Visite a Residência Belotti em Curitiba

icontokaoki-transparentbackground faixaConstruída em 1953 para o casal Medoro e Nine Belotti, a residência Belotti foi uma das primeiras da corrente modernista em Curitiba, e foi projetada pelo arquiteto Lolo Cornelsen.  A casa passou quase 10 anos abandonada, até ser inteiramente restaurada. Até o dia 1º de junho, ela está aberta para visitação pública, bastando doar um quilo de alimento não-perecível, que será doado a entidades beneficentes. É praticamente na faixa, né? No mesmo local, também estão expostas obras da artista Zélle Bittencourt.

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Foto do quintal da residência Belotti
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A única coisa que não foi possível restaurar foi a vista original: em 1953, dessas janelas era possível enxergar até a Praça Osório!
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Construção da residência Belotti. Foto do site do arquiteto Lolo Cornelsen.
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O portão, com padronagem igual à de um painel da casa, foi desenhado por Lolo Cornelsen especialmente para a residência Belotti.
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Pisos originais restaurados.

O horário de visitação é das 13h às 19h, de 12/05 até 01/06. A casa fica na Rua Dr. Faivre, 621, próxima da Reitoria da UFPR, no Centro de Curitiba. Corre que ainda dá tempo! 

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Gentileza

Mural pintados sobre pilastra de concreto do Viaduto do Caju, Rio de Janeiro, pelo Profeta Gentileza.
Mural pintado sobre pilastra de concreto do Viaduto do Caju, Rio de Janeiro, pelo Profeta Gentileza.

Você, que é uma pessoa esperta, sabe tão bem quanto eu que não devemos deixar que as atitudes alheias interfiram negativamente em nosso humor. Imagine a tranquilidade que será a vida se assumirmos a responsabilidade por nossas próprias emoções a tal ponto, que os outros não consigam nos aborrecer, irritar ou entristecer? Fantástico, não? O problema é a distância entre saber e conseguir colocar isso em prática.

É até fácil ignorar as tentativas dos representantes do inferno de Sartre de nos tirar do eixo quando está tudo maravilhoso. Mas quando já estamos fragilizados por outras circunstâncias, sem querer baixamos a guarda e ficamos mais vulneráveis. De repente você não dormiu bem, acordou atrasado, seu cabelo está rebelde, o trânsito está mais caótico que o normal. Está pronto o cenário para que uma grosseria qualquer arruíne de vez o seu dia, se você não tiver a serenidade de um monge zen-budista.

Naturalmente, não é só com você que isso acontece. E pode ser que uma indelicadeza sua estrague o dia de alguém. Por isso, trate as pessoas com gentileza.

Seja gentil no trânsito. Não siga pelo acostamento quando todo mundo está parado na rodovia. Não seja o dono da mão nervosa que buzina por qualquer motivo. Não pare o carro em fila dupla porque é “bem rapidinho”. Não estacione em vagas exclusivas para idosos ou deficientes se você não se enquadrar em nenhuma das situações. Não seja esse cara que pensa que o carro dele é um ônibus:

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Foto que fiz da minha janela.

Seja gentil no trabalho. Cumprimente as pessoas, deseje bom dia e se despeça. Inclusive o porteiro e a faxineira. Peça “por favor”, diga “licença” e agradeça. Não custa.

Seja gentil em casa. É comum as pessoas usarem a intimidade como desculpa para a falta de cortesia. Seja legal com quem você ama! Use as “palavrinhas mágicas” que aprendemos quando crianças, agradeça pela louça lavada, ofereça auxílio.

Se alguém tratar você de forma rude, respire, relaxe, medite, ignore. Não perpetue um ciclo de ignorância. E quando for tratado de maneira amável, passe o bem adiante!

Seja gentil. Talvez seu gesto seja a melhor coisa no dia de alguém.

A Magia de Miró em Curitiba

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Eu já falei aqui sobre a importância de fazer coisas diferentes e até dei uma lista de 30 sugestões custando pouco ou mesmo nada. Para continuar contribuindo, de vez em quando vou dar dicas aqui de coisas legais rolando por aí, especialmente (mas não somente) em Curitiba, onde vivo.

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Miró na inauguração de sua exposição na Galeria Theo, Madrid, 1978

A dica de hoje é a exposição “A Magia de Miró”, que acontece na Caixa Cultural Curitiba entre 21 de maio e 20 de julho de 2014. Miró1


A exposição, que já passou por galerias e museus de São Paulo, Europa, América e Oceania, conta com 69 obras – algumas inéditas! – do artista espanhol e 23 fotografias em preto e branco de Miró registradas por Alfredo Melgar. E o melhor: a entrada é na faixa!

