Um dia na vida

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Finalmente consegui fazer o Igor dormir, e tenho ainda uma lista extensa de coisas para fazer: ver umas aulas do curso de construção de personagem, um vídeo do Carreira Literária, fazer as reflexões e anotações do Diário de Bordo (desafio 50 dias de autoconhecimento), uma meditação guiada, uma oração, ler o material da introdução alimentar do Igor que a nutricionista enviou e, se eu der conta, ler um pouco mais do livro O Inventário das Coisas Ausentes, da Carola Saavedra, que comecei essa semana. Antes, porém, levanto para procurar o probiótico do Igor, que não dou há dias porque não sei onde está. Marido pergunta o que eu estou procurando, eu respondo, meio irritada, muito cansada. Digo que não encontro nada nessa casa (aquele exagero causado pela irritação e cansaço). Ele começa a procurar também. Não encontramos. Digo pra ele ir para o banho – o Ivan está na banheira esperando o pai tirá-lo de lá – e vou deitar.

Quando o marido também desiste de procurar, passa por mim dizendo “tem que começar a guardar as coisas sempre no mesmo lugar. Colocar isso na caixinha de medicamentos”. Respondo que nem sempre consigo guardar tudo no mesmo lugar, e que preciso das coisas em lugares acessíveis para eu ver, lembrar e conseguir pegar carregando o bebê, cuidando do Ivan, resolvendo tudo ao mesmo tempo. Ele responde rindo “é, tá bem acessível agora”. Um riso sarcástico, debochado, que me ofende profundamente. Aposto que não foi essa a intenção dele, mas eu sinto uma carga enorme de acusações naquela risadinha. Ela parece dizer que eu sou desorganizada, relaxada, preguiçosa, incapaz, que perco as coisas à toa, que meu filho está sem tomar o probiótico há dias por minha culpa. Sinto a absoluta falta de reconhecimento de milhares de coisas que fiz no dia, pelos meninos, pela casa, pela família, pelo marido e de vez em quando até por mim.

Irrompo em lágrimas, mando se catar, digo pra trocar de lugar comigo um dia na vida, pra ver se dá conta. Falo que tudo que eu não preciso é de liçãozinha de moral depois de um dia tão cansativo. Quando finalmente deito na cama, em vez de um agradecimento, um elogio, um “boa noite” ou mesmo a gentileza do silêncio, recebo uma crítica. Porra, sabe. Ele não diz nada. Vai tomar banho, vestir o Ivan, colocar pra dormir. Percebo que está tratando o Ivan com gentileza, mais do que em outros dias. Mais tarde eu o ouço levantar, ouço barulhos dele organizando coisas. Lembro-me do tempo em que eu dizia que era uma regra no nosso relacionamento nunca irmos dormir brigados. Na manhã seguinte eu veria que ele postou no Instagram uma foto de 10 anos atrás, do nosso primeiro jantar à luz de velas na nossa primeira casa juntos, mostrando que ele também foi dormir lembrando do tempo em que nunca íamos dormir brigados.

Antes de ir dormir com o Ivan (estamos dormindo assim, cada um com um filho, já que os dois demandam atenção de noite e assim eu não fico sobrecarregada), ele manda uma mensagem pedindo desculpas por ter sido babaca. Diz que sabe que a parte mais difícil da criação dos nossos filhos ficou comigo. Agradeço.

Meu despertador (Igor) me acorda às 7h. Tento apertar o botão soneca (mamá e cafuné), mas não funciona e ele sai engatinhando pela cama e me dá tapas na cara. Logo escuto o Ivan chorando, então levanto de vez. Abro as janelas e cortinas.

