Sobre a obrigação de realizar todos os sonhos da sua vida ainda hoje

Não é novidade o processo histórico e as circunstâncias que moldaram as gerações conhecidas como dos veteranos, dos baby boomers, x, y, z e sopa de letrinhas. E a não ser que você tenha vivido entre os lobos ou isolado numa caverna nos últimos anos, certamente deve ter notado a proliferação da propaganda da felicidade.

Campanhas publicitárias, artigos, crônicas, livros de autoajuda, blogs e postagens simpáticas no Facebook ordenam o tempo todo: seja feliz! Largue seu emprego! Faça um ano sabático! Seja o que você quer ser! Realize seus sonhos! Não fique parado, você não é uma árvore! Vá à luta! Chute o balde! Não ligue para o que pensam! Nem para o que dizem! Seja você mesmo! Mas seja mais legal do que você é! E ninguém precisa dizer, porque você já entendeu: todos esses comandos trazem implícita a palavra AGORA.

Miscelânea de frase encorajadoras da internet (se você é dono de uma dessas imagens e não quer vê-la aqui, apenas solicite que eu a removerei)
Miscelânea de frase encorajadoras da internet (se você é dono de uma dessas imagens e não quer vê-la aqui, apenas solicite que eu a removerei)

E você fica aí, frustrado, sentindo que é a única pessoa medrosa que ainda não largou a sua jornada de 40 horas semanais para viver uma grande aventura de bicicleta pelo Nepal. Acreditando que a areia dentro da cruel ampulheta do seu tempo de vida está quase alcançando suas narinas e você não fez nada de incrível. Não escalou o Everest, não ganhou um prêmio Nobel, não virou astronauta, seu nome não está nem no Guiness. Você ainda quer ter filhos, preferencialmente morando perto da sua mãe. Adotar um bicho de estimação, ou vários. Morar em outro país. Dar a volta ao mundo. Praticar esportes radicais. Não só mudar de emprego, mas virar um nômade digital. Fazer exercícios físicos com mais assiduidade e se alimentar melhor. Mas também experimentar vinhos e cervejas importadas. Ter uma vida social ativa. Passar mais tempo com os amigos. E passar um período num Ashram na Índia, só meditando. Morar num vilarejo remoto no sul da França. E num apartamento bem localizado em Manhattan. E numa casinha de frente para o mar em Santorini. E tudo isso tem que ser pra já. O símbolo do tempo deixou de ser um relógio: é uma chibata.

Caso ou compro uma bicicleta?
Caso ou compro uma bicicleta?

A internet nos deu acesso a milhares de sonhos. E a propaganda nos diz que se ainda não os conquistamos a razão é uma só: somos medrosos. Na verdade é só uma adaptação do padrão do fracasso por sua culpa exclusiva. As gerações anteriores sempre tiveram esfregado nas suas faces o modelo do sucesso: ter um emprego estável, patrimônio amplo, garantir a segurança da família e desfrutar ao fim da vida de uma confortável aposentadoria. Muita gente não conseguiu isso, pelos motivos mais variados. Mas a explicação da propaganda era uma só: essas pessoas não se esforçaram o suficiente. Se fossem trabalhadoras de verdade teriam conseguido tudo.

Hoje os anseios são outros. A antigamente tão sonhada estabilidade no emprego foi substituída por uma “forma criativa de ganhar dinheiro fazendo o que você ama”. Você vai ouvir de muita gente que os bens materiais não significam nada: o que enriquece mesmo é a experiência. Mesmo que as pessoas que dizem isso sejam proprietárias de imóveis, automóveis e variados fundos de investimentos. E se você não está vivendo intensamente o seu sonho, sinto muito, a culpa é toda sua.

A cada dia, mais pessoas absolutamente livres para fazer o que bem entendem de suas vidas se sentem absolutamente tolhidas pela obrigação premente de ser, hoje mesmo, a materialização de todos os seus potenciais. A pressão para ser extraordinariamente feliz o tempo todo é uma das maiores causas de infelicidade.

