainda tenho fome. Peço água com gás e dois copos com limão espremido. Ivan derruba um chocolate granulado da sobremesa no copo dele, e depois pensa que é um bicho. Pesco o chocolate no copo com a colher. Ele ri, “ah, eu pensei que era um bicho”. Quer ir brincar, tenho medo que ele morda o menininho que está lá no espaço kids, então o distraio. Igor acorda. Quero fazer xixi, não sei como farei isso sozinha com os dois meninos, talvez seja melhor não beber mais água hoje.

Ivan vai brincar. Observo de longe e vejo que está com cara de fazer cocô. Eu me pergunto como vou trocar a fralda dele no trocador dentro de um banheiro minúsculo e ainda segurando o Igor. Decido trocá-lo no sofá do espaço kids mesmo, para o azar das pessoas que estavam por perto. Felizmente só um cocozinho, bem distante da totalidade do seu potencial destrutivo.

Ivan pergunta o nome do menininho, não entendo a resposta, Ivan acha que ele disse “Juavi Tapita”. Ouço a mãe chamá-lo: é João Vitor. Deixo o Ivan com a mãe do João Vitor e vou com o Igor jogar a fralda no lixo do banheiro. Preciso muito fazer xixi. Decido que vou dar um jeito, segurando num braço o polvo possuído pelo espírito de Poseidon. A vontade é grande e a pressa também, afinal só conheço há 5 minutos a pessoa que está olhando o Ivan pra mim. Por isso não volto à mesa para pegar o sling ou o bebê-conforto. Só percebo que isso foi um erro quando já é tarde demais. Abrir a calça foi fácil. Difícil foi fechar depois, com uma só mão. Por que raios comprei uma calça que além do zíper tem DOIS botões? E o maldito cinto? E a criatura me estapeando, se debatendo, gritando. Sobrevivemos, saio do banheiro com calça e lavo a mão (uma só, a única que consegui usar no processo).

Brincamos todos no espaço kids. Converso com a mãe do Juavi Tapita, tranquilizo-a sobre o tempo do desfralde do menino dela. Se eu estou aqui trocando fralda desse cara até hoje, risos.

Ajeito tudo e todos para irmos. Coloco o Igor no bebê-conforto, sob protestos. Coloco o casaco no Ivan e peço a ele que fique do meu lado. Repito isso 8 vezes enquanto pago a conta, não precisa a minha via. Olha para os dois lados antes de atravessar a rua, filho. Abro a porta para o Ivan, ele sobe sozinho na cadeirinha. Quer tirar o casaco no carro. Tudo bem. Coloco o bebê-conforto sobre a grama para fechar o cinto de segurança do Ivan, o tempo todo olhando para os lados, um receio de que alguém passe correndo e leve o bebê-conforto com o Igor dentro.

Dou a volta no carro, prendo o bebê-conforto no cinto, vamos para o Museu Oscar Niemeyer. Converso com o Ivan sobre as músicas que tocam no rádio. Chegamos rápido. Pergunto se o estacionamento aceita cartão, sim, então entramos. Estaciono, desço e erro o lado do carro, abrindo primeiro a porta do Ivan. Como já estou ali mesmo, solto o cinto de segurança dele e deixo que desça sozinho. O Igor chorando. Peço 15 vezes para o Ivan ficar bem do meu ladinho enquanto pego o Igor, coloco no sling, pego a mochila, fecho o carro.

Ivan pergunta onde está o museu, eu digo que é ali mesmo, estamos no estacionamento do museu. Caminhamos até a bilheteria, o Ivan vai perguntando pelo caminho se aqui é o museu. Sou a primeira da fila, mas o rapaz demora para me atender, fala com outro funcionário, depois atende o telefone. Uma fila se forma atrás de mim. Seguro firme a mão do Ivan que, impaciente, pergunta se aqui é o museu e quer sair correndo. O moço nos chama e pegamos nossos ingressos. Caminhamos até a entrada do museu, o Ivan vai perguntando se aqui é o museu.

Tiro celular e chaves dos bolsos, tiro mochila das costas, passamos pelo detector de metais, que apita, mas tudo bem. Tenho que deixar a mochila no guarda-volumes. E se o neném precisar trocar a fralda? “A senhora pode voltar no guarda-volumes, ou se pegar um carrinho pode ir com a mochila pendurada nele”. Mochila pode no carrinho, não nas costas. O Igor não fica no carrinho, então não acho uma boa carregá-lo no sling enquanto seguro o Ivan com uma mão e empurro o carrinho com a outra. Deixo a mochila no guarda-volumes e torço para as fraldas aguentarem.

Caminhamos pelas exposições, o Ivan observa as obras e pergunta por que não pode por a mão. Admira algumas esculturas, quadros, fotografias, me fala das cores preferidas. Encontramos um boné, não parece fazer parte das instalações artísticas. Entrego para um segurança. Ivan aponta para a foto de um homem vestindo uma fantasia tristonha de coelho, vendendo balões de gás. Pergunta “ontem eu fui aqui?”

Pegamos o elevador e vamos para o subsolo, participar da oficina de desenho com carvão. Ivan faz um V e anuncia: “olha, mamãe, eu fiz a letra V!” Eu sempre fico impressionada com o quanto ele se interessa por letras. Essa é a primeira vez que desenha uma letra que não seja o I. Noto que ele disse “fiz” em vez de “fazi”. Ele quebra o carvão fininho dele e quer o meu. Digo que não, pode usar o seu quebrado mesmo. Seguimos desenhando, o Igor se retorcendo feito uma minhoca no meu colo, tentando comer o carvão. O Ivan termina e quer sair dali.

Vamos para o tapete de brinquedos, ficamos todos ali por um tempo, até o Ivan cansar. Mostro para ele o espelho mágico, ele se diverte por um tempo se aproximando e se afastando para ficar pequenininho, grandão, gordinho, magrinho. Mostro para ele os tanques de areia e ali ele fica brincando por muito tempo, enquanto o Igor brinca no tapete com diversos brinquedos.

Respondo algumas mensagens no WhatsApp. Converso com uma mulher que é advogada e mãe de uma menininha de 9 meses chamada Estela, que tem APLV. Depois de um bom tempo, o Igor fica impaciente, eu aviso o Ivan que pode brincar mais uns minutinhos e então iremos embora. Ofereço mamá ao Igor e tento fazê-lo dormir, sem sucesso. Penso que ele está mamando pouco, lembro que amanhã temos consulta com a pediatra, será que ele terá ganhado um peso satisfatório? Chamo o Ivan para irmos embora. Ele quer levar os desenhos de carvão para mostrar ao papai.

Subimos pela rampa, pegamos a mochila no guarda-volumes, o Ivan entrega a chave para a moça. Pago o ticket do estacionamento. O Ivan quer ficar segurando o ticket enquanto caminhamos. Fico cuidando para ele não perder. Coloco as coisas e filhos no carro. Saio e, 3 minutos depois, os 2 estão dormindo. Estou com fome, como uma banana. Chego em casa, carrego os 2 meninos, a mochila, bolsa do tapete e brinquedos, os desenhos de carvão e a sacolinha de frutas. Preciso pegar a chave de casa na mochila, mexo sem querer no Igor, que chora mas volta a dormir. Entramos em casa, Ivan abre os olhos e quer descer do meu colo, chama o pai. Explico que ele ainda não chegou do trabalho, Ivan chora enquanto tira os sapatos. Conversamos e ele se acalma. Pede leite. Lavo a canequinha, sirvo leite, ele derrama, eu limpo. Igor ainda dorme no sling. Sento para descansar enquanto Ivan vê desenhos. Ele se afasta com o iPad para não acordar o Igor, tenta abrir sozinho a porta do quarto e, como não consegue, senta no chão do corredor. Meu coração se enternece. Não quero me mexer para não acordar o Igor.