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Na casa de Miró em Son Abrines, 1980. Da esquerda para a direita: Jacques Dupin, Carlos Franqui, Baruj Salinas, Luigi Carluccio e Joan Miró.
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Miró dedicando a grande tela doada à cidade de Montecatini Terme, 1980.

O que mais gostei da exposição foi de ter a oportunidade de adentrar o universo criativo do artista e compreender um pouco desse processo. Além de obras de diversas fases de sua produção, são exibidos esboços e notas feitos sobre embalagens, pedaços de papelão, papel kraft, envelopes selados etc.

É interessante observar a urgência da criatividade: quando a inspiração surge, um lápis ou giz de cera reproduzem a imaginação sobre qualquer superfície que esteja disponível. Deixar para depois pode ser tarde demais.

Ao observar o colorido abstrato numa tela de cores intensas, é difícil imaginar que, até atingir aquele resultado, o artista fez uma série de experimentações. Em alguns casos, os mesmos grafismos se repetem em diferentes telas assumindo, de acordo com as cores que os acompanham e até mesmo a posição em que se encontram, personalidades diversas: uma cascata, uma luta ritual ou uma amazona.

 

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Miró olhando a Miró I, 1983. Tinturas Kodak sobre papel fotográfico. Intervenção de Miró sobre uma foto de A. Melgar.

Sobre o artista (extraído do site da Caixa Cultural)

Nascido em Barcelona, na Espanha, em 20 de abril de 1893, Miró é um dos mais renomados artistas da História da Arte Moderna. Estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris, transmitiu-lhe sua paixão pelos afrescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha e o introduziu à fantástica arquitetura de Antonio Gaudí. Em suas pinturas e desenhos, tentou descobrir signos que representassem conceitos da natureza num sentido poético e transcendental. Nesse aspecto, tinha muito em comum com dadaístas e surrealistas, sendo influenciado principalmente por Paul Klee.

Miró também trazia intuitivamente a visão despojada de preconceitos que os artistas das escolas fauvista e cubista buscavam, mediante a destruição dos valores tradicionais. A partir de 1948, entre Espanha e Paris, realizou uma série de trabalhos de conteúdo poético com variações temáticas sobre mulheres, pássaros e estrelas, entre eles esculturas. Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim pelo mural que realizou para o edifício da UNESCO, em Paris. Miró morreu em Palma de Maiorca, na Espanha, em 25 de dezembro de 1983.

Sobre Alfredo Melgar:
O curador da mostra Alfredo Melgar Alexandre (Madrid, 1944), XIII conde de Villamonte, foi médico rural e professor da Cruz Vermelha, atuou como médico voluntário dos campos de refugiados do Oriente Médio e viajou pela América, África, Ásia e Europa trabalhando, alternadamente como médico e fotógrafo. De volta à Espanha, em 1980, fundou a editora e galeria de arte Alfredo Melgar, produzindo portfólios de pintura, música e poesia. De 2003 a 2008 foi Presidente da Associação Espanhola de Gestores do Patrimônio Cultural (AEGPC). Hoje, Melgar vive em Madrid, realizando trabalhos de edição, produção e direção de exposições e eventos culturais.

Após a temporada em Curitiba, a exposição segue para as unidades da CAIXA Cultural Rio de Janeiro (28 de julho a 28 de setembro de 2014), Recife (7 de outubro a 7 de dezembro de 2014) e Salvador (16 de dezembro de 2014 a 8 de fevereiro de 2015).

Serviço:
Exposição: “A Magia de Miró”
Local: CAIXA Cultural Curitiba – Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Curitiba (PR)
Data: de 21 de maio a 20 de julho de 2014 (terça-feira a domingo)
Horário: de terça a sábado das 9h às 20h e domingo das 10h às 19h
Ingressos: Entrada franca
Informações: (41) 2118-5114
Classificação etária: Livre para todos os públicos

*Todas as imagens que ilustram esse post foram extraídas do lindo programa da exposição, de distribuição gratuita.

Se alguém conseguiu fazer, eu também posso.