Tenho a impressão de que houve uma pequena falha na transmutação dos anseios por estabilidade e conforto das gerações anteriores para os desejos de aventura e liberdade de hoje: a noção de tempo também precisa ser modificada. Antigamente as coisas tinham um momento certo para serem realizadas. Seguir o roteiro era uma questão de sobrevivência. Era preciso estudar, arranjar um emprego, casar, ter filhos, construir um patrimônio e se aposentar. Não havia muito espaço para digressões, a não ser que a pessoa tivesse nascido muito rica (o que continua fazendo diferença).

Atualmente, até mesmo a maternidade pode ser protelada. É claro que os riscos da gestação aumentam proporcionalmente à idade, mas já é quase um consenso que o processo tende a ser mais fácil quando a mulher já está num momento mais tranquilo de sua vida. Antigamente a menarca anunciava o início do ciclo reprodutivo que se encerraria com o esgotamento das condições da mulher de seguir engravidando e parindo. Hoje, fora o desejo da sua mãe e da sua sogra de serem avós, nada pode impedir uma mulher de esperar pelo momento em que se sentir preparada para dar esse passo.

Já se foi o tempo em que era preciso trabalhar até não aguentar mais porque sua produtividade acabava por volta dos 60 anos, quando uma pessoa não tinha mais o que oferecer à sociedade. A expectativa de vida é cada vez mais alta e os avanços da medicina asseguram que possamos chegar mais longe também com mais saúde e disposição. Muitas pessoas “idosas” são absolutamente ativas, produtivas, e mais: estão curtindo a vida!

O meu ponto não é simplesmente ir na contramão da propaganda e dizer: acomode-se! Agarre-se com unhas e dentes ao emprego que você odeia! Acumule bens materiais e prenda-se a eles! Esqueça seus sonhos! É evidente que não.

O que quero mesmo dizer é: não se desespere! O tempo não está contra você. Se alguns dos seus sonhos forem realizados só daqui a 20 ou 30 anos, não tem problema! A ansiedade por realizar todos eles ainda hoje, além de não ajudar em nada, impede que você desfrute suas conquistas e aproveite o presente. Não é feio celebrar uma promoção, mesmo que ainda não seja no trabalho dos seus sonhos. Enquanto sonha com a Times Square, não deixe de aproveitar as coisas incríveis que podem estar acontecendo agora mesmo na sua cidade. Seu apartamento pode não ter vista para a Torre Eiffel, mas isso não significa que ele não possa ser o lugar mais gostoso do mundo pra você.

E existe um pecado ainda mais grave do que não saber comemorar suas vitórias nem curtir o presente, que é deixar de valorizar as pessoas ao seu redor. Esse sim é o maior patrimônio que você pode construir na vida, e não vale a pena deixar de zelar pelos relacionamentos em razão de uma busca desenfreada pela satisfação de desejos que mudam de um dia para o outro. Quem viu o lindo longa de animação Up (um dos meus filmes preferidos) talvez se lembre de um símbolo pungente disso que a película mostrou.

O casal formado por Carl e Ellie Fredicksen, ainda na infância e ao longo da juventude, cultivava sonhos de aventuras incríveis numa terra distante e misteriosa, Paradise Falls. Ellie tinha um álbum de recortes e fotografias, chamado de “Adventure Book” (Livro de Aventuras), e os dois poupavam todo dinheiro que podiam para empreender a fantástica viagem de seus sonhos. Ao longo da vida, enfrentaram alguns infortúnios e tiveram necessidades urgentes que faziam a poupança retornar à estaca zero. Lá para o final – SPOILER ALERT: se você não viu (QUE VERGONHA!) e ainda pretende ver o filme, talvez deva pular o final desse parágrafo e também o próximo – o velho Carl acredita que a vida de Ellie terminou sem que ela tivesse preenchido a melhor parte do seu livro.

Isso foi só porque ele ainda não tinha virado a página (chega a ser linda de tão óbvia essa metáfora) para ver que ela tinha preenchido aquelas folhas com uma série de momentos importantes que eles viveram juntos. Sim, Ellie queria ser uma exploradora da vida selvagem em Paradise Falls. Mas enquanto sonhava, ela não deixou de aproveitar cada momento feliz e, especialmente, de valorizar o amor de quem esteve sempre ao seu lado. Essa foi sua grande aventura. Droga, já estou chorando, lembrar de Up sempre tem esse efeito em mim.