Passa um tempo, Igor acorda, chamo o Ivan. Chega na sala e aquele aroma característico se espalha. Deixo o Igor no chão e vou trocar a fralda do Ivan. Igor chora. Lavo o Ivan no bidê. Troco a roupa do Ivan por uma mais confortável, e a minha também. Voltamos à sala e os dois brincam. Ivan bate e esfrega a testa na do Igor e o machuca, digo para parar e ele continua, mais forte e mais rápido. São 18h e perco a paciência com ele pela segunda vez. Grito. Ele diz que vai contar tudo para o pai. Eu digo que também vou. Ele responde “não, eu que vou”. Eu me pergunto onde estou errando. Tenho me esforçado tanto, feito tanto por ele. Por que é tão difícil?

Ainda estamos nos estranhando quando o marido finalmente chega. São 18h30. Deixo os meninos com ele e me fecho no quarto, preciso de uns minutos pra mim. Passo o resto da noite chorando vez e outra. Ainda falta comer, preparar algo para os meninos, dar banho nos dois, amamentar, fazer o Igor dormir, fazer e pagar minha inscrição num encontro, ler, estudar, meditar, orar, fazer as reflexões dos desafios do autocuidado e do autoconhecimento, dormir. Na minha cabeça, repete-se o refrão “e qualquer desatenção, faça não… Pode ser a gota d’água”.

 

Ainda não encontramos o probiótico do Igor.

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Relato de parto do Igor

Muita gente me disse. Até eu disse a mim mesma, desde antes de engravidar: não compare uma gestação à outra, não compare um parto ao outro. Psicologicamente, meus principais esforços ao longo da segunda gravidez foram esses: não comparar e não criar expectativas. No que se refere às expectativas, eu nutri apenas uma, a de ser respeitada. No meu chá de bênçãos, minhas amigas expressavam seus desejos para o meu parto. “Acredite em você, acredite no seu corpo. Confie, se entregue”. Eram desejos válidos e bem-vindos, mas no fundo eu pensava: “eu já acredito em mim, sempre acreditei”. Eu já não duvidava de mim no primeiro. No segundo, então, eu sabia que meu corpo tinha a memória de como parir. Isso não me preocupava.

 

Uma amiga, a Tati, leu meu pensamento ao dizer: “tudo que desejo é que você seja respeitada”. Era só isso que eu queria, que me respeitassem e que meu bebê nascesse em segurança (e eu sabia, por experiência, que esse segundo desejo dependia diretamente do primeiro).

 

No que se refere às comparações, eu bem que tentei evitar, mas não tem como. Porque tomamos nossas decisões com base em nossas experiências. Por isso, preciso contar pelo menos três coisas sobre meu primeiro parto.

 

A primeira é que eu queria que o Ivan nascesse em casa, num lindo parto domiciliar planejado, assistido por uma equipe em que eu confiava. Mas deu tudo errado e ele acabou nascendo num parto hospitalar, com uma péssima assistência, e com a prática de violência obstétrica que colocou em risco a minha vida e a dele, que passou os primeiros 12 dias de vida na UTI.

 

A segunda é que meu TP (trabalho de parto) foi extremamente longo e exaustivo. Os pródromos iniciaram no dia da minha DPP (data provável de parto), 16/05, com contrações dolorosas e irregulares que me mantinham acordada a noite toda, e espaçavam até desaparecer durante o dia. Isso durou 3 dias. Na sexta-feira, 20/05, tive contrações regulares (3 a cada 10 minutos) o dia inteiro. À noite, eu estava com 9 cm de dilatação e um rebordo de colo. Minha bolsa foi rompida artificialmente num exame de toque por volta das 7h da manhã de sábado. A dilatação continuou paralisada aí, mesmo com muita ocitocina sintética que recebi no hospital, e o Ivan nasceu somente às 16h45 de sábado, dia 21/05. Ou seja, passei mais de 17 horas com 9 cm de dilatação, e cerca de 10 horas com a bolsa rota.

 

A terceira coisa sobre meu primeiro parto é que eu ouvi de algumas pessoas (direta ou indiretamente) que o “meu problema” era querer controlar tudo. Que eu não me entregava. Esse julgamento, somado à culpa que eu sentia – por ter feito escolhas que se revelaram ruins, por não ter conseguido evitar o sofrimento do meu filho – e a todo o trauma que derivou da situação que vivemos, foi um peso que carreguei por 2 anos e 7 meses. Muito mais do que imaginar se por acaso meu filho não havia encaixado direito, se exercícios ou alguma manobra teriam me ajudado, se analgesia teria resolvido, ou mesmo se eu deveria ter ido para uma cesárea (que me foi recusada, assim como a analgesia), eu me questionava se o parto tinha sido tão longo e difícil por minha culpa. Porque eu não tinha ido para a “partolândia”, porque não virei um animal selvagem em conexão com a terra e as forças cósmicas, porque sou racional demais.

 

Com base nessa experiência, a única coisa que planejei para a chegada do Igor foi que seria um parto hospitalar, assistido pelo Dr. Álvaro, obstetra da minha confiança. Eu sabia que, com ele, caso precisasse de alguma intervenção, ela seria feita no melhor momento possível, a fim de garantir a nossa segurança. E que minha vontade seria ouvida e levada em consideração em qualquer decisão que precisasse ser tomada.

 

Dessa vez não teria nem doula. Se as condições financeiras permitissem, talvez seria na suíte de parto da maternidade. Pagamos a taxa de disponibilidade do médico e era somente com ele que eu contava. Já no final da gestação, surgiu a maravilhosa oportunidade de receber o acompanhamento pré-hospitalar da Raquel, enfermeira obstetra que é, além de excelente profissional, uma amiga muito querida. Ela viria para minha casa quando eu entrasse em TP, e me examinaria e acompanharia até a maternidade quando fosse a hora. Era a minha segurança de que eu não iria nem cedo nem tarde demais, mas sim no momento certo.

 

Minha DPP era 12/12, e até esse dia eu não senti nenhum sinal de que o parto se aproximava. Já em 16/12, levamos o Ivan à Casa do Papai Noel em São José dos Pinhais, como parte das atividades do Calendário do Advento. Caminhando por lá, comecei a sentir contrações/cólicas dolorosas no baixo ventre. Elas continuaram por toda a noite. No dia seguinte, 17/12 (40 semanas e 5 dias, mesma idade gestacional que tinha o Ivan quando nasceu), usei muito óleo essencial de sálvia esclareia e fiz exercícios de baby spinning que a Raquel me ensinou. À tarde, tive consulta com meu obstetra. Ele atrasou para me atender, e minhas contrações estavam já mais frequentes e bastante intensas. Ele me fez duas perguntas antes do exame de toque. Primeiro quis saber, de 1 a 10, qual a intensidade da minha dor. Falei que era 7 e ele disse que não era possível, que eu não tinha cara de quem estava com tanta dor. Respondi, um pouco grosseira: “não discuta comigo, homem!”. A segunda pergunta foi quanto eu achava que tinha de dilatação naquele momento (por volta de 16h15), e eu respondi que uns 4 cm. Ele fez o toque e disse: “2 cm de dilatação, colo bem posterior, a cabecinha do neném tá aqui do lado ainda. Vamos aguardar. Amanhã de manhã você me diz como está. Se eu estiver na maternidade você vai lá pra eu te examinar, se não você vem aqui”. Saí desanimada com a perspectiva de outro TP longo e cansativo. O Dr. Álvaro se despediu dizendo que não valia a pena eu ficar caminhando, agachando, fazendo muitos exercícios, porque minhas contrações estavam bastante intensas, e a dilatação não estava acompanhando. A dica dele era eu relaxar, descansar na medida do possível, poupando energias para a fase seguinte do TP. Saímos do consultório e fomos comer um doce numa confeitaria.

