What about Breakfast at Tiffany’s?

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Um dia desses, conversando com uma amiga de longa data, percebi que, de uma amizade intensa que vivemos no passado, restaram muito poucos pontos em comum. Conforme amadurecemos, definimos com mais propriedade as ideias em que acreditamos e estabelecemos com mais convicção nossos princípios. E nesse processo, fomos parar em pontos bem distantes um do outro.

Antigamente era fácil ter tudo em comum com alguém. Já tínhamos, claro, alguns princípios filosóficos, sociais e políticos que nos interessavam e, quiçá, guiavam nossas atitudes. Mas não tínhamos muita certeza de nada, e nem apresentávamos pontos de vista referente a eles com muita frequência. Outros interesses urgiam e se sobrepunham aos demais: festas, namoros, o início de nossa vida profissional, os estudos, planos para o futuro.

Hoje, além de já termos mais consciência de quem somos, ainda contamos com um agravante: o Facebook. Numa mesa de bar, jamais teríamos a oportunidade de expor tanto sobre nossas crenças pessoais como fazemos na rede social. Ninguém cogitaria levar uma revista para o boteco para mostrar aos amigos dizendo: “gente, leiam esse artigo aqui, eu curti”, só para dar um exemplo. Não é raro eu sofrer de profundo desapontamento ao ver na rede os pensamentos dos quais compartilham meus amigos, e tenho certeza de que muitos deles sentem o mesmo em relação a mim.

É evidente, porém, que o fato de pensarmos diferente não impede que sejamos amigos. Aliás, é enriquecedor relacionar-se com distintas pessoas, conviver com variadas formas de pensamentos, conhecer diversas crenças, gostos e ideias.

Mas de vez em quando olho para alguém e me pergunto: o que foi que sobrou? Temos ainda algum alicerce no qual se sustente nossa amizade, por mais superficial que ela tenha se tornado?

Sempre temos alguma coisa em comum com alguém. O gosto musical. Aquela série de TV. O ódio por pessoas que palitam os dentes. O sarcasmo. O apreço pelo linguajar culto. O amor por gatos. O interesse por determinado assunto. Algum posicionamento político. O humor. A crença espiritual. A cerveja. Paris. E existem ainda aquelas pessoas que nos atraem pelas diferenças, que, quando não agridem, somam. Quando conseguimos nos despir dos preconceitos, pode ser no mínimo elucidativo o convívio com alguém que vive de uma forma diferente da que acreditamos ser a correta.

É preciso sempre manter calibrada nossa balança, para verificar se o que sustenta um relacionamento ainda vale a pena. Quando a postura do outro é um insulto às suas mais preciosas convicções, talvez seja melhor se afastar.

Se não é esse o caso… O que você achou de Breakfast at Tifffany’s?

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Quem nunca?

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Você já sentiu uma saudade de algo que não sabe o que é? E uma vontade de estar em algum lugar que não sabe onde fica? E um desejo de comer alguma coisa cujo sabor desconhece? E sonhou em trabalhar numa profissão que não foi inventada ainda? E sentiu cansaço sem ter feito nada? E teve um nó na garganta que não descia? E continuou com sede depois de beber água? E quis inventar um nome para a sensação desconhecida? E todos os médicos falharam em diagnosticar? E a música que você precisava ouvir ainda não foi composta? E mesmo que não fizesse calor, nem frio, você ficou desconfortável? E quis fugir sem saber de quê? E quis empreender uma busca rumo ao desconhecido? E faltou disposição para se mover? E quis chorar, mas os olhos estavam secos? E quis gritar, mas sentiu vergonha? E tentou sorrir, mas pareceu forçado? E quis comer, mesmo sem ter fome? E depois de comer, seguiu vazio? E desejou “bom dia” e o som dessas palavras pareceu estranho? E se perguntou depois se é assim mesmo que se diz? E depois cogitou se estaria pirando? E buscou silêncio, mas não havia? E quis dormir, sem sono, só para não estar presente? E quis mudar, sem saber como? E sentiu uma angústia que não tem razão de ser? E não quis reclamar, porque, afinal, a vida é boa? E escreveu um texto sem saber como termina?

Sobre a ostentação e a inveja

Muitos textos, vídeos e campanhas já foram feitos para denunciar a “falsa felicidade” de usuários das redes sociais. Alguns de meus amigos parecem tão incomodados com o tópico que só se manifestam no Facebook para compartilhar algo nesse sentido. Como se quisessem esfregar na cara dos outros: “eu sei que vocês não são tão felizes como parecem”. Talvez não sejamos mesmo, mas hoje eu quero falar do outro lado disso.