Depois de ir ao banheiro, solto a gata, deixo os meninos brincando e passo aspirador na casa. Depois de terminar, sirvo uma mesa farta para o café. Coloco Mozart pra tocar, pra gente ir ficando inteligente enquanto come. Preparo meu café com leite. O Ivan quer suco, depois quer leite, e uma laranja, que descasco. Para o Igor, um pedaço de manga, depois um de abacate, depois maracujá (não precisa tudo isso, mas eu vou oferecendo coisas diferentes pra ele aguentar mais um pouquinho e quem sabe me deixar comer algo). O Ivan levanta, vai lavar as mãos e trocar de roupa sozinho. Fica entalado na camiseta e me pede ajuda. Leio as mensagens e ouço os áudios das amigas, não respondo ninguém. Leio os exercícios de hoje do desafio de autoconhecimento. O Igor não quer mais ficar no cadeirão. Ivan vai ver desenho, uma musiquinha insuportável com voz de gás Hélio, abaixo um pouco o volume e ele reclama.

Troco a fralda do Igor (cocô) e a roupa também. É como vestir um polvo. Só que o polvo tem a força de um javali e foi posto vivo sobre uma frigideira com óleo quente, algo nesse nível de desafio. Coloco-o para brincar. Encontro minha caneca com metade do meu café, frio. Lavo o babeiro do Igor, que ele herdou do Ivan, pensando que precisamos comprar outro desses, é o melhor que ele tem mas demora pra secar. Penduro no varal do quartinho, lá seca mais rápido.

Troco a fralda do Ivan (xixi) e sua calça também. Decido que também mereço tirar o pijama, visto a primeira roupa limpa que encontro. Escovo os dentes do Igor, depois os do Ivan.

Decido fazer o Igor dormir. Amamento enquanto embalo e leio umas mensagens. O Itaú me informa por SMS que entrei no cheque especial. Obrigada por avisar. Tenho uns trocados na poupança, que resgato para cobrir. Sigo embalando o Igor até ele parecer bem adormecido. Tento colocá-lo na cama. Ele acorda ao encostar no colchão, deito com ele, amamento mais um pouco. Finalmente dorme, coloco uma cobertinha encostada de um lado, um travesseiro do outro, deixo meu celular com ele tocando lullabies. Tiro as coisas da mesa e as coloco sobre o balcão da cozinha, desligo o Mozart que está me irritando. Tomo o resto do suco do Ivan. Tomo o resto do leite que ele pediu depois do suco e também não terminou de tomar. Como o resto do maracujá do Igor. Junto com minha caneca de café com leite frio, esse foi meu café da manhã. Sei que o Ivan vai sentir fome daqui a pouco, pois só comeu fruta. Enquanto escovo os dentes, guardo as comidas na geladeira. Não lavo a louça, tarefa que deixo para o marido. Procuro deixar o mais fácil possível pra ele, as coisas mais ou menos organizadas na pia, os restos de comida na lixeira, o lixo reciclável já lavado e posto na sacola. Pergunto-me se ele percebe, se faz diferença, se é daquelas coisas que a gente só repara quando não acontecem.

Estendo meu tapetinho na sala, ligo a TV e acesso os vídeos de yoga salvos num pen drive. Tento um que o marido salvou pra mim, mas acho extremamente difícil. Tento uma aula mais fácil, que ainda é difícil. Para acrescentar doses extras de desafio, o Ivan fica pulando meu tapetinho de um lado para o outro, se machuca, chora, quer o pai. Na casa da vizinha, uma furadeira é ligada. Rezo para o Igor não acordar. Tenho câimbra no quadril, minha perna não estica, não consigo me equilibrar, estou morrendo. Enfim, 20 minutos, termina a aula, sobrevivi.

A professora recomenda ficar pelo menos de 3 a 5 minutos relaxando em shavasana, a posição do cadáver. Embora eu me sinta como um cadáver, levanto correndo, certeza que a professora não tem um bebê que acorda e sai engatinhando durante sua prática de yoga. Encontro o Igor tentando escapar da cama. Coloco-o no chão para brincar.