 

Quando cheguei em casa, enchemos a piscina de água quentinha, fiz um mix de óleos essenciais no difusor, seguindo minha intuição (acho que foi lavanda, capim limão e sálvia esclareia), coloquei no pescoço o colar feito para mim no meu chá de bênçãos, botei minha playlist pra tocar e esqueci do mundo. De vez em quando o André, que tirou o dia para trabalhar de casa, vinha verificar se eu estava bem e viva. De repente, comecei a sentir muita dor na lombar e decidi que era hora de sair dali.

 

Às 20h15, senti que estava próximo. Mas, sei lá por que razão, eu tinha medo de estar errada, de incomodar as pessoas e o parto ainda levar horas para acontecer. Mandei mensagens para a Raquel, avisando que as contrações estavam longas, a dor muito intensa, que também tinha bastante dor na lombar e pressão no períneo, como se fosse fazer cocô. Ela respondeu que iria jantar e sairia de casa por volta de 21h30, a não ser que eu achasse que era melhor ela sair naquela hora mesmo. Eu senti vontade de dizer: “POR FAVOR, VENHA JÁ!”, mas novamente aquele medo de ser cedo demais me fez calar.

 

Em casa, meu comportamento também não deu ao meu marido a real dimensão do que eu estava sentindo. Quando eu percebi que precisávamos ir logo para a maternidade, pedi a ele que falasse com a Raquel para saber se ela estava chegando, caso contrário nos encontraríamos na maternidade mesmo. E fui me maquiar. Isso mesmo, eu não queria parir com as olheiras que eu estava. Prioridades, hahahaha… Terminei de me arrumar e ajeitar minhas coisas entre contrações fortíssimas, perguntei a ele se tinha falado com a Raquel, e ele, absurdamente calmo:

 

– Mandei mensagem, ela nem visualizou ainda.

– ENTÃO LIGUE, HOMEM!

 

Minha mãe, que tinha vindo para minha casa para cuidar do Ivan, estava visivelmente preocupada e querendo que fossemos logo. O Ivan estava dormindo profundamente (acordou de madrugada naquele dia e não conseguiu mais dormir, nem fez soneca durante o dia). O André bem tranquilão, só de cueca diante do computador.

Eram 21h38 quando o André falava ao telefone com a Raquel, que estava ainda saindo de sua casa, em São José dos Pinhais. Eu moro nas Mercês, e avisei o André que então não daria pra esperar. Às 21h39, tive uma contração muito forte e me agachei em frente ao meu sofá. Minha lombar doía muito, pedi ao André que massageasse, mas ele massageou com tanta força que senti mais dor ainda, e eu gritei pra ele sair dali e colocar uma roupa (sim, ele continuava de cueca). Minha mãe engrossou o coro de “VAI COLOCAR UMA ROUPA” e assumiu o posto da massagem (com mais delicadeza). Naquela contração intensa, minha bolsa rompeu e eu gritei para avisar o André, que, por sua vez, avisou a Raquel. Eu mandei um áudio para o Dr. Álvaro, avisando que estava com bolsa rota, muita dor, e indo para a maternidade.

 

O André se vestiu e colocou no ouvido os fones sem fio para seguir falando com a Raquel. Ela perguntou se eu conseguia andar. Com muita dificuldade e com a ajuda do André, fiquei de pé e tentei caminhar, mas era quase impossível. Dei uns dois passos em direção à porta e percebi que não havia a mínima chance de chegarmos em tempo na Maternidade Curitiba. Em instantes, analisei minhas alternativas, perguntando-me se daria tempo de chamar uma ambulância, ou talvez de chegar até o Hospital Nossa Senhora das Graças, que fica a duas quadras da minha casa (ideia que me apavorava, pois a médica que praticou violência obstétrica no meu primeiro parto é plantonista no Graças). Logo senti que outra contração forte estava vindo e concluí que não dava tempo de chegar nem no elevador. Não lembro exatamente das palavras que gritei para comunicar isso, mas minha mãe saiu correndo e voltou com muitas toalhas (só faltou trazer água quente para ser igual aos filmes! Alguém aí sabe para que eles usam a água quente nos partos domiciliares dos filmes? Até hoje não entendi).

 

O André me ajudou a me abaixar de novo, quase na porta de casa, enquanto eu dizia que o bebê já ia nascer. A Raquel orientava o André pelo telefone, enquanto seu marido dirigia nervoso e emocionado, ouvindo tudo no viva-voz do carro. Ela perguntou se o André conseguia ver alguma coisa, o cabelinho do bebê, sua cabeça. Ele respondeu que não estava vendo nada, e eu gritei (sim, eu fico bem agressiva em TP, aparentemente não consigo falar, só gritar):

 

– CLARO QUE VOCÊ NÃO TÁ VENDO NADA, EU TÔ DE CALCINHA, HOMEM!

– Tá bom, eu vou rasgar!

– Não precisa rasgar, vou ficar de quatro apoios e você abaixa.

– Tá bom, tô rasgando.

– NÃO PRECISA RASGAR, HOMEM, SÓ ABAIXA A CALCINHA!

– Pronto, rasguei desse lado, já vou rasgar do outro!

– NÃO PRECISA RAS…

– Pronto, pronto, já rasguei aqui também! Tô vendo o cabelinho dele!

 

Eu, revirando os olhos pensando na calcinha rasgada, senti que era a hora e gritei:

 

– Ele vai nascer! Segura meu neném! Não deixa ele cair!

– Eu vou segurar! Eu vou segurar!

 

A contração veio com tudo e a cabeça do Igor saiu. O André ia falando para a Raquel e ela dizendo para ele ficar calmo, que na próxima contração sairia o resto do corpinho e que era para ele me lembrar de respirar. Minha mãe à beira de um ataque cardíaco. O André berrava para ela:

 

– FICA CALMA, MARIA!

 

E para mim:

 

– RESPIRA! RESPIRA!

– EU TÔ RESPIRANDOOO!

 

Muito pouco tempo depois, avisei que ele estava vindo. Mais uma contração e o André o segurou nos braços. Minha mãe avisou que havia uma circular de cordão, que o André desenrolou antes de entregá-lo para mim. Eu continuava sentindo a mesma pressão no períneo, e não conseguia sentar direito. Minha mãe sentou atrás de mim para eu apoiar minhas costas nela. Eu segurava o Igor e, inundada por uma onda gigantesca de ocitocina e adrenalina, sentia a mais absoluta certeza de que tudo ficaria bem. E tentava acalmar minha mãe e o André, que choravam e tremiam emocionados.