Se a segunda-feira é sempre um suplício pra você, está na hora de fazer alguma coisa além de reclamar. Se inspiração é o que falta, trago hoje o exemplo de um menino malauí que contornou a falta de recursos e, contra todas as probabilidades, salvou sua família de um destino infeliz. 6a00df3521152d88340120a5a3b4aa970b-500wi William Kamkwamba nasceu em uma família de camponeses no Malawi. O país situa-se entre os mais pobres do mundo. Aos 14 anos de idade, William viu a Vila de Wimbe, onde mora, passar por uma grande seca, causando enormes prejuízos aos lavradores e trazendo fome a todo o país. William, seus pais e suas seis irmãs faziam apenas uma refeição diária, antes de dormir. Cavavam o solo para achar raízes e cascas de banana para forrar o estômago. Desmaiavam com frequência. Muitos moradores da região morreram de inanição.

A escola de William cobrava uma taxa anual de 80 dólares que, evidentemente, seu pai não conseguiu pagar naquele ano. O menino passou a frequentar a biblioteca da escola, com o objetivo de estudar por conta própria para manter-se no mesmo nível dos amigos que continuaram na escola. Eram apenas três estantes de livros doados pelos EUA, Reino Unido, Zâmbia e Zimbábue. “Comecei a ler livros de ciência, e isso mudou minha vida”, disse William. Ele não sabia quase nada de inglês, e usava as figuras e diagramas nos livros de física para interpretar as palavras ao redor.

O livro “Explaining Physics” ensinou a William o funcionamento de motores e geradores. Outro livro, chamado “Using energy”, tinha a foto de um moinho de vento na capa, e explicava que moinhos podem bombear água e gerar eletricidade. William concluiu que seu pai poderia irrigar a plantação, aumentar a colheita e eles nunca mais passariam fome. Foi assim que ele decidiu construir um moinho. Não havia instruções, mas William sabia que se um homem havia construído no livro, ele também conseguiria.

Foi num ferro-velho que William buscou os materiais para construir sua máquina. As pessoas riam dele quando passava carregando sucata. Diziam que estava louco ou usando drogas. Com um quadro de bicicleta, canos de PVC, roldanas, um ventilador de trator, amortecedor e outras peças enferrujadas, construiu seu primeiro moinho, capaz de gerar 12 watts de eletricidade – suficiente para acender uma única lâmpada.

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Mais tarde, um primo de William encontrou uma bateria de carro na beira da estrada. Deram uma carga nela e conseguiram energia para ligar quatro lâmpadas e dois rádios em sua casa. As pessoas da vizinhança faziam fila para carregar seus telefones celulares na casa de William. Os aparelhos são baratos e populares na África, mas há muitos lugares aos quais a eletricidade não chega. Algumas lojas cobram das pessoas para carregarem seus celulares, e o moinho de William fornecia energia gratuita.

A história de sucesso se popularizou ao ponto de William ser convidado a uma conferência do TED (Technology, Entertainment, Design), uma organização sem fins lucrativos que promove conferências anuais para divulgar boas ideias. O jovem, então com 19 anos, nunca havia saído de sua pequena vila, nunca havia usado um computador nem conhecia a internet. Falou com simplicidade diante de uma plateia encantada. Algumas pessoas o ajudaram a seguir com seus estudos: primeiro ele frequentou um colégio cristão na capital do Malawi, e depois foi admitido na African Leadership Academy, em Johannesburgo (África do Sul), uma escola que pretende treinar a próxima geração de líderes do continente. Há 200 estudantes de 42 países diferentes da África.

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William pretende fazer faculdade, talvez nos EUA, e voltar ao Malawi para encontrar maneiras de produzir energia barata e renovável nas vilas. Seus planos incluem a construção de bombas d’água de baixo custo e que possam ser operadas facilmente, além de colocar um moinho de vento em cada cidade do Malawi. “Em vez de esperar o governo levar eletricidade até as vilas por linhas de força, vamos construir moinhos de vento e gerá-la nós mesmos”, diz William. Dois anos depois de sua primeira apresentação, William voltou ao palco do TED para contar mais sobre sua trajetória e sobre seu invento. Ao final da palestra, ele deixou uma mensagem: “Eu gostaria de dizer uma coisa para todas as pessoas por aí afora, como eu, para os africanos e para os pobres que estão lutando pelos seus sonhos: confie em você e acredite. Não importa o que aconteça, não desista.”

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O que inspirou William a fazer algo diferente foi vislumbrar o futuro que lhe estava reservado se ele apenas se resignasse. Segundo ele, parar de estudar significava que ele seria camponês, e os camponeses não têm controle sobre a própria vida. Dependem do sol, da chuva, do preço das sementes e fertilizantes. Quando teve que abandonar a escola, William olhou para seu pai, para os campos ressecados e viu o resto de sua vida. Ele decidiu não aceitar aquele futuro, e tratou de fazer um melhor.

