Jota Peg

photo-album-photographer-old-47816.jpegNa casa dos meus pais, os álbuns de fotografia ficam na estante da sala. Eu costumava pensar que era para facilitar o ritual do constrangimento. As visitas de domingo chegavam para o almoço e a conversa começava meteorológica. Esse verão que só chove, os invernos que já não são frios como antigamente, mas e a seca no Nordeste, você viu que tristeza. Daí pulava para a política. Poderia ser um assunto inoportuno, mas ainda que parecessem exaltados, todos se assentavam na confortável certeza de que os políticos não valem nada, sem exceção, não tem diferença nenhuma entre os partidos, mas claro que esse que está no governo agora é o pior. Na sobremesa os assuntos se dividiam, os homens falavam de futebol e as mulheres da novela. No cafezinho já estavam quase sem assunto, e então minha mãe pegava os álbuns. Ignorando os protestos meus e de meus irmãos, exibia com orgulho as memórias estampadas em papel fotográfico desbotado. Olha só como eu estava linda no meu casamento, tão magra. E aqui o Júnior peladinho, que graça. Nesse dia aqui a Marcinha abriu o berreiro porque queria ir na montanha russa do parque. Adivinha só? Vomitou lá no alto e voltou chorando. Minha mãe contava e gargalhava, os olhos úmidos de tanto rir. Eu traçava em silêncio planos de vingança por aqueles anos de humilhação.

Eu já tinha vinte e um quando minha mãe me contou por que os álbuns ficavam naquela mobília específica. Não era apenas para entreter visitantes enfadados pela falta de assunto. Minha mãe imaginava que, na eventualidade de uma catástrofe, seria mais fácil salvar as relíquias da família se elas estivessem ali, perto da porta de saída. Se a casa pega fogo, minha filha, largo tudo pra trás, menos as fotografias. Não havia então discos rígidos e a nuvem era somente sinal de chuva, e não uma rede abstrata onde se podem armazenar dados. Para minha mãe, aqueles álbuns de fotografia eram a coisa mais preciosa que tínhamos, depois de nós mesmos.

Um filme de 12 poses durava tempos lá em casa. Nos aniversários, minha mãe fazia todos os convidados se espremerem atrás da mesa do bolo, e fazia uma única fotografia para registrar o evento. Também era assim no Natal, nos passeios de férias e outras ocasiões dignas de registro. O filme de 36 poses era proporcionalmente mais barato, mas minha mãe o evitava porque não suportava ter que esperar tanto tempo até que pudesse ser revelado.

Minha relação com a fotografia é diferente, mas também um pouco parecida. Faço dezenas de fotografias todos os dias, de coisas como meu café com um biscoitinho no pires ou o engarrafamento no final de tarde. E nenhuma imagem está sozinha. Todas são acompanhadas de uma sequência de cenas praticamente idênticas, das quais ao final seleciono uma para aplicar o melhor filtro e publicar numa rede social. Nas raras situações em que decido imprimir uma fotografia, conferindo-lhe existência para além do digital, é porque ela tem valor especial para mim. Nem toda imagem merece traçar seu caminho de tinta dos pixels até o papel. Algumas felicidades não ultrapassam a extensão do arquivo digital.

Quando planejávamos nosso casamento, convenci Maurício a investir boa parte de nosso orçamento para contratar um excelente fotógrafo. Eu disse que era mais importante que a banda, o uísque e os bem-casados. A fotografia era essencial. O profissional escolhido superou nossas expectativas. Receber as prévias em baixa definição foi suficiente para termos certeza de que nosso dinheiro havia sido bem empregado. Ele não apenas capturou com maestria nossas emoções, mas conseguiu retratar a cerimônia e a festa com tanta beleza que elas pareciam melhores nas imagens do que tinham sido na realidade.