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Imagine como estavam as olheiras antes da maquiagem

O Igor tossiu e em seguida chorou, o que me tranquilizou ainda mais. O tônus muscular era evidente, ele estava todo durinho, segurando meu dedo com força em sua mãozinha. O corpinho coberto de vérnix, e um pouco de mecônio que certamente saiu apenas no momento em que ele nascia, porque quando minha bolsa rompeu (6 minutos antes), o líquido amniótico saiu cristalino. Sim, entre o rompimento da bolsa e o nascimento dele, passaram-se 6 minutos. Às 21h45 ele estava no meu colo, olhando para mim com olhinhos atentos, eu sentindo o cheirinho dele. Menos de 5 minutos depois, ele estava mamando no meu peito. Bônus: não fiz cocô durante o parto, o que teria sido especialmente chato de limpar no piso da minha sala. Decidimos esperar a Raquel chegar. Minha mãe ligou para o Dr. Álvaro:

 

– O bebê nasceu!

– Como assim? Nasceu onde?

– Na porta de casa! Não deu tempo de sair!

– Mas a Raquel tá aí, né?

– Não chegou ainda.

– E quem tá aí então???

– Eu e meu genro.

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Já nasceu sabendo mamar
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Ufa, minha mãe sobreviveu

O Dr. Álvaro avisou que nos esperaria na maternidade. Algum tempo depois, chegou a Raquel, que tantas vezes já fez o papel de “anja” no meu maternar e gestar, e agora virou também nossa coach de parto, orientando o André à distância e em tempo real. Ela examinou o Igor, confirmando que seu estado era perfeito. Em seguida, ajudou-me a vestir uma calcinha absorvente, deixando o cordão umbilical para cima (não clampeamos nem cortamos). Troquei de roupa e fomos para o carro dela. Seu marido nos levou para a maternidade. O Igor mamou o tempo todo, desde a minha casa, no elevador, no carro, até chegarmos na Curitiba, onde o Dr. Álvaro nos aguardava literalmente na porta, acompanhado de duas enfermeiras. Sentei numa cadeira de rodas e fomos para uma salinha onde eu fui examinada, o cordão foi clampeado e eu mesma o cortei. Após um tempo, dequitei a placenta, íntegra. Sem sofrimento, sem pressa. Tive duas lacerações e precisei levar pontos em uma delas, após a anestesia local. O André estava cuidando da burocracia do internamento, e a Raquel me emprestou sua mão para eu segurar (ou esmagar) nos momentos de dor.

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Minha anja Raquel, meu marido, amor e parteiro, André

A assistência do Dr. Álvaro, contrariando nossos planos, foi reduzida a esses cuidados após o parto, além da dica para relaxar em vez de me movimentar naquelas horas que o antecederam. Essa orientação se revelou perfeitamente acertada. Tenho certeza de que aquelas horas na piscina serviram para amenizar a dor das contrações enquanto a dilatação acontecia sem eu perceber. Não fosse pelo Dr. Álvaro, eu teria me dedicado a andar, subir e descer escadas, agachar e levantar, porque sempre ouvi sobre a importância do parto ativo, que os exercícios ajudam a induzir naturalmente e facilitar o trabalho de parto. Mas, de fato, na minha experiência anterior, eu passei mais de 24 horas me movimentando quase sem descanso, o que não apenas não facilitou, como possivelmente dificultou o parto, já que eu exauri minhas forças, e a dor das contrações intensas me acompanhou por um período excruciantemente longo. Ao indicar que eu relaxasse e poupasse minhas energias, ele mostrou uma sensibilidade de quem entende que cada gestante é única, cada trabalho de parto é diferente, e cada situação merece ser avaliada de forma individual. Não há uma receita padrão que funciona da mesma maneira para qualquer caso.

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Igor mamando e eu cortando o cordão, com a ajuda do Dr. Álvaro

O pediatra, Dr. Pelissari, examinou o Igor e o levou, acompanhado do André, para os procedimentos necessários. Não fizeram nada que não aceitássemos (como colírio de nitrato de prata ou aspiração nasal, por exemplo). Logo ele estava de volta ao meu colo. Fomos muito bem tratados por toda a equipe de médicos e enfermeiras da maternidade.

 

E foi assim que eu planejei um parto domiciliar e tive um hospitalar, planejei um parto hospitalar e tive um domiciliar. O universo segue me lembrando que não estou no controle, mas essa segunda experiência me libertou daquele peso injusto. Porque mais uma vez eu não fui transportada para a “partolândia”. Eu não me transformei em outra pessoa, não virei bicho, não fiquei doidona. Em vez disso, eu me maquiei, monitorei a frequência das minhas contrações, escrevi mensagens em linguagem bem concatenada, raciocinei até o último segundo. E tive um parto rápido, fácil e tranquilo. Natural, na melhor acepção da palavra. Meu segundo bebê foi recebido pelos braços amorosos do pai, mas eu sei que teria conseguido até mesmo sozinha, que teria escolhido uma posição em que pudesse segurá-lo e que, por maior que fosse o medo, eu saberia como agir. Provavelmente jamais saberei por que o meu primeiro parto demorou tanto, mas com certeza não foi por falta de entrega da minha parte. Saber me manter consciente no presente não significa que eu queira controlar o incontrolável. A prova disso é que eu não me frustro quando as coisas acontecem de um jeito totalmente diferente do que planejei. Eu só quero, em qualquer hipótese, ser respeitada.

 

Meu marido me agradeceu, emocionado, por ter proporcionado a ele a experiência mais incrível de sua vida. Não foi como planejamos, não foi o que esperávamos, mas foi perfeito. Parir no chão da minha sala, ao lado da porta, na presença das duas pessoas em quem mais confio no mundo, capazes de me respeitar, aceitar e amar mesmo quando eu só consigo falar gritando com elas, foi melhor do que qualquer cenário que eu poderia imaginar. E eu agradeço ao Igor por ter chegado desse jeito tão inesperado, mostrando sua intensa vontade de viver. A cada dia se revela mais um pouco esse traço marcante de sua personalidade: quando quer alguma coisa, meu sagitariano com lua em áries não gosta de esperar… E já deixou isso claro ao estrear nesse mundo.

O pesto e a memória

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Dia desses fui à feira. Uma das barracas tinha temperos frescos, cujo perfume tornava quase impossível passar por ali e resistir à vontade de escolher com o nariz qual deles levar. Comprei dois maços de manjericão italiano: a espécie com folhas grandes, de cor e aroma intensos. Uma amiga escreveu há poucos dias que fez um pesto com o manjericão que planta em casa, contando sobre a relação desse cheiro com sua infância como neta de uma nonna italiana.
 
Eu não tenho ascendência italiana, o que é uma lástima. Eu adoraria que essa culinária tão rica fizesse parte de minha memória afetiva. A primeira vez que experimentei um pesto foi já na adolescência, na casa de uma amiga. Fizemos um macarrão e ela abriu o vidro que tinha na geladeira, espalhando o molho sobre a massa. Eu ainda iria conhecer outros bem melhores do que aquele comprado pronto, mas de qualquer forma o primeiro encontro de minhas papilas gustativas com esse sabor foi inesquecível.
 