Igor está impaciente, vamos para a sala. Amamento enquanto escrevo um pouco. Ele não quer mamar. Vai para o chão. A essa hora já preciso decidir o que será mais difícil: fazer almoço (não tenho nada preparado) ou sair para almoçar com os dois. Pedir alguma coisa, talvez? Não consigo pensar em um delivery com comida adequada pra nós três. O Igor foi até minhas plantas e está mascando as folhas que caíram no chão. Alguém sabe se folha de fícus é tóxica? Tiro as folhas da boca dele, ele chora. O Ivan ameaça passar com a bicicleta por cima do Igor, peço para parar. Ele me olha de um jeito desafiador, segurando a bicicleta com uma só mão como quem vai derrubá-la sobre o irmão. Perco a paciência com ele pela primeira vez hoje, ainda é de manhã. Grito, ele pede pelo pai.

Meu celular já está quase sem bateria, coloco para carregar. O WhatsApp tem centenas de mensagens não lidas, o Facebook e o Instagram têm várias notificações. Ignoro, estou tentando evitar o desperdício de tempo nas redes sociais.

Vou fazer xixi, é apenas o segundo do dia e está amarelo. Deixar o celular de lado me fez perder os lembretes para beber água. O Igor está se esgoelando na sala. O Ivan toca guitarra pra ele, que se acalma. Lavo as mãos e, aproveitando que estou ali, passo protetor solar com cor e corretivo. Apesar das olheiras acentuadas, hoje será só isso mesmo de maquiagem. O Ivan sobe nas caixas de fralda que chegaram e pula de cima delas, machuca as costas. Chora, eu faço massagem até ele dizer que está bom. Ajeito meu cabelo e lembro que preciso marcar o salão, uma das tarefas que me propus ontem à noite no diário de bordo. Dou a vitamina do Ivan e pego o celular, só carregou 30%.

Bebo um copo de água e pego o Igor no colo, está chorando porque o Ivan o derrubou. Ligo para o salão, marco um horário pra sexta-feira, anoto na agenda do celular. O Igor está tentando sair do meu colo, ponho no chão, ele chora. O sino da igreja avisa: é meio-dia.

Vejo a previsão do tempo para hoje. Visto uma calça. O Ivan chora, machucou a perna de algum jeito, faço massagem até ele dizer que está bom. Escolho a roupa do Ivan, ajudo-o a se vestir. Ele vai pra sala e tira o brinquedo do Igor, “é meu dinossauro”, o bebê chora. Pego no colo, ofereço mamá.

Fecho as janelas, ouço o Ivan repetir diversas vezes “acorda gata” e me pergunto se a gata morreu. Por um instante penso que seria um alívio, pois ela está dando tanto trabalho e o Igor anda sofrendo com a alergia. Imediatamente me recrimino por ter pensado isso, confiro e ela está viva, apenas de saco cheio do Ivan mexendo na cara dela.

Bebo mais um copo de água. Escolho a roupa do Igor e o visto, é como vestir um polvo, só que dessa vez o polvo está determinado a me matar. Peço ao Ivan pra pegar o tênis do irmão. Limpo o nariz do Ivan, é uma luta ingrata. Uso o sugador de meleca, saem 2 litros de secreção verde. Passo diante do espelho, essa calça não ficou bem em mim, me arrependo de tê-la comprado. Visto outra.

Brinco um pouco com os dois enquanto tento decidir onde almoçar. Penso num buffet, mas não quero arriscar sozinha a logística de servir dois pratos com um bebê no sling e uma criança solta pelo restaurante. Falta-me um par de mãos. Ligo para o marido para ver se ele já almoçou, seria bom contar com ele. Está em reunião e já almoçou. Faço xixi. Não tem papel, peço para o Ivan alcançar, ele não encontra. Levanto pra pegar, acabou o papel mesmo. Uso a ducha higiênica.