Veja a seguir a apresentação mais recente de William no TED. Eu vi essa manhã, e ela me encheu de esperança. Na sequência, veja também o vídeo da primeira palestra de William, dois anos antes.

 

 

Conheça ainda:

blog de William, onde você encontra, dentre outras coisas, um documentário contando a história dele.

O flickr de William, de onde vieram quase todas imagens que ilustram esse post (outras vieram do Google imagens).

Fazer coisas diferentes

 

 

Você costuma sentir que o tempo está passando rápido demais? Todo mundo sabe que o tempo é relativo e que passa mais depressa quando você está com caganeira a caminho do banheiro. Cada segundo conta. Mas, a julgar pelas conversas que tenho tido com amigos, o porteiro do prédio, a secretária, a vendedora da loja de bijuterias e os taxistas em geral, parece que o tempo anda acelerado mesmo quando nossos intestinos se encontram em perfeito estado de funcionamento.

Surpreendemo-nos com frequência ao olhar para o calendário e perceber que já estamos quase no fim do mês. Quase na metade do ano. Quase no Natal.

Muita gente diz que faço coisas demais. Trabalho, boxe, yoga, patins, passeios, viagens, cozinhar, passar tempo com o marido, os amigos, a família, arrumar a casa, cursos online, massagem, festas… Alguns dizem com admiração: “uau! Não sei como você consegue! Um dia quero ser como você!”. Há quem diga como se fosse uma coisa ruim: “já está inventando mais uma coisa nova? Não sei como você aguenta!”. O que talvez nenhuma dessas pessoas saiba é que eu gostaria de fazer muito mais. Tocar um instrumento musical, praticar outros esportes, fazer outros cursos, aprender mais línguas, conhecer outros lugares e outras culturas, visitar meus amigos e parentes, meditar com mais frequência, fazer melhor o que já sei, explorar a cidade, desenvolver novas habilidades, ir mais vezes ao teatro e a shows, ler mais livros, ver mais filmes, viajar o mundo.

Fazer coisas diferentes é o melhor jeito de escapar da tirania do tempo. Os dias passarão, eu querendo ou não. Posso dedicá-los exclusivamente ao cumprimento de meus deveres e ao atendimento de minhas necessidades fisiológicas. Ou posso aproveitar para fazer outras coisas, que me façam sentir mais viva. A variedade de atividades traz ainda um bônus: conhecer muita gente interessante.

Quando encontramos um conhecido e perguntamos “o que tem feito?”, a resposta usualmente é “ah, o de sempre”. Chega de fazer o de sempre. Você já está bom o bastante nisso, não precisa se especializar tanto.

Faça um teste: imagine que hoje é seu último dia de vida. O que você gostaria de ter experimentado ou feito mais vezes? Você gostaria de ter passado mais tempo trabalhando? Arranjando briga com desconhecidos no Facebook? Assistindo a vídeos de gatinhos? Vendo novela ou séries americanas? Dormindo?

Muita gente usa a falta de dinheiro como justificativa para não fazer coisas diferentes. Bobagem! Existe MUITA coisa que você pode fazer com pouco ou nenhum dinheiro. Para provar, vou dar uma lista de 30 sugestões, só pra começar. Você pode salvá-la e dar uma olhada sempre que precisar de uma ideia. Ou mesmo se propor um desafio: executar todas! Por favor, escolha pelo menos uma e tente. Depois me conte como foi.

1. Marque um café com alguém que não vê há anos.

2. Comece – e de preferência termine – um curso online (se quiser eu posso dar dicas).

3. Saia para fotografar diferentes lugares da sua cidade. Pode ser com a câmera do celular mesmo!

4. Faça um piquenique num parque.

5. Visite um asilo ou um lar de crianças abandonadas.

6. Reproduza uma fotografia da sua infância, usando roupas semelhantes e se possível usando o mesmo cenário.

7. Tome um banho de chuva.

8. Faça aulas experimentais gratuitas. Dá pra passar a vida experimentando coisas novas sem gastar nada  (yoga, pilates, spinning, boxe, crossfit, todos os tipos de dança, circo, artes marciais, esportes, instrumentos musicais, canto etc.).

9. Filme e edite um vídeo.

10. Medite por 10 minutos.

11. Visite um museu ou galeria de arte.

12. Veja o sol nascer.

13. Passe o dia numa grande livraria ou numa biblioteca (lendo, é claro).

14. Faça uma receita diferente. Se nunca cozinhou, não se desespere: é só encontrar uma receita na internet, ter os ingredientes e seguir o passo-a-passo.