Minha amiga e eu acabamos nos afastando. Não, não teve nada a ver com o pesto. Quando comemos juntas aquela massa no fim de um dos muitos sábados em que eu dormi em sua casa, eu não imaginava que isso fosse possível. Eu não me via sem ela. Um dia, não sei por que, ingenuamente perguntei a ela se seríamos amigas para sempre. Ela respondeu que não sabia, pois as pessoas mudam e seguem rumos diferentes na vida. Talvez ela estivesse apenas sendo madura demais para uma pessoa de dezessete anos. Mas eu entendi como uma mensagem. Senti uma dor difícil de explicar. Naquela época eu já sabia como era gostar de alguém – romanticamente – e não ser correspondida, mas levar o fora de uma amiga, de uma melhor amiga, foi uma experiência muito mais angustiante. E eu não tinha nem para quem contar isso, já que era ela própria a minha confidente. Na iminência de ser deixada por minha amiga, tomei eu mesma a iniciativa e dei a ela o espaço que entendi que ela me pedia. Continuávamos conversando normalmente quando nos encontrávamos, mas ela deixou de ser a minha pessoa. Não voltei a dormir em sua casa, passar horas com ela ao telefone, dizer-lhe meus segredos. Depois de um tempo, perdemos o contato.
Quando a reencontrei, muitos anos mais tarde, eu me perguntei quem eu seria se tivesse permanecido à sombra daquela relação que significava tanto para mim. Há pouco tempo, percebi que esse foi um padrão que repeti em vários relacionamentos: quando sentia que minha presença já não era tão desejada, eu me afastava. É provável que eu tenha me equivocado em alguns casos, e uma conversa honesta poderia ter sido melhor que sumir da vida das pessoas. Mas o medo da rejeição decidiu por mim.
 
Ontem eu fiz o meu pesto. Com certeza não se compara à receita de uma nonna italiana original. E o aroma não me traz lembranças felizes do passado. Mas meu marido e meu filho estão encantados com o sabor do molho. Assim como eu, que não consigo deixar de me alegrar quando abro um dos vidros e o cheiro de manjericão se espalha pela cozinha. É um cheiro de comida feita com amor, para alimentar as pessoas que amo.
 
Imagino meu menino, quando crescido, passando pela barraca de temperos na feira. Ele escolhe um maço de folhas largas e bem verdes, porque o aroma o remete à cozinha da mãe. O meu pesto lança afetuosas memórias olfativas ao futuro. 

Linda

pexels-photo-788824.jpegPele brilhante de suor, cabelos perfeitamente desordenados, você mexia o corpo ao som de Rock the Casbah. Meus olhos acompanhavam seus quadris, para lá e para cá, num movimento lento e amplo que me deixava tonto. Avancei em sua direção sem ver mais nada, as mangas da camisa dobradas até os cotovelos, o queixo próximo do peito, olhos fitando minhas próprias sobrancelhas. Talvez eu colocasse as mãos na sua cintura e dançasse com você. Só aproximei os lábios de sua orelha e disse: linda. Seus olhos me deportaram para a Sibéria. Eu supliquei: mas, linda. Você disse: está na hora de você beber uma água. Água enferruja, linda. Na minha cabeça pareceu engraçado, desculpe.

Pedi outra cerveja, reclinei o corpo e apoiei o cotovelo sobre o balcão do bar. Dali eu podia ver você dançar. Toda vez que erguia os braços, fechava os olhos e sorria, deixando ver o espacinho entre os dentes da frente. Duas grandes argolas douradas pendiam dos lóbulos de suas orelhas. Você abriu os olhos e me viu. Trocou de lugar com sua amiga. Não me incomodei, assim eu podia ver outro ângulo seu.

Você traçou com os olhos seu caminho até o banheiro, passando distante de mim. Não queria que as coisas fossem desse jeito entre nós. Eu queria dizer: não seja assim, linda. Se você apenas me olhasse, talvez me visse de verdade. Se você me escutasse, eu teria tanto a dizer. Sua amiga foi na frente, puxando você pela mão. Era difícil abrir caminho na pista entre os corpos em movimento, mas vocês conseguiram.

Esperei na porta do banheiro como uma servil sentinela. Você saiu e eu chamei. Linda. Você não atendeu. Eu não sou assim, mas tive que pegar no seu braço. Só para chamar sua atenção. Senti o cheiro do seu creme de cabelo, você virando o rosto na minha direção. Em seguida, seu corpo todo se voltou para mim, em câmera lenta, ombro esquerdo, seios, ombro direito. A atração entre nossos corpos era incontornável como se a força gravitacional da Terra trouxesse para si o meteoro que acabaria com a vida de seus jurássicos habitantes. Não sei dizer se era o punho fechado da sua mão direita que vinha ou se era meu nariz que ia. Encontraram-se os dois no meio do caminho, em extraordinária colisão. Do alto, sua voz era agridoce, entrava em meus ouvidos como uma fanfarra marchando no desfile da Independência. Saiu alisando os nós dos dedos com a palma da outra mão. Um corredor se abriu entre os corpos – não mais em movimento – e você desfilou magnífica em direção à saída.

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Camila me disse que abriu esse lugar novo, com bons drinks e música gostosa para dançar. Falou que eu precisava me divertir. E era verdade. Havia meses que eu trabalhava na dissertação do mestrado, aproveitando o silêncio da noite para escrever e dormindo durante o dia, dando ao mundo poucas oportunidades de me ver. Uma noite de distração não me faria mal, e poderia até ajudar naquele momento em que a pesquisa não estava rendendo e eu me sentia derrotada. Valia a pena me entregar a um leve torpor alcóolico e dançar até meu corpo desabar.

Ela usava um vestido preto, sandálias de salto alto e os cabelos presos no alto da nuca. Eu vesti um short de cintura alta, blusinha curta e sapatilhas. Meus pés não nasceram para se equilibrar sobre saltos. Ergui a raiz dos cabelos com o pente garfo, coloquei os brincos de argola que ganhei dela e me animei até para me maquiar. A fila ainda não era longa quando chegamos. Ao entrar, pedi um mojito para a Camila, uma cerveja para mim, e fomos para a pista. Passaram-se uns minutos e eu já estava distante das disputas sócio-antropológicas entre modelos abstratos de organização do mercado. Longe das burocracias acadêmicas e normas da ABNT. A gente devia fazer isso mais vezes.

Não demorou muito para sentir o bafo quente de um bêbado na minha orelha. Inferno. Tentei dispensá-lo com educação. Ele se afastou, mas deixou para trás o bafo e um rastro de inconveniência. Procurei um lugar para me abrigar dos seus olhos. Camila me disse pra esquecer e relaxar. Certo. Fechei meus olhos para não ver mais. A música era boa mesmo. Era quase possível ignorar a hostilidade do desejo alheio que se impunha sem convite sobre cada movimento meu. Camila insistia que eu não deixasse um desconhecido estragar nossa noite. Ela quis trocar de lugar comigo. Eu sentia aqueles olhos de coruja velha colados na minha nuca. Queria outra cerveja, mas ele não saía do balcão do bar. Concentrei na música até a vontade passar.

Mais tarde, Camila e eu saíamos do banheiro, ele me puxou pelo braço. O meu fucking braço. Minha pele. Minha noite. Minha garganta seca. Fiquei paralisada, com o ódio em ebulição na parte interna das bochechas. Meu corpo ofendido respondeu por mim sem que eu mandasse. Cravei as unhas na palma da mão, formando um pequeno bloco maciço de carne, osso e ferro fundido. Mirei entre os olhos de coruja e meu braço disparou. Caído no chão, ele encontrou seu espaço e não invadia mais o de ninguém. MEU NOME NÃO É LINDA, OTÁRIO.