Ivan pergunta quem quer sorvete, respondo que eu quero, e como um sorvete imaginário de morango enquanto encho as garrafinhas de água, e o Igor chora na sala. Acabou a água do filtro, mas não dá tempo de encher agora. Arrumo a mochila, pego celular, carregador, iPad, sling, brinquedos, tapete, agasalhos, frutas. Chegam mensagens da sogra, não consigo ler. Decido almoçar no La Rauxa, que é a la carte e tem espaço kids para o Ivan. Erro o caminho e pego um pouco de engarrafamento. Igor dorme. Gilberto Gil canta Não Chores Mais, e eu choro enquanto dirijo. Quando você está há algum tempo segurando o choro, basta alguém dizer “não chore” para as lágrimas rolarem.

O motorista de uma Range Rover branca tenta sair da garagem, eu não vejo e paro bem na frente. Quando percebo, peço desculpas. Lembro da meditação guiada que já tenho feito há 10 dias. A moça sempre repete que o objetivo é aprender a estar presente. Preciso praticar mais.

Tem uma vaga na frente do restaurante. Estaciono, mas percebo que está muito perto da esquina, mudo de lugar. O Igor está dormindo, então retiro o bebê-conforto do carro com ele dentro. Coloco o casaco no Ivan. Entramos no restaurante e ele tira o casaco, “aqui não tá frio, mamãe”.

Tento ajeitar um lugar para colocar o bebê-conforto. Derrubo as garrafas de azeite e vinagre que estavam sobre a mesa, mas consigo evitar que caiam no chão. Uma mulher bem vestida com roupas de trabalhar fora me olha com cara de “o que essa louca tem na cabeça pra vir sozinha com dois bebês num restaurante, devia estar em casa”, mas tenho certeza que ela só está pensando “ufa, que bom que as garrafas não caíram” e o restante é só projeção do meu autojulgamento mesmo.

Ivan chora no espaço kids. Corro para lá, ele derrubou uma caixa de brinquedos em cima de si mesmo. Vejo que o cardápio não oferece nenhuma opção de comida para o Igor. Que bom que o leite materno é o principal alimento do bebê até um ano de vida.

Quero o prato do dia (alcatra empanada com molho sugo e queijo gratinado, arroz e batata frita), mas peço o talharim porque sei que o Ivan vai preferir. Quero a saladinha de entrada, mas peço a sopa porque sei que o Ivan vai preferir. Quando a comida chega, o moço traz um pratinho para eu dividir com o Ivan, mas eu não o deixo comer sozinho porque não quero ter que trocar a roupa dele.

Peço sobremesa, em parte porque mereço, em parte porque o Ivan comeu bastante do nosso prato e eu ainda tenho fome. Peço água com gás e dois copos com limão espremido. Ivan derruba um chocolate granulado da sobremesa no copo dele, e depois pensa que é um bicho. Pesco o chocolate no copo com a colher. Ele ri, “ah, eu pensei que era um bicho”. Quer ir brincar, tenho medo que ele morda o menininho que está lá no espaço kids, então o distraio. Igor acorda. Quero fazer xixi, não sei como farei isso sozinha com os dois meninos, talvez seja melhor não beber mais água hoje.

Ivan vai brincar. Observo de longe e vejo que está com cara de fazer cocô. Eu me pergunto como vou trocar a fralda dele no trocador dentro de um banheiro minúsculo e ainda segurando o Igor. Decido trocá-lo no sofá do espaço kids mesmo, para o azar das pessoas que estavam por perto. Felizmente só um cocozinho, bem distante da totalidade do seu potencial destrutivo.

Ivan pergunta o nome do menininho, não entendo a resposta, Ivan acha que ele disse “Juavi Tapita”. Ouço a mãe chamá-lo: é João Vitor. Deixo o Ivan com a mãe do João Vitor e vou com o Igor jogar a fralda no lixo do banheiro. Preciso muito fazer xixi. Decido que vou dar um jeito, segurando num braço o polvo possuído pelo espírito de Poseidon. A vontade é grande e a pressa também, afinal só conheço há 5 minutos a pessoa que está olhando o Ivan pra mim. Por isso não volto à mesa para pegar o sling ou o bebê-conforto. Só percebo que isso foi um erro quando já é tarde demais. Abrir a calça foi fácil. Difícil foi fechar depois, com uma só mão. Por que raios comprei uma calça que além do zíper tem DOIS botões? E o maldito cinto? E a criatura me estapeando, se debatendo, gritando. Sobrevivemos, saio do banheiro com calça e lavo a mão (uma só, a única que consegui usar no processo).