15. Escreva uma carta para alguém. E envie. Sim, pelo correio.

16. Leia um desses livros que você tem em casa em vez de comprar um novo.

17. Agradeça a alguém que já lhe ajudou um dia com um cartão bonito e inesperado.

18. Participe de um concurso cultural (do tipo “escreva uma frase”, “envie um vídeo”, “faça uma foto”).

19. Revele fotos digitais. Coloque em porta-retratos, monte álbuns ou murais.

20. Plante alguma coisa ou cuide de uma planta. Pode ser um caso de flores, uma árvore ou até uma mini-horta.

21. Faça um caminho novo para o trabalho.

22. Aproveite o horário de almoço para caminhar um pouco.

23. Doe roupas e se desfaça de objetos que não usa mais. O que não quiser doar, pode colocar à venda na internet.

24. Visite alguém que vá ficar muito feliz em ver você.

25. Mude os móveis de lugar. Se sua casa é muito pequena e não tem jeito, mude a posição dos objetos na sua mesa.

26. Viaje ao passado revendo fotos antigas.

27. Faça uma surpresa para alguém.

28. Faça uma cápsula do tempo.

29. Escreva um recado inspirador e anônimo e deixe dentro de um livro numa biblioteca ou livraria.

30. Vá ao mercado municipal da sua cidade e experimente uma fruta que nunca comeu antes.

Seu tempo vai passar de qualquer jeito. Você pode decidir o que fazer com ele ou deixar que ele simplesmente escape. A escolha é sua. coisasdiferentes.jpg

Qualquer dia

 

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Você conhece a história do maior romancista de todos os tempos que jamais publicou um livro? É um homem que tem o domínio pleno de todas as nuances do idioma. Usa sintaxes, morfologia e semântica com a mesma maestria de um grande pintor renascentista com os pincéis. Conhece como ninguém as idiossincrasias humanas, sendo capaz de criar as personagens mais realistas e fantásticas. Sua imaginação desenvolve enredos detalhados com grande facilidade.

Ele simplesmente sabe que seu romance será o mais aclamado da história. Graças a essa primorosa obra, ele será lançado ao panteão dos grandes nomes da literatura mundial. Será comparado a Dante, Dostoiévski, Goethe, Tolstói, Camus.

Com a testa encostada num azulejo, sentindo a água quente do chuveiro escorrer pelas costas, o grande gênio visualiza a recepção apoteótica de sua obra prima. Um pensamento mórbido cruza-lhe a mente: e se o reconhecimento de seu talento for póstumo? A ideia soa tão injusta e dolorosa que ele vai às lágrimas. Logo, se recompõe e termina de se ensaboar. Passa os dias seguintes com o semblante de quem superou uma grande perda – a sua própria morte imaginária – com a força de um herói. Conforma-se com a glória de seu nome sendo recitado pelas gerações futuras.

Quando senta diante da tela em branco do computador, não sabe por onde começar. É grande a responsabilidade que carrega e a ansiedade toma conta de seus pensamentos. Escreve um parágrafo e o relê. Fecha o documento sem salvar. Não era impactante o suficiente. A grande obra precisa iniciar com um argumento ao mesmo tempo simples e extraordinário. Deverá surpreender de imediato, pela forma e pelo conteúdo, dando ao leitor a certeza de que as páginas seguintes lhe reservam uma experiência única e transcendental.

O mestre das palavras se distrai, cogitando se não deveria investir mais na sua formação acadêmica antes que a fantástica obra seja publicada. Ele é formado em Letras, mas um Mestrado cairia bem no currículo quando saísse o livro. Melhor: um Doutorado. É uma pena que ele só ganhará o prêmio Nobel da Literatura após o lançamento, de modo que as primeiras edições não contarão com mais esse título na orelha do livro.

Os anos se passam e o maior escritor do mundo mira com desdém as publicações de conhecidos seus. Textos imaturos e superficiais. Ainda bem que ele está tomando o tempo necessário para a construção da obra magnífica. Todos sabem que grandes romances levam muitos anos para nascer. Quiçá, uma vida inteira!

O incrível romancista dedica noites insones a lucubrar sobre o epíteto que sua obra receberá. A de Dante nasceu apenas Comédia, sendo imortalizada como Divina por adição do adjetivo que Boccaccio, fascinado diante de sua grandeza, escolheu para qualificá-la. Como os críticos designarão seu livro? Perfeito? Iluminado? Sublime? Ele gosta particularmente de sublime.

