Linda

pexels-photo-788824.jpegPele brilhante de suor, cabelos perfeitamente desordenados, você mexia o corpo ao som de Rock the Casbah. Meus olhos acompanhavam seus quadris, para lá e para cá, num movimento lento e amplo que me deixava tonto. Avancei em sua direção sem ver mais nada, as mangas da camisa dobradas até os cotovelos, o queixo próximo do peito, olhos fitando minhas próprias sobrancelhas. Talvez eu colocasse as mãos na sua cintura e dançasse com você. Só aproximei os lábios de sua orelha e disse: linda. Seus olhos me deportaram para a Sibéria. Eu supliquei: mas, linda. Você disse: está na hora de você beber uma água. Água enferruja, linda. Na minha cabeça pareceu engraçado, desculpe.

Pedi outra cerveja, reclinei o corpo e apoiei o cotovelo sobre o balcão do bar. Dali eu podia ver você dançar. Toda vez que erguia os braços, fechava os olhos e sorria, deixando ver o espacinho entre os dentes da frente. Duas grandes argolas douradas pendiam dos lóbulos de suas orelhas. Você abriu os olhos e me viu. Trocou de lugar com sua amiga. Não me incomodei, assim eu podia ver outro ângulo seu.

Você traçou com os olhos seu caminho até o banheiro, passando distante de mim. Não queria que as coisas fossem desse jeito entre nós. Eu queria dizer: não seja assim, linda. Se você apenas me olhasse, talvez me visse de verdade. Se você me escutasse, eu teria tanto a dizer. Sua amiga foi na frente, puxando você pela mão. Era difícil abrir caminho na pista entre os corpos em movimento, mas vocês conseguiram.

Esperei na porta do banheiro como uma servil sentinela. Você saiu e eu chamei. Linda. Você não atendeu. Eu não sou assim, mas tive que pegar no seu braço. Só para chamar sua atenção. Senti o cheiro do seu creme de cabelo, você virando o rosto na minha direção. Em seguida, seu corpo todo se voltou para mim, em câmera lenta, ombro esquerdo, seios, ombro direito. A atração entre nossos corpos era incontornável como se a força gravitacional da Terra trouxesse para si o meteoro que acabaria com a vida de seus jurássicos habitantes. Não sei dizer se era o punho fechado da sua mão direita que vinha ou se era meu nariz que ia. Encontraram-se os dois no meio do caminho, em extraordinária colisão. Do alto, sua voz era agridoce, entrava em meus ouvidos como uma fanfarra marchando no desfile da Independência. Saiu alisando os nós dos dedos com a palma da outra mão. Um corredor se abriu entre os corpos – não mais em movimento – e você desfilou magnífica em direção à saída.

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Camila me disse que abriu esse lugar novo, com bons drinks e música gostosa para dançar. Falou que eu precisava me divertir. E era verdade. Havia meses que eu trabalhava na dissertação do mestrado, aproveitando o silêncio da noite para escrever e dormindo durante o dia, dando ao mundo poucas oportunidades de me ver. Uma noite de distração não me faria mal, e poderia até ajudar naquele momento em que a pesquisa não estava rendendo e eu me sentia derrotada. Valia a pena me entregar a um leve torpor alcóolico e dançar até meu corpo desabar.

Ela usava um vestido preto, sandálias de salto alto e os cabelos presos no alto da nuca. Eu vesti um short de cintura alta, blusinha curta e sapatilhas. Meus pés não nasceram para se equilibrar sobre saltos. Ergui a raiz dos cabelos com o pente garfo, coloquei os brincos de argola que ganhei dela e me animei até para me maquiar. A fila ainda não era longa quando chegamos. Ao entrar, pedi um mojito para a Camila, uma cerveja para mim, e fomos para a pista. Passaram-se uns minutos e eu já estava distante das disputas sócio-antropológicas entre modelos abstratos de organização do mercado. Longe das burocracias acadêmicas e normas da ABNT. A gente devia fazer isso mais vezes.

Não demorou muito para sentir o bafo quente de um bêbado na minha orelha. Inferno. Tentei dispensá-lo com educação. Ele se afastou, mas deixou para trás o bafo e um rastro de inconveniência. Procurei um lugar para me abrigar dos seus olhos. Camila me disse pra esquecer e relaxar. Certo. Fechei meus olhos para não ver mais. A música era boa mesmo. Era quase possível ignorar a hostilidade do desejo alheio que se impunha sem convite sobre cada movimento meu. Camila insistia que eu não deixasse um desconhecido estragar nossa noite. Ela quis trocar de lugar comigo. Eu sentia aqueles olhos de coruja velha colados na minha nuca. Queria outra cerveja, mas ele não saía do balcão do bar. Concentrei na música até a vontade passar.

Mais tarde, Camila e eu saíamos do banheiro, ele me puxou pelo braço. O meu fucking braço. Minha pele. Minha noite. Minha garganta seca. Fiquei paralisada, com o ódio em ebulição na parte interna das bochechas. Meu corpo ofendido respondeu por mim sem que eu mandasse. Cravei as unhas na palma da mão, formando um pequeno bloco maciço de carne, osso e ferro fundido. Mirei entre os olhos de coruja e meu braço disparou. Caído no chão, ele encontrou seu espaço e não invadia mais o de ninguém. MEU NOME NÃO É LINDA, OTÁRIO.

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