Apaga a Lua e fecha a porta

Na vida existem coisas que estão na coluna “se tiver que ser, será”. E outras que estão na “faço tudo que precisar”. Muita dor e sofrimento advêm da desorganização dessas colunas: quando relegamos ao acaso coisas que dependem exclusivamente do nosso esforço, corremos o risco de morrer sem ter visto nosso sonho se realizar. E quando insistimos em fazer tudo por coisas que não dependem de nós, corremos o risco de morrer de tanta frustração.

Colocar cada coisa no lugar certo não garante felicidade. Não é sobre ganhar um prêmio nem sobre borboletas no seu sistema digestivo. Não é sobre fazer seus olhos brilharem e você sentir que a vida vale a pena. É apenas sobre um pouco de paz de espírito. Sobre aceitar o decorrer dos dias como uma sequência lógica e inexorável, e não como uma alegria indizível e tampouco um fardo insuportável. Não é sobre alcançar o pico da montanha e, peito tomado de satisfação, enxergar o horizonte distante. É mais sobre um passeio na Leroy Merlin em que você acha tudo caro e volta pra casa de mãos vazias, mas tudo bem.

Redistribuir as coisas segundo sua capacidade – e responsabilidade – de realizá-las pode significar tanto concretizar projetos quanto protelar desejos para um momento chamado nunca. E pode também permitir que alguns sonhos sigam existindo, uma vez que a melhor forma de matar qualquer coisa que seja ideal é tentar transportá-la do mundo das ideias para o real.

É que tudo bem se apaixonar pela Lua, e até trazê-la de modo simbólico pra dentro do próprio peito. O problema é acreditar que dá pra morar lá. Depois de cogitar abrir mão do oxigênio porque respirar talvez seja superestimado, você conclui com resignação que a Lua não cabe mesmo na sua vida. O que você precisa de verdade é trocar a lâmpada do banheiro, que está queimada há sabe-se lá quanto tempo. E, finalmente, aquele passeio na Leroy Merlin termina com sensação de missão cumprida, enquanto a Lua volta a ser objeto de uma devoção sincera, porém distante, como tem de ser.

Você olha da janela e compreende que ela é linda, misteriosa e perfeita enquanto flutua no céu e reflete a luz do Sol de um jeito diferente a cada dia. Mas seria apenas uma rocha inóspita em cor de giz no meio da sua sala de estar.

E agora, com a lâmpada trocada, você só toma banho no escuro se e quando quiser. Sobre visitar a Lua: quem sabe um dia? Se tiver que ser, será.

E você, também está precisando reorganizar as colunas por aí?

Texto originalmente publicado no meu perfil pessoal no Instagram em 17/09/2020