Ninguém conhece a dimensão de suas ambições. Faz parte de seus anseios secretos observar a surpresa nos rostos incrédulos perante a revelação de seu insuperável talento. Alguns poucos amigos já chegaram a ler esboços que escrevera na juventude, e o incentivam a divulgar seu trabalho. Mas ele sabe que tornar público um texto medíocre equivaleria a entregar-se docilmente a seus algozes. Os críticos jamais perdoariam uma obra de saída que fosse menos do que ele era capaz de entregar. Estaria para sempre estigmatizado.

Numa manhã ensolarada de domingo, ele recebe uma visita. Era certo que um dia chegaria, mas, ainda assim, é inesperada. Não veio vestida num manto negro, carregando uma foice. Surgiu na forma de um aperto profundo no peito, acompanhado de falta de ar e uma dor diferente que travou-lhe a mandíbula. Tentou gritar, mas a voz não saiu. Quando pensou em telefonar para a emergência, a vertigem o derrubou.

Caído de bruços no tapete da sala, tentou negociar. Precisava só de mais alguns anos. Se não fosse possível, veria o que conseguia fazer com poucos meses. Abandonaria o trabalho e dedicar-se-ia exclusivamente à execução da obra que, tinha certeza, estava destinado a criar. Semanas, talvez? Pelo menos alguns dias… A ideia já estava pronta, precisava apenas perpetuar-se em papel. É claro que faltaria tempo para os ajustes, mas ao menos a humanidade não seria privada de seu legado. Um minuto, era tudo que pedia, para telefonar a alguém e dizer umas últimas palavras pelas quais seria lembrado.

Coberto de suor, tomado pela dor e pelo cansaço, o homem começa a sucumbir. As palavras “covardia” e “orgulho” ressoam em sua mente já confusa. Num último esforço de autoconvencimento, sugere a si mesmo que a ausência de tentativas ao menos o livrou do risco do fracasso. Na despedida final, seus entes queridos poderiam laurear-lhe o mérito de não ter feito mal a ninguém. Já é alguma coisa, não? Num suspiro profundo, entrega-se.

Desperta na cama, suado e com a frequência cardíaca acelerada. Olha em volta e reconhece o quarto. Tudo no lugar. Foi só um sonho, felizmente. Ele tem a vida toda pela frente. Há tempo de sobra para elaborar com calma o grande projeto de sua vida. O pesadelo o deixou um pouco abalado, parece prudente dedicar o dia ao descanso. Talvez seja hora de agendar uma consulta com o médico, fazer uns exames. A qualquer momento, certamente, ele estará preparado para dar início ao trabalho. Enquanto isso, lerá alguns livros recém-adquiridos e os criticará com a certeza de que teria feito muito melhor que seus autores. Qualquer dia, todos verão.

Qualquer dia.

Vai uma surpresinha aí?

Para ouvir enquanto lê o texto:

Outro dia vi o TED Talk de Tony Robbins, escritor e palestrante motivacional estadunidense – é possível que você o conheça do filme “O Amor é Cego”, no qual ele interpreta a si próprio e hipnotiza o personagem principal, fazendo com que ele enxergue apenas a beleza interior das pessoas. No TED, Robbins pergunta à plateia quem gosta de surpresas. Muitas pessoas erguem a mão. Robbins responde que é mentira: gostamos das surpresas que queremos. Às demais, chamamos de problemas.

É interessante o quanto nos incomodamos com acontecimentos inesperados em nossa vida. Não são raras as pessoas que se deixam abater profundamente por surpresas desagradáveis. É como se desejássemos que nossas vidas pudessem ser representadas, num gráfico, por uma simples linha reta. De preferência, ascendente, é claro.

Imagine, porém, que você está pensando em ir ao cinema nesse final de semana. Você abre um site e lê as sinopses dos dois filmes em cartaz. Uma delas diz: “jovem mulher se casa com o namoradinho de infância. O casal financia uma casa e tem dois filhos. Ambos têm empregos de que não gostam muito, mas acreditam que a vida poderia ser pior. Aos domingos, vão à missa”. A segunda é assim: “depois de deixar para trás a família, os amigos e a cidade em que cresceu em busca do sonho de ser atriz, o único emprego que Fulana consegue na cidade grande é como garçonete. Certo dia, um acontecimento inesperado a leva a conhecer Sicrano e, mesmo contra sua vontade, ela é obrigada a ajudá-lo a decifrar um enigma. A inusitada amizade acaba dando um novo sentido para a existência dos dois”. 