Sobre o processo criativo

Quando a gente se propõe a escrever com regularidade – seja por razões profissionais ou pessoais – não pode simplesmente contar com aquela inspiração sazonal, aquele momento em que a mente canaliza uma ideia vinda sabe-se lá de onde e que se converte em palavras fluindo através de nossos dedos. E aí, o que você faz quando seu prazo está chegando e você não tem ideia do que escrever?

Você pode, por exemplo, escrever um texto sobre o processo criativo.

Algumas dicas que já me serviram para vencer a paralisia diante da tela em branco:

  1. Começar pelo ambiente. Descrever o lugar em que estou, por exemplo. “O espaço da grande sala é dividido apenas pela disposição dos móveis. O piso claro e as três grandes janelas, que recortam a parede de um extremo ao outro, aumentam a sensação de amplitude. Um gato se espalha preguiçosamente sobre o topo do espaldar do sofá vermelho”. Pode ser um começo. É claro que, para isso virar ficção e, principalmente, uma ficção interessante, é necessário desenvolver um conflito, mas fazer isso a partir de um parágrafo qualquer pode ser mais fácil.
  2. Também a partir da observação do ambiente, contar a história de um objeto. Em meu conto Jota Peg, eu falo sobre um álbum de fotografias. Essa ideia surgiu porque, sobre minha mesa de trabalho, no meio da minha bagunça, está um álbum da minha tia, que eu peguei para digitalizar suas fotografias. IMG_1653.jpg
  3. Por falar em bagunça, algumas pessoas precisam de um ambiente perfeitamente organizado para se sentirem produtivas. Outras se viram melhor na bagunça. Eu sou mais do segundo grupo, gosto de ter livros, cadernos, objetos, referências, tudo ao meu redor. Mas quando a desorganização é demais, também me bloqueia. Então, no meio de uma crise de criatividade, se estiver tudo arrumadinho demais, bagunce. Se estiver bagunçado demais, arrume.
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    Bagunça no ponto
  4. Ouvir a música certa para criar o clima. Eu gosto muito de música instrumental para escrever. Mas cada tema exige a trilha sonora adequada. Ainda falando do Jota Peg, comecei ouvindo o álbum Symphonies Nos. 1 and 2 da Ukraine National Symphony Orchestra. Mas, conforme o tom da história foi se revelando, eu parti para playlists chamadas “Coração Partido”, “Alone Again” e “Bad Days”.

  5. E, claro, o bom e velho pânico de última hora!305346_246012265446820_210286542352726_647653_459745339_n

Gostou? Espero que possa ajudar. E você, tem alguma dica testada e aprovada para compartilhar? Conte para mim nos comentários!

Jota Peg

photo-album-photographer-old-47816.jpegNa casa dos meus pais, os álbuns de fotografia ficam na estante da sala. Eu costumava pensar que era para facilitar o ritual do constrangimento. As visitas de domingo chegavam para o almoço e a conversa começava meteorológica. Esse verão que só chove, os invernos que já não são frios como antigamente, mas e a seca no Nordeste, você viu que tristeza. Daí pulava para a política. Poderia ser um assunto inoportuno, mas ainda que parecessem exaltados, todos se assentavam na confortável certeza de que os políticos não valem nada, sem exceção, não tem diferença nenhuma entre os partidos, mas claro que esse que está no governo agora é o pior. Na sobremesa os assuntos se dividiam, os homens falavam de futebol e as mulheres da novela. No cafezinho já estavam quase sem assunto, e então minha mãe pegava os álbuns. Ignorando os protestos meus e de meus irmãos, exibia com orgulho as memórias estampadas em papel fotográfico desbotado. Olha só como eu estava linda no meu casamento, tão magra. E aqui o Júnior peladinho, que graça. Nesse dia aqui a Marcinha abriu o berreiro porque queria ir na montanha russa do parque. Adivinha só? Vomitou lá no alto e voltou chorando. Minha mãe contava e gargalhava, os olhos úmidos de tanto rir. Eu traçava em silêncio planos de vingança por aqueles anos de humilhação.

Eu já tinha vinte e um quando minha mãe me contou por que os álbuns ficavam naquela mobília específica. Não era apenas para entreter visitantes enfadados pela falta de assunto. Minha mãe imaginava que, na eventualidade de uma catástrofe, seria mais fácil salvar as relíquias da família se elas estivessem ali, perto da porta de saída. Se a casa pega fogo, minha filha, largo tudo pra trás, menos as fotografias. Não havia então discos rígidos e a nuvem era somente sinal de chuva, e não uma rede abstrata onde se podem armazenar dados. Para minha mãe, aqueles álbuns de fotografia eram a coisa mais preciosa que tínhamos, depois de nós mesmos.

Um filme de 12 poses durava tempos lá em casa. Nos aniversários, minha mãe fazia todos os convidados se espremerem atrás da mesa do bolo, e fazia uma única fotografia para registrar o evento. Também era assim no Natal, nos passeios de férias e outras ocasiões dignas de registro. O filme de 36 poses era proporcionalmente mais barato, mas minha mãe o evitava porque não suportava ter que esperar tanto tempo até que pudesse ser revelado.

Minha relação com a fotografia é diferente, mas também um pouco parecida. Faço dezenas de fotografias todos os dias, de coisas como meu café com um biscoitinho no pires ou o engarrafamento no final de tarde. E nenhuma imagem está sozinha. Todas são acompanhadas de uma sequência de cenas praticamente idênticas, das quais ao final seleciono uma para aplicar o melhor filtro e publicar numa rede social. Nas raras situações em que decido imprimir uma fotografia, conferindo-lhe existência para além do digital, é porque ela tem valor especial para mim. Nem toda imagem merece traçar seu caminho de tinta dos pixels até o papel. Algumas felicidades não ultrapassam a extensão do arquivo digital.

Quando planejávamos nosso casamento, convenci Maurício a investir boa parte de nosso orçamento para contratar um excelente fotógrafo. Eu disse que era mais importante que a banda, o uísque e os bem-casados. A fotografia era essencial. O profissional escolhido superou nossas expectativas. Receber as prévias em baixa definição foi suficiente para termos certeza de que nosso dinheiro havia sido bem empregado. Ele não apenas capturou com maestria nossas emoções, mas conseguiu retratar a cerimônia e a festa com tanta beleza que elas pareciam melhores nas imagens do que tinham sido na realidade.

Quase dois anos se passaram até que eu finalmente selecionasse, sozinha, as noventa imagens que iriam compor o álbum do casamento. O de verdade, que colocaríamos na estante da sala. Maurício e eu tentamos fazer isso juntos diversas vezes, mas sempre acabávamos discutindo – ele queria uma foto porque nela sua mãe estava sorrindo, não se importando com o fato de que naquele clique específico eu estava com queixo duplo. Ou éramos vencidos por uma associação infalível de tédio e procrastinação. Vamos só ver um episódio daquela série, depois continuamos. Mas logo agora que chegou a pizza. Vou só tomar um banho e já vemos isso. Acabei escolhendo sozinha e ele não disse nada. Depois de um tempo, eu decidia muitas coisas sozinha. Ele raramente dizia alguma coisa.