Até pouco tempo eu andava surtando com a pressão de realizar tantos dos meus sonhos, muitos deles aparentemente incompatíveis entre si, e tudo pra ontem. Já passei dos 30, e nos variados grupos sociais dos quais faço parte a pressão é a mesma, o que muda é o foco: para a família, já passei da hora de engravidar. Para o chefe, deveria estar captando clientes ou mostrando um nível mais elevado de compromisso profissional. Para algumas pessoas, eu devia vender minha casa e investir o dinheiro. Para outras, eu devia era comprar mais imóveis. Há quem pense que eu devia vender tudo e cair no mundo. Muita gente me vê como um talento desperdiçado, mas ninguém sabe me dizer quem quer me pagar para colocar em prática esse talento. Alguns acham que preciso me dedicar mais aos exercícios físicos. E há quem me assegure que nada disso realmente importa: preciso mesmo é cuidar das coisas do espírito. A pressão é tanta, que o mais fácil é… Simplesmente não fazer nada!

De repente comecei a me inspirar no exemplo de pessoas que estão fazendo grandes coisas em momentos da vida que muita gente duvidaria! Gente que muda de profissão aos 40. Que faz o Caminho de Santiago aos 50. Que dá a volta ao mundo de bicicleta com 4 filhos. Que dá aula de Yoga aos 96 anos de idade. Não sei você, mas eu pretendo viver muito ainda, e com bastante saúde! Então, fiz as pazes com o tempo. Depois que nos reconciliamos, ficou mais fácil administrar a ansiedade e curtir o dia de hoje.

Martin Glauer, de 30 anos, e a mulher Julie, de 40, deram a volta ao mundo de bicicleta, levando seus filhos Moses (5 anos), Caspar (4 anos), Turis (2 anos) e Herbie (9 meses).
Martin Glauer, de 30 anos, e a mulher Julie, de 40, deram a volta ao mundo de bicicleta, levando seus filhos Moses (5 anos), Caspar (4 anos), Turis (2 anos) e Herbie (9 meses).

Talvez (apenas talvez) eu não consiga realizar todos os meus sonhos. Mas saber que posso mudar de ideia a qualquer momento e vivenciar uma aventura diferente depois da outra me tranquiliza. A realização de um sonho não precisa ser um projeto definitivo. Então o melhor que posso fazer é aproveitar o momento e viver com intensidade tudo que posso desfrutar dele. De preferência ao lado das pessoas que fazem tudo isso valer a pena.

Tao Porchon-Lynch, aos 96 anos de idade.
Tao Porchon-Lynch, aos 96 anos de idade, considerada a professora de Yoga mais velha do mundo. ♥

Oksana Guerra

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Amar dói?

love can hurt

 

(Atenção: o vídeo contém imagens não recomendadas para crianças. E é melhor não ver no seu trabalho)


 

Gosto de uma música chamada “Only love can hurt like this” (Só o amor pode machucar assim). Gosto da sonoridade, da voz da intérprete (Paloma Faith), do clipe. Mas sei que o que diz a letra não é verdade, porque o amor não dói, nem fere.

Você lê isso e instantaneamente brotam em sua memória lembranças sofridas, de relacionamentos passados e talvez até do atual. Quem sabe você lembre da briga que teve na semana passada. Começou como uma discussão boba, mas terminou com seu coração doído. Chorando no chuveiro, com uma sensação de abandono. Ou rolando na cama, tentando entender o que aconteceu. E você pensa que estou falando bobagens e Paloma Faith é que sabe das coisas, porque só o amor consegue machucar desse jeito.

Eu insisto: o amor não machuca. Mas eu jamais disse que relacionamentos não o fariam.

Quando duas pessoas decidem dividir entre si o melhor de si mesmas, é inevitável que tragam também o pior. Mesmo que queira, acima de qualquer coisa, o bem de quem ama, eventualmente você o fará sofrer. E haverá dor para você também.