Qual história parece mais interessante? Mesmo que você prefira filmes cuja sinopse se resuma aos termos “mulheres lindas”, “perseguições” e “explosões”, aposto que concorda que o segundo enredo desperta um pouco mais de curiosidade que o primeiro. As histórias mais interessantes, divertidas, tocantes ou edificantes contam com a superação de algum empecilho.

Quantos personagens de longas animados da Disney ou da Pixar tiveram que enfrentar a tristeza da morte de um dos pais, geralmente acompanhada de um grande sentimento de culpa? Qual a comédia romântica que funciona sem que no meio da história o casal se separe, para depois perceber que nasceram um para o outro? Sem reviravoltas, não existiriam filmes de suspense, terror, policiais, romances…

E é claro que não é só na ficção que isso acontece. A verdade é que todo mundo já se deparou com uma situação difícil e/ou inesperada. A morte de um ente querido; uma gestação não planejada; o abandono físico ou emocional de um pai ou uma mãe; o recomeço depois de uma demissão ou de um divórcio; uma violência ou injustiça; a mudança de escola, cidade ou país e as dificuldades de adaptação ao novo ambiente; uma doença; o processo de se livrar de um vício; uma desilusão amorosa. Mesmo as pessoas que aparentemente nunca sofreram também guardam esqueletos no armário.

Não estou sugerindo que você persiga tragédias para se tornar uma pessoa mais interessante. Estou apenas dizendo que os percalços são parte da vida e é assim que devemos encará-los. Os problemas são solucionados com mais facilidade quando não nos apequenamos diante deles. E por mais que pareça, quando estamos sofrendo, que a dor será eterna, todos já sabemos por experiências pretéritas que é verdade o que nossas mães sempre disseram: vai passar.

No fim das contas, o que nos define é a maneira com que reagimos às surpresas que não queremos. Porque ser feliz nos dias em que tudo dá certo é muito fácil. O desafio é encontrar alegria e valorizar as coisas boas quando tudo parece conspirar contra.

 

Imagem original de www.thedoghouse.com
Imagem original de http://www.thedoghouse.com

O que eu quero

Para ouvir enquanto lê o texto:

Há uma diferença entre o que queremos e o que pensamos que queremos. Entender essa diferença é essencial para a satisfação pessoal. 

Segundo conta uma lenda corporativa, quando a Sony estava produzindo o primeiro modelo de Walkman, um grupo de pessoas foi convidado para ajudar a decidir a cor do aparelho. As opções eram: amarela ou preta. O grupo logo concordou que compraria o amarelo, que era muito mais esportivo e interessante que o preto, tão comum. Como forma de agradecimento pelo tempo e atenção dos voluntários, a Sony teria oferecido a eles um Walkman de brinde, deixando uma mesa de cada lado da porta de saída, uma com os modelos na cor preta e outra com os aparelhos amarelos. Com exceção de uma pessoa, todas as demais pegaram um Walman preto.

Não me lembro onde ouvi ou li essa história pela primeira vez. Mas, numa das fontes disponíveis, o autor faz a sua própria interpretação dos possíveis motivos pelos quais as pessoas disseram que queriam uma coisa e acabaram escolhendo outra. Segundo ele, as pessoas teriam ficado com vergonha de admitir perante o moderador do grupo que não gostaram do Walkman amarelo, porque isso seria rude. Além disso, elas não teriam coragem de discordar publicamente do grupo.

Com todo respeito à opinião citada, ouso discordar. Acredito que as pessoas disseram preferir o amarelo porque gostariam de ser as pessoas que escolheriam aquele modelo. Pessoas esportivas e fora do comum. Que se atrevem, que se arriscam, que não se importam com o que os outros vão pensar. Porém, chega a hora de efetivamente fazer uma escolha e elas preferem o caminho mais seguro.

Manter-se na zona de conforto é tão automático que tenho até minhas dúvidas se isso deve ser chamado de “escolha”. Se você faz o mesmo caminho de casa ao trabalho todos os dias, e numa determinada manhã decide fazer um percurso alternativo, precisa ficar mais atento que de costume enquanto dirige, caso contrário fará o trajeto de sempre sem nem perceber. 

É muito provável que essa tendência a escolher a opção mais prudente seja um resquício evolutivo dos perigos presentes em nosso ambiente ancestral. Através da seleção natural, sobreviveram os genes que assegurariam a sobrevivência num ambiente inóspito.