Quase dois anos se passaram até que eu finalmente selecionasse, sozinha, as noventa imagens que iriam compor o álbum do casamento. O de verdade, que colocaríamos na estante da sala. Maurício e eu tentamos fazer isso juntos diversas vezes, mas sempre acabávamos discutindo – ele queria uma foto porque nela sua mãe estava sorrindo, não se importando com o fato de que naquele clique específico eu estava com queixo duplo. Ou éramos vencidos por uma associação infalível de tédio e procrastinação. Vamos só ver um episódio daquela série, depois continuamos. Mas logo agora que chegou a pizza. Vou só tomar um banho e já vemos isso. Acabei escolhendo sozinha e ele não disse nada. Depois de um tempo, eu decidia muitas coisas sozinha. Ele raramente dizia alguma coisa.

Nas fotografias diárias estávamos sempre sorridentes, brindando com cervejas artesanais, saboreando hambúrguer de costela no food truck, completando o treino de dez quilômetros no domingo de manhã. Os sorrisos eram ativados pelo botão de fotografar como se fosse um controle remoto. Publicada a imagem com as devidas hashtags, engolíamos o silêncio. No escuro, sob o peso de seu corpo, eu fechava os olhos e pensava no homem que aparecia ao meu lado nas fotos. Seria incrível ser amada como eu parecia ser amada por ele. O sexo era como a corrida no parque: distância programada, velocidade controlada, tempo cada vez menor. Terminava com ele indo para o chuveiro antes que eu conseguisse encontrar minha calcinha entre os lençóis.

O telefone de Maurício vibrou. Na tela bloqueada, Renata perguntava se ele estava acordado. Acendi a luz. Peguei os óculos na mesinha de cabeceira. Olhei de novo. Um segundo alerta vibratório acompanhou o surgimento de um pequeno ícone de imagem. A senha ainda era a mesma de todos os seus dispositivos eletrônicos. Renata estava deitada, segurando o aparelho celular com os dois braços erguidos, num ângulo que afinava seu rosto e permitia ver seu corpo nu, desde a testa até o início das coxas. Respirei fundo e percebi um cubo incandescente dentro do meu estômago. Ajeitei a postura, abrindo os ombros, e o cubo foi rolando esôfago acima, as arestas ferindo e queimando meu tubo digestivo. Meus olhos ardiam e embaçavam as lentes dos óculos. Vomitei o cubo de lava. Sobre o lençol branco, parecia só vinho tinto. Maurício saiu do banheiro vestindo uma nuvem de vapor e gotículas sobre os pelos. O que aconteceu? Você tá bem? Atirei o celular nele com força.

Não é isso. Calma. Eu explico. Espera. Só estamos conversando. Foi só dessa vez. Ela que me procurou. Não aconteceu nada. É só virtual. Não vai acontecer de novo. Me perdoa. Eu não pedi foto nenhuma. Ela não vale nada, só quer me ferrar. Você tá sendo irracional. Vai dizer que você nunca falou com seu ex? Cala a boca e me escuta, sua louca. Desculpa. Calma, não falei por mal. Eu errei, mas te amo.

Hoje vi uma foto de Renata e Maurício, suados e sorridentes. Na legenda: corridinha básica para espantar o frio, hashtag mozão hashtag parceria hashtag casal corredor. Eu ri.

A capa do álbum tem a inscrição Nossas Núpcias, escrita com uma fonte de ângulos suaves e arredondados. É um pouco brega, mas eu quis um toque vintage. Parece com o álbum dos meus pais. As letras ficam engraçadas quando dançam no fogo. Uma vez minha mãe queimou sem querer um filme inteiro de 12 poses, abrindo a câmera antes de enrolar o negativo. Ela chorou. Queimar fotografias usando fósforos e álcool em gel é mais difícil. A chama viscosa e azul se arrasta devagar sobre a capa dura e o papel fosco. Nas primeiras três tentativas, o fogo morreu antes de causar algum dano ao vestido branco. Precisei rasgar as fotografias, uma a uma, antes que elas se convertessem em fumaça e cinza. Não chorei. Na casa dos meus pais, as fotografias ficam na rota de fuga para escapar em caso de incêndio.

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