Nas fotografias diárias estávamos sempre sorridentes, brindando com cervejas artesanais, saboreando hambúrguer de costela no food truck, completando o treino de dez quilômetros no domingo de manhã. Os sorrisos eram ativados pelo botão de fotografar como se fosse um controle remoto. Publicada a imagem com as devidas hashtags, engolíamos o silêncio. No escuro, sob o peso de seu corpo, eu fechava os olhos e pensava no homem que aparecia ao meu lado nas fotos. Seria incrível ser amada como eu parecia ser amada por ele. O sexo era como a corrida no parque: distância programada, velocidade controlada, tempo cada vez menor. Terminava com ele indo para o chuveiro antes que eu conseguisse encontrar minha calcinha entre os lençóis.

O telefone de Maurício vibrou. Na tela bloqueada, Renata perguntava se ele estava acordado. Acendi a luz. Peguei os óculos na mesinha de cabeceira. Olhei de novo. Um segundo alerta vibratório acompanhou o surgimento de um pequeno ícone de imagem. A senha ainda era a mesma de todos os seus dispositivos eletrônicos. Renata estava deitada, segurando o aparelho celular com os dois braços erguidos, num ângulo que afinava seu rosto e permitia ver seu corpo nu, desde a testa até o início das coxas. Respirei fundo e percebi um cubo incandescente dentro do meu estômago. Ajeitei a postura, abrindo os ombros, e o cubo foi rolando esôfago acima, as arestas ferindo e queimando meu tubo digestivo. Meus olhos ardiam e embaçavam as lentes dos óculos. Vomitei o cubo de lava. Sobre o lençol branco, parecia só vinho tinto. Maurício saiu do banheiro vestindo uma nuvem de vapor e gotículas sobre os pelos. O que aconteceu? Você tá bem? Atirei o celular nele com força.

Não é isso. Calma. Eu explico. Espera. Só estamos conversando. Foi só dessa vez. Ela que me procurou. Não aconteceu nada. É só virtual. Não vai acontecer de novo. Me perdoa. Eu não pedi foto nenhuma. Ela não vale nada, só quer me ferrar. Você tá sendo irracional. Vai dizer que você nunca falou com seu ex? Cala a boca e me escuta, sua louca. Desculpa. Calma, não falei por mal. Eu errei, mas te amo.

Hoje vi uma foto de Renata e Maurício, suados e sorridentes. Na legenda: corridinha básica para espantar o frio, hashtag mozão hashtag parceria hashtag casal corredor. Eu ri.

A capa do álbum tem a inscrição Nossas Núpcias, escrita com uma fonte de ângulos suaves e arredondados. É um pouco brega, mas eu quis um toque vintage. Parece com o álbum dos meus pais. As letras ficam engraçadas quando dançam no fogo. Uma vez minha mãe queimou sem querer um filme inteiro de 12 poses, abrindo a câmera antes de enrolar o negativo. Ela chorou. Queimar fotografias usando fósforos e álcool em gel é mais difícil. A chama viscosa e azul se arrasta devagar sobre a capa dura e o papel fosco. Nas primeiras três tentativas, o fogo morreu antes de causar algum dano ao vestido branco. Precisei rasgar as fotografias, uma a uma, antes que elas se convertessem em fumaça e cinza. Não chorei. Na casa dos meus pais, as fotografias ficam na rota de fuga para escapar em caso de incêndio.

Vinte meses

Filhote,

Faz tempo que não escrevo para você. Os últimos dois meses não foram muito fáceis, meu amor. Mas agora eu estou me reencontrando e me sentindo mais forte para voltar a fazer algo que tanto amo, que é escrever. Hoje você está fazendo 20 meses de vida, e não vou enumerar todas as habilidades que conquistou, quantas palavras já sabe falar e quantos vocábulos você criou no idioma ivanês, porque não saber como se diz em português não é motivo para você encerrar a conversa.

O que quero hoje é contar outras coisas para você. A primeira é que não sou perfeita. Eu sei que por alguns anos você vai duvidar disso. Você pensa e vai continuar pensando por bastante tempo que sua mamãe sabe tudo. Depois, quando chegar à adolescência, vai ter momentos (espero que não seja o tempo todo) em que vai pensar que não sei nada. E bem mais lá na frente, vai compreender que sou só uma pessoa adulta procurando fazer o melhor que pode. Mas não nos adiantemos tanto.

Quero que você saiba que eu erro e me arrependo. Com você, com as outras pessoas e comigo mesma. Especialmente nos dias em que me encontro no limite do cansaço, é fácil escorregar, sabe? É importante você saber disso, filho, porque você vai errar e se arrepender bastante vezes também. Quero contar, e mostrar com o meu exemplo, que sempre é possível recomeçar, melhorar, fazer diferente. E não importa o que aconteça, sempre existirão pessoas para apoiar você, para lembrar que um erro não o define e para enxergar o seu valor. A começar pela mamãe.

Outra coisa que quero dizer é que, mesmo nos dias mais difíceis, eu continuo lembrando que ser sua mãe é a realização do meu maior sonho. A maternidade é uma responsabilidade tão grande, um trabalho que exige tanto! Se fosse qualquer outro emprego talvez eu pedisse demissão. Noites mal dormidas, desafios cada vez maiores para entreter, brincar, ensinar, manter você longe da TV ou iPad e ainda assim conseguir fazer a comida, ajeitar a casa. Lidar com as suas frustrações, encontrar formas de me comunicar com você sem violência quando você tem uma crise de raiva. Sobreviver a dias chuvosos sem poder ir lá fora. Suportar o horror que têm sido as mordidas me deixando coberta de hematomas desde que seus últimos molares começaram a nascer (a dentista disse que eles só viriam depois dos dois anos, mas seus dentinhos têm pressa!). Nesses dias você me viu chorar algumas vezes. De dor, de cansaço, de ressentimento.

Felizmente as recompensas desse trabalho também são as maiores que existem. Ver você crescer cada vez mais corajoso, explorador, inventando brincadeiras. Cada dia mais menino e menos bebê. Perceber o quanto você é carinhoso não só comigo, enchendo-me de carinhos e beijinhos ou dizendo “amomãe”, misturando amo com mamãe, mas também com as outras pessoas. Você é uma criança adorável. E o amor ameniza as dores, alivia o cansaço e dissipa o ressentimento. Todos os dias seu pai e eu ficamos alguns minutos falando sobre a sorte de ter você em nossas vidas, sobre como nossa família é a fonte em que renovamos nossas forças, é o que nos faz caminhar e faz tudo valer a pena. Há um ano e oito meses somos pessoas muito mais felizes porque você está aqui.

Meu periquito, pirulito, pililico. Um dia você vai detestar saber os apelidos bobos com que eu o chamava, e eu vou lembrar que meu colo era seu lugar favorito no mundo.

Amo você mais do que tudo, meu amorzinho!

Mamãe

Quem chora quer o quê?

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Você que tem filho, sabe quando você está muito triste ou frustrado(a) por algum motivo? Talvez tenha perdido o emprego, sofrido uma violência ou uma traição. Talvez tenha se decepcionado com alguém. Ou esteja nas profundezas do puerpério. Não importa a razão. Imagine que, diante da pessoa que você mais confia no mundo, cônjuge, parceiro(a), melhor amigo(a), talvez até sua mãe ou seu pai, você se permite chorar. O que você espera é acolhimento, certo?
 
Imagine então que essa pessoa, em quem você confia tão profundamente a ponto de expor toda a sua vulnerabilidade, reage assim:
 
– ISSO, MOSTRA PRA TODO MUNDO COMO VOCÊ É CHORÃO! OLHA LÁ, TÁ TODO MUNDO VENDO VOCÊ CHORAR!
 