Não há mais animais selvagens à espreita. Sim, há muitos perigos lá fora, mas nenhum deles me paralisa de verdade. Se existe algo que pode me manter bem distante dos meus sonhos, é a falta de ânimo para vencer a inércia, a falta de coragem de fazer diferente, a preguiça, a falta de vontade. Estar acomodado não significa estar contente. Num dia frio, o esterco fresco e quente pode ser a salvação de um pé descalço. Nem por isso enfiar o pé na merda virou a definição da felicidade.

Hoje vou de Walkman amarelo.

Imagem do comercial de lançamento do Xperia pela Sony.
Imagem do comercial de lançamento do Xperia pela Sony.

Questão de vontade, não de idade.

Para ouvir enquanto lê o texto:

Passei cerca de trinta anos da minha vida envelhecendo. Parecia simplesmente o certo a fazer. Ser uma pessoa madura. Adotar o comportamento adequado. Arcar com responsabilidades. Ter opinião. Lidar com problemas cada vez mais difíceis. Conformar-me com o que não posso fazer. Gerenciar minha própria vida. Ser um exemplo de moral. Ter um propósito na vida. Desconfiar das pessoas. Conquistar a independência. Abraçar a complexidade do meu ser e desistir de entender a mim mesma.

Um dia resolvi que não queria mais envelhecer. Descobri que “o certo a fazer” é uma questão de ponto de vista. Percebi que excesso de maturidade significa que você passou do ponto (e o próximo passo é deteriorar). Observei que quem dita qual é o comportamento adequado é geralmente cheio de inadequações. Concluí que ser responsável não é um peso a carregar, mas sim a chave da minha liberdade. Vi que é saudável mudar de opinião de vez em quando, além de ser indispensável respeitar as opiniões diferentes das minhas. Notei que os problemas são do tamanho que eu dou a eles. Perguntei-me: “mas o que é que eu não posso fazer?”. Constatei que gerenciar é algo muito burocrático para definir a minha vida – prefiro fazer arte com ela. Entendi que vale mais a pena inspirar atitudes positivas do que seguir cegamente um conjunto de regras que nem sempre materializa o bem. Decidi ter vários propósitos na vida, mas não me apegar a eles – se algo falhar, o plano B é “continue a nadar, continue a nadar”. Aprendi a importância de cultivar a fé. Conquistei minha independência e, então, dei um passo atrás, para aprender a dizer: “preciso de você”. Resolvi simplificar e, num processo contínuo de autoconhecimento, amar a mim mesma e a quem mais eu conseguir.

De repente, não só parei de envelhecer, mas comecei a ficar mais jovem! Voltei a brincar, a acreditar, a confiar, a arriscar. Estou aprendendo ainda a saltar sem medo (não se abandonam as rugas e cicatrizes da alma sem algum esforço). Estou mais bonita. Sinto-me mais bem disposta. Tenho feito novas amizades e me divertido com as antigas. A dor nas costas diminuiu. E estou enxergando melhor! Mas não com os olhos, claro.

Não frequento muitas festas – escolho somente as melhores. Mas quando compareço, sou a primeira a chegar e a última a sair! Quando eu era velha, costumava pensar: “que bom seria se eu pudesse ter a disposição da juventude com o discernimento que tenho hoje…” E não é que é possível?

Algumas roupas não me servem mais: ficaram muito grandes ou muito sérias. Também existem atitudes que já não me cabem: rabugices, pressa constante, resmungos e lamentos, guardar mágoas e ressentimentos, valorizar as dores e doenças, falar demais, achar que sei mais do que os outros, manter hábitos ruins só porque é difícil mudar. Confesso que foi mais fácil me livrar das roupas que não serviam. Mas estou trabalhando nas atitudes.

Há quem desaprove meu rejuvenescimento. Nem todo mundo consegue abrir mão do cinismo e da descrença. A muitos falta ânimo para abandonar o pessimismo. Alguns simplesmente acham ridículo. Pensam que não tem cabimento uma senhora casada de 32 anos se comportar dessa maneira. Que é um absurdo andar assim, como se fosse uma menina. Não me importo. Fico com a opinião dos jovens, como meu marido, a cada dia mais menino. E minha jovem amiga de 99 anos de idade, que faz piada e ri como criança. E, ainda, minha amiga de 3 anos de idade, que me faz abraçar desconhecidos.

Além disso, conservei do meu tempo de envelhecimento uma série de lições. Uma delas é que eu não posso agradar a todos. Então, só por hoje, escolho agradar a mim mesma.

oki