Brincamos todos no espaço kids. Converso com a mãe do Juavi Tapita, tranquilizo-a sobre o tempo do desfralde do menino dela. Se eu estou aqui trocando fralda desse cara até hoje, risos.

Ajeito tudo e todos para irmos. Coloco o Igor no bebê-conforto, sob protestos. Coloco o casaco no Ivan e peço a ele que fique do meu lado. Repito isso 8 vezes enquanto pago a conta, não precisa a minha via. Olha para os dois lados antes de atravessar a rua, filho. Abro a porta para o Ivan, ele sobe sozinho na cadeirinha. Quer tirar o casaco no carro. Tudo bem. Coloco o bebê-conforto sobre a grama para fechar o cinto de segurança do Ivan, o tempo todo olhando para os lados, um receio de que alguém passe correndo e leve o bebê-conforto com o Igor dentro.

Dou a volta no carro, prendo o bebê-conforto no cinto, vamos para o Museu Oscar Niemeyer. Converso com o Ivan sobre as músicas que tocam no rádio. Chegamos rápido. Pergunto se o estacionamento aceita cartão, sim, então entramos. Estaciono, desço e erro o lado do carro, abrindo primeiro a porta do Ivan. Como já estou ali mesmo, solto o cinto de segurança dele e deixo que desça sozinho. O Igor chorando. Peço 15 vezes para o Ivan ficar bem do meu ladinho enquanto pego o Igor, coloco no sling, pego a mochila, fecho o carro.

Ivan pergunta onde está o museu, eu digo que é ali mesmo, estamos no estacionamento do museu. Caminhamos até a bilheteria, o Ivan vai perguntando pelo caminho se aqui é o museu. Sou a primeira da fila, mas o rapaz demora para me atender, fala com outro funcionário, depois atende o telefone. Uma fila se forma atrás de mim. Seguro firme a mão do Ivan que, impaciente, pergunta se aqui é o museu e quer sair correndo. O moço nos chama e pegamos nossos ingressos. Caminhamos até a entrada do museu, o Ivan vai perguntando se aqui é o museu.

Tiro celular e chaves dos bolsos, tiro mochila das costas, passamos pelo detector de metais, que apita, mas tudo bem. Tenho que deixar a mochila no guarda-volumes. E se o neném precisar trocar a fralda? “A senhora pode voltar no guarda-volumes, ou se pegar um carrinho pode ir com a mochila pendurada nele”. Mochila pode no carrinho, não nas costas. O Igor não fica no carrinho, então não acho uma boa carregá-lo no sling enquanto seguro o Ivan com uma mão e empurro o carrinho com a outra. Deixo a mochila no guarda-volumes e torço para as fraldas aguentarem.

Caminhamos pelas exposições, o Ivan observa as obras e pergunta por que não pode por a mão. Admira algumas esculturas, quadros, fotografias, me fala das cores preferidas. Encontramos um boné, não parece fazer parte das instalações artísticas. Entrego para um segurança. Ivan aponta para a foto de um homem vestindo uma fantasia tristonha de coelho, vendendo balões de gás. Pergunta “ontem eu fui aqui?”

Pegamos o elevador e vamos para o subsolo, participar da oficina de desenho com carvão. Ivan faz um V e anuncia: “olha, mamãe, eu fiz a letra V!” Eu sempre fico impressionada com o quanto ele se interessa por letras. Essa é a primeira vez que desenha uma letra que não seja o I. Noto que ele disse “fiz” em vez de “fazi”. Ele quebra o carvão fininho dele e quer o meu. Digo que não, pode usar o seu quebrado mesmo. Seguimos desenhando, o Igor se retorcendo feito uma minhoca no meu colo, tentando comer o carvão. O Ivan termina e quer sair dali.