Invidia, afresco de Giotto na Cappela dos Scrovegni, em Pádua. A serpente da inveja atinge o invejoso e não o invejado.
Invidia, afresco de Giotto na Cappela dos Scrovegni, em Pádua.
A serpente da inveja atinge o invejoso e não o invejado.

Porque é que essa felicidade – verdadeira ou não – incomoda tanto algumas pessoas? Eu não sei se todos que expõem retratos de felicidade diária na internet são felizes de verdade, mas eu torço para que sejam! Não sou fiscal da vida alheia para saber se as pessoas têm o direito de ostentar o título de felizes ou se deveriam ser banidas da rede social por essa imperdoável falsidade.

O motivo oculto nas manifestações de repúdio à ostentação muitas vezes é a inveja. Ela fica subentendida, como uma tranquilizadora mensagem subliminar que diz: “calma, não precisa odiar seus amigos, no fundo eles não são tão felizes como parecem”. A inveja nunca pode ser tratada abertamente, porque, de todos os sete pecados capitais, ela é o único que, aparentemente, ninguém sente. Muita gente se considera alvo de inveja, mas nunca conheci alguém que se reconhecesse invejoso.

Então, em vez de aprender a lidar com a inveja (que, claro, ninguém sente), criam-se campanhas na esperança de ensinar as pessoas a serem mais verdadeiras, ou seja, a pararem de expor essa felicidade tão falsificada, porque certamente ninguém pode ser tão feliz assim. Ou pode?

Quando vejo alguém postar que está num relacionamento sério, que está grávida, que o bebê nasceu, que mudou de casa, de cidade ou de país, que concluiu o mestrado com sucesso, que abriu o próprio negócio, que está de férias, que viajou de novo, que agradece a Deus pela graça alcançada, que está emagrecendo com saúde, que vai casar, que encontrou o amor, que adotou um gato, que ama o próprio trabalho, que adora ir pra academia domingo de manhã, que está jantando no restaurante estrelado da moda, que está se sentindo o máximo com o novo corte de cabelo, que está morando no paraíso, que a festa de ontem foi incrível, que terminou a maratona num tempo excelente, que é super apaixonada pelo marido, que está indo velejar, que tem o filho mais fofo do mundo, que está curtindo uma tarde de sol no parque ou que colheu tomatinhos da própria horta, eu não fico cogitando se aquela pequena ou grande felicidade é verdadeira ou não. Porque simplesmente não me diz respeito. E eu gosto de ver gente feliz. Porque gente feliz não enche o saco.

Pode até ser que a pessoa que postou “chuvinha gostosa para uma soneca” estivesse na verdade pensando “bosta de clima que acabou com meus planos de praia”. Mas e daí? Quem sabe ela esteja tentando ver o lado positivo da vida. Ou quem sabe queira parecer tão feliz quanto o ex parece estar, quando ambos na verdade estão profundamente infelizes. Pode ser, quem sabe? Eu espero que estejam felizes, ou que fiquem um dia, e se estiverem sendo falsos, isso não me afeta em nada.

É claro que eu tenho consciência de que as pessoas não são 100% alegres e contentes o tempo todo. Sei que, assim como eu, todo mundo enfrenta momentos de tristeza, de tédio, de insatisfação, mesmo que não os exponha nas redes sociais. Acredito que basta estar ciente dessa realidade para que o sucesso dos outros não crie em mim a ilusão de que minha vida não é tão legal quanto a deles.

Não estou dizendo que não é ridículo alguém criar um universo mágico e colorido no Facebook quando sua vida real está desabando. Mas não tenho como calçar os sapatos de quem faz isso para entender seus motivos. Quando vejo duas pessoas modificarem seus status de relacionamento para “solteiro” poucas semanas depois de trocarem juras de amor eterno na rede social, não tenho como saber se, antes, estavam apenas fingindo, ou se aquilo foi uma última tentativa desesperada de salvar um relacionamento. Na pior das hipóteses, as pessoas que fingem ser felizes merecem pena, e não raiva (e menos ainda inveja).

Se a felicidade alheia – falsa ou verdadeira – incomoda ao ponto de fazer você querer sair das redes sociais ou passar seu tempo dando indiretas para que as pessoas parem de ser exibicionistas, pense se o problema está realmente nelas (ou só nelas). Em vez de exigir dos outros que parem de se exibir, talvez seja o caso de lidar com a sua própria frustração. Talvez o tempo gasto criticando a ostentação alheia possa ser melhor empregado valorizando mais as coisas boas na sua própria vida. Até porque a única coisa mais patética que ostentar uma falsa felicidade é invejá-la.