O que fere, no entanto, não é o amor. É a insegurança. É o ciúme. É a sua dificuldade em lidar com críticas. É a falta de sensibilidade do outro ao fazer uma crítica. É a intolerância. É a impaciência. São os defeitos que trazemos conosco para o relacionamento, e que vêm à tona no exercício da convivência.

O que é o amor, então? E onde ele se esconde enquanto o relacionamento pega fogo?

O amor é a força que move o arrependimento sincero quando percebemos que uma atitude ou palavra nossa causou sofrimento em quem amamos. É a energia que nos envolve motivando o perdão. É o calor do abraço na reconciliação. Essa dor que você sente não é amor. O amor é a cura. É o “bom dia” acompanhado de um sorriso a cada despertar. É dividir a coberta no sofá ao notar que o pé do outro está gelado. É oferecer um carinho, um cuidado, um copo d’água ou o auxílio financeiro de que o outro está precisando naquele momento. É ir ao mercado e lembrar que o cereal dele acabou. É comer só metade do último pãozinho.

O amor pode se revelar, sim, em grandes gestos. Mas ele se manifesta com maior frequência nos detalhes que passam despercebidos na rotina. Durante as turbulências ele aguarda, paciente, pelo momento de fazer sua mágica. Ele não se desgasta tentando brilhar onde não há pessoas dispostas a colocá-lo em prática.

Quando permitimos, porém, o amor nos toma e nos move. Ele nos conduz e nos guia. O amor nos acalenta ao ponto de acreditarmos que aquela discussão boba na semana passada foi a última vez que choramos ou perdemos o sono. Não é verdade. Sofreremos novamente. Feriremos outra vez. Mas não é por mal que o amor nos leva a crer numa ilusão. Ele quer apenas acreditar que seremos melhores.

TED do dia: o homem que revolucionou o absorvente na Índia

Arunachalam Muruganantham, o homem que revolucionou o absorvente higiênico na Índia
Arunachalam Muruganantham, o homem que revolucionou o absorvente higiênico na Índia

Tenho convivido por toda minha vida com mulheres cultas, educadas, com boa situação financeira, independentes e cheias de opinião. E mesmo entre mulheres assim, menstruação é um tema tabu. Já vi muitas amigas torcerem o nariz para a mera menção do assunto. A maior parte tem asco até de admitir que passa todos os meses por esse processo absolutamente natural.

Imagine então como é na Índia, e pior, na zona rural indiana. Lá, a menstruação não é apenas assunto proibido, é motivo para que as meninas faltem às aulas e provas, e mulheres deixem de trabalhar durante o período menstrual. Naturalmente, isso gera um impacto terrível na vida dessas meninas e mulheres, inclusive em seu orçamento familiar. Há também o aspecto cultural: enquanto estão menstruadas, as mulheres não podem frequentar o templo ou preparar comida.

Segundo o The Times of India, apenas 12% das 355 milhões de mulheres que menstruam usam absorventes higiênicos. As demais utilizam trapos, folhas, cascas, serragem, qualquer coisa no lugar do absorvente higiênico, cujo preço é alto demais para permitir esse “luxo”.

Ao se deparar com essa realidade, surpreendentemente foi um homem que resolveu dedicar anos de sua vida (quinze, para ser mais exata) para desenvolver uma alternativa que atendesse às mulheres pobres da Índia. De acordo com Arunachalam Muruganantham, “as mulheres que usam panos com frequência têm vergonha de deixar que sequem ao sol. Com isso, os panos não são desinfetados. Aproximadamente 70% das doenças reprodutivas na Índia são causadas por falta de higiene menstrual. Isso também pode afetar a mortalidade materna.”

Veja o vídeo (legendas em português disponíveis) para se encantar com a história e conhecer todas as dificuldades e situações inusitadas que Muruga (como ele próprio se chama) precisou enfrentar em sua jornada, incluindo o preconceito e o abandono familiar. E tudo isso sem nenhuma motivação financeira! Perguntado sobre seus motivos, ele explica: “Fui criado por mãe solteira. Eu vi como minha mãe lutou para me criar, então eu quis fazer isto para ajudar outras mulheres a ganhar a vida para sustentar suas famílias. Se você empodera uma mãe, empodera um país.”

Com vocês, Arunachalam Muruganantham!

Leia mais aqui.