Vamos para o tapete de brinquedos, ficamos todos ali por um tempo, até o Ivan cansar. Mostro para ele o espelho mágico, ele se diverte por um tempo se aproximando e se afastando para ficar pequenininho, grandão, gordinho, magrinho. Mostro para ele os tanques de areia e ali ele fica brincando por muito tempo, enquanto o Igor brinca no tapete com diversos brinquedos.

Respondo algumas mensagens no WhatsApp. Converso com uma mulher que é advogada e mãe de uma menininha de 9 meses chamada Estela, que tem APLV. Depois de um bom tempo, o Igor fica impaciente, eu aviso o Ivan que pode brincar mais uns minutinhos e então iremos embora. Ofereço mamá ao Igor e tento fazê-lo dormir, sem sucesso. Penso que ele está mamando pouco, lembro que amanhã temos consulta com a pediatra, será que ele terá ganhado um peso satisfatório? Chamo o Ivan para irmos embora. Ele quer levar os desenhos de carvão para mostrar ao papai.

Subimos pela rampa, pegamos a mochila no guarda-volumes, o Ivan entrega a chave para a moça. Pago o ticket do estacionamento. O Ivan quer ficar segurando o ticket enquanto caminhamos. Fico cuidando para ele não perder. Coloco as coisas e filhos no carro. Saio e, 3 minutos depois, os 2 estão dormindo. Estou com fome, como uma banana. Chego em casa, carrego os 2 meninos, a mochila, bolsa do tapete e brinquedos, os desenhos de carvão e a sacolinha de frutas. Preciso pegar a chave de casa na mochila, mexo sem querer no Igor, que chora mas volta a dormir. Entramos em casa, Ivan abre os olhos e quer descer do meu colo, chama o pai. Explico que ele ainda não chegou do trabalho, Ivan chora enquanto tira os sapatos. Conversamos e ele se acalma. Pede leite. Lavo a canequinha, sirvo leite, ele derrama, eu limpo. Igor ainda dorme no sling. Sento para descansar enquanto Ivan vê desenhos. Ele se afasta com o iPad para não acordar o Igor, tenta abrir sozinho a porta do quarto e, como não consegue, senta no chão do corredor. Meu coração se enternece. Não quero me mexer para não acordar o Igor.

Passa um tempo, Igor acorda, chamo o Ivan. Chega na sala e aquele aroma característico se espalha. Deixo o Igor no chão e vou trocar a fralda do Ivan. Igor chora. Lavo o Ivan no bidê. Troco a roupa do Ivan por uma mais confortável, e a minha também. Voltamos à sala e os dois brincam. Ivan bate e esfrega a testa na do Igor e o machuca, digo para parar e ele continua, mais forte e mais rápido. São 18h e perco a paciência com ele pela segunda vez. Grito. Ele diz que vai contar tudo para o pai. Eu digo que também vou. Ele responde “não, eu que vou”. Eu me pergunto onde estou errando. Tenho me esforçado tanto, feito tanto por ele. Por que é tão difícil?

Ainda estamos nos estranhando quando o marido finalmente chega. São 18h30. Deixo os meninos com ele e me fecho no quarto, preciso de uns minutos pra mim. Passo o resto da noite chorando vez e outra. Ainda falta comer, preparar algo para os meninos, dar banho nos dois, amamentar, fazer o Igor dormir, fazer e pagar minha inscrição num encontro, ler, estudar, meditar, orar, fazer as reflexões dos desafios do autocuidado e do autoconhecimento, dormir. Na minha cabeça, repete-se o refrão “e qualquer desatenção, faça não… Pode ser a gota d’água”.

 

Ainda não encontramos o probiótico do Igor.

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