Perceba. Por amor, por favor, não faça isso com seu filho. As razões pelas quais os bebês e as crianças choram podem parecer banais para pessoas maduras, mas são as razões deles! Ninguém no mundo gosta de (e nem merece) ser ridicularizado por seu sofrimento. Não resolve, não ensina a criança a lidar com sua frustração.
 
Eu sei que não é fácil suportar um choro estridente e incessante muitas vezes causado por uma coisa que, para nós, adultos, é absurda. Como o garotinho de um ano e pouco na praça que gritava porque sua mãe não queria deixá-lo se atirar no espelho d’água.
 
Precisamos compreender, porém, que dentro do arcabouço de experiências de uma criança pequena, o que é óbvio para nós, não é para ela. O bebê nem imagina que seja um problema se jogar na água num dia gelado. Não faz ideia da temperatura daquela água, nem da profundidade, tampouco lhe passa pela cabeça que esteja imunda. Não sabe que existem regras sociais que determinam que as pessoas não devem nadar na pracinha. Ele não entende a proibição e fica frustrado.
 
Conheço incontáveis adultos que não sabem lidar com suas próprias frustrações, reagindo de forma absolutamente inadequada a situações em que são contrariados – com impaciência, raiva, intolerância e até violência. Como então esperar uma reação madura de alguém que sequer entende o motivo do “não”, e que conta com vocabulário reduzido para se expressar?
 
A mensagem que se passa a uma criança reagindo ao seu choro com menosprezo é de que é feio e inaceitável expor seus sentimentos. E que é aceitável rir e fazer piada com o sofrimento alheio (já que a pessoa que mais amo no mundo faz isso comigo).
 
Se a criança é um menino, isso tudo costuma vir com uma carga ainda maior no sentido de que “homem não chora”. Gente, por favor. Precisamos no mundo de homens (independentemente de sua orientação sexual) com maturidade emocional. Bem resolvidos com seus sentimentos. Que não sintam sua masculinidade ameaçada por ter lágrimas nos olhos. Homem de verdade chora, SIM. Homem de verdade sente dor, medo, tristeza. Esconder sentimentos não torna ninguém mais homem.
 
Então, pai e mãe, acreditem em mim, eu sei que nem sempre é fácil ser a pessoa adulta na relação, mas sejamos. Há momentos (MUITOS) em que a paciência quase se esgota. Nem sempre é fácil segurar o grito na garganta ou deixar de repetir os padrões da nossa criação. Mas façamos um esforço. Não vamos rir da frustração de nossos pequenos. Não zombemos de sua vulnerabilidade. Acolhamos o sentimento deles. Digamos: “eu sei que você está triste/frustrado por não poder fazer isso. Podemos fazer outra coisa”. Abracemos. Assim, com a autoestima fortalecida, será mais fácil, para eles, lidar com as frustrações no futuro.
 
A propósito, quando a mãe do menino na pracinha disse a ele “olha lá, seu amigo tá vendo como você é chorão’, meu filho de 14 meses se aproximou dele e, sem que ninguém lhe dissesse nada, fez um carinho em sua cabeça. Eu respirei aliviada. Sim, é isso que ele tem aprendido comigo e com o pai dele: quem está chorando precisa de um carinho.

Entretenimento infantil durante o voo e trechos terrestres

Essa será a primeira vez que o Ivan viajará de avião. E de trem. E de ônibus. Entreter um bebê em viagens de carro já não foi moleza. Mas agora lidamos com um toddler que quer andar o tempo todo, e em meios de transporte coletivo a maior preocupação é tentar não incomodar (muito) os outros passageiros.
Então essas são as ideias que tenho até o momento para tentar tornar a viagem o mais tranquila possível:

  1. Dormir. Como mencionei no post anterior, nossos voos principais e mais longos são noturnos. Os trechos terrestres longos também programamos para fazer à noite. Eu realmente acredito que o Ivan vai dormir nesses trechos. Ele costuma dormir bem à noite, ainda que acorde de vez em quando para mamar. 
  2. Mamar. Várias mães dão essa dica: amamentar durante a decolagem e o pouso minimiza os desconfortos causados pela pressão nos ouvidos. 
  3. Comer. No carro, quando o Ivan está entediado, biscoitinhos de arroz ou de polvilho e uvas passas costumam deixá-lo mais tranquilo.
  4. Música. Outra coisa que o acalma bastante. Já tenho os álbuns preferidos dele salvos para tocar off-line no Spotify.
  5. Livrinhos. Ocupam pouco espaço, mas também o entretêm por pouco tempo.
  6. Brinquedos. Algumas mães sugerem levar brinquedos novos (os antigos já não fazem sucesso). Mas essa opção não me agrada muito porque: a) muita coisa para carregar, b) as novidades deixam de ser novidades muito rapidamente; c) são raros os brinquedos que sirvam para entreter uma criança da idade do Ivan (um ano e dois meses) sentadinho no meu colo. Vou levar uma coisinha ou outra, mas não confio que vá funcionar por muito tempo.
  7. Vídeos e joguinhos no celular ou tablet. Não sei se o voo que pegaremos terá boas opções de entretenimento individuais, mas prefiro nem contar com isso (até porque não é qualquer desenho animado que ele gosta). Vou levar os preferidos baixados para ver off-line (há algumas opções que ele gosta na Netflix, e outros baixei o aplicativo, como Palavra Cantada e Bita). Não está entre as primeiras opções não só porque gosto de limitar o tempões exposição dele a telas, mas principalmente por serem trechos noturnos, e acho que ficar vendo desenhos animados pode interferir negativamente no sono. Mas pode ser uma boa para quando ele acordar de manhã, e para viagens curtas de trem que serão feitas durante o dia.

Editando para colocar dicas da minha amiga Aline que eu tinha esquecido e achei ótimas:

– Papel, giz de cera, carimbo e adesivos autocolantes! 

Você já viajou com bebês ou crianças e tem alguma dica que eu não coloquei na lista? Conte pra mim nos comentários! 

Primeiro passo: escolha e compra das passagens

Sempre que possível, nós resgatamos nossas passagens com pontos do nosso programa de milhagens. Mas, dessa vez, não tínhamos pontos bastantes para isso.
Pesquisamos, então, pelo Skyscanner, dando prioridade a: 

  • Voos noturnos, pois acreditamos que será mais fácil o Ivan dormir e não termos tanta dificuldade para entretê-lo;
  • Mínimo de escalas e conexões possíveis;
  • Preço baixo.

Ocorre que, embora o Skyscanner seja o nosso buscador de passagens favorito, não é ele quem efetivamente vende as passagens. No caso, os bilhetes que mais se encaixaram nos critérios acima eram vendidos pela eDreams. Encontramos muitas reclamações dessa agência (cancelamentos, venda de passagens que já não existiam e overbooking) e preferimos não nos arriscar.

Entramos em contato diretamente com a companhia aérea e compramos as passagens por um preço apenas um pouco superior ao oferecido pela eDreams. Nossos voos de ida e volta contam com conexões no Rio de Janeiro e em Roma. A de Roma, na ida, é bem longa (7 horas). Se chegarmos na hora e a passagem pela imigração for bem rapidinha, talvez deixemos nossas bagagens no locker do Terminal 3 para ir dar uma olhadinha no Coliseu. =)

No próximo post vou falar dos planos de entretenimento para o Ivan no avião.