O pesto e a memória

basil-herbs-green-mediterranean-40720.jpeg
Dia desses fui à feira. Uma das barracas tinha temperos frescos, cujo perfume tornava quase impossível passar por ali e resistir à vontade de escolher com o nariz qual deles levar. Comprei dois maços de manjericão italiano: a espécie com folhas grandes, de cor e aroma intensos. Uma amiga escreveu há poucos dias que fez um pesto com o manjericão que planta em casa, contando sobre a relação desse cheiro com sua infância como neta de uma nonna italiana.
 
Eu não tenho ascendência italiana, o que é uma lástima. Eu adoraria que essa culinária tão rica fizesse parte de minha memória afetiva. A primeira vez que experimentei um pesto foi já na adolescência, na casa de uma amiga. Fizemos um macarrão e ela abriu o vidro que tinha na geladeira, espalhando o molho sobre a massa. Eu ainda iria conhecer outros bem melhores do que aquele comprado pronto, mas de qualquer forma o primeiro encontro de minhas papilas gustativas com esse sabor foi inesquecível.
 
Minha amiga e eu acabamos nos afastando. Não, não teve nada a ver com o pesto. Quando comemos juntas aquela massa no fim de um dos muitos sábados em que eu dormi em sua casa, eu não imaginava que isso fosse possível. Eu não me via sem ela. Um dia, não sei por que, ingenuamente perguntei a ela se seríamos amigas para sempre. Ela respondeu que não sabia, pois as pessoas mudam e seguem rumos diferentes na vida. Talvez ela estivesse apenas sendo madura demais para uma pessoa de dezessete anos. Mas eu entendi como uma mensagem. Senti uma dor difícil de explicar. Naquela época eu já sabia como era gostar de alguém – romanticamente – e não ser correspondida, mas levar o fora de uma amiga, de uma melhor amiga, foi uma experiência muito mais angustiante. E eu não tinha nem para quem contar isso, já que era ela própria a minha confidente. Na iminência de ser deixada por minha amiga, tomei eu mesma a iniciativa e dei a ela o espaço que entendi que ela me pedia. Continuávamos conversando normalmente quando nos encontrávamos, mas ela deixou de ser a minha pessoa. Não voltei a dormir em sua casa, passar horas com ela ao telefone, dizer-lhe meus segredos. Depois de um tempo, perdemos o contato.
Quando a reencontrei, muitos anos mais tarde, eu me perguntei quem eu seria se tivesse permanecido à sombra daquela relação que significava tanto para mim. Há pouco tempo, percebi que esse foi um padrão que repeti em vários relacionamentos: quando sentia que minha presença já não era tão desejada, eu me afastava. É provável que eu tenha me equivocado em alguns casos, e uma conversa honesta poderia ter sido melhor que sumir da vida das pessoas. Mas o medo da rejeição decidiu por mim.
 
Ontem eu fiz o meu pesto. Com certeza não se compara à receita de uma nonna italiana original. E o aroma não me traz lembranças felizes do passado. Mas meu marido e meu filho estão encantados com o sabor do molho. Assim como eu, que não consigo deixar de me alegrar quando abro um dos vidros e o cheiro de manjericão se espalha pela cozinha. É um cheiro de comida feita com amor, para alimentar as pessoas que amo.
 
Imagino meu menino, quando crescido, passando pela barraca de temperos na feira. Ele escolhe um maço de folhas largas e bem verdes, porque o aroma o remete à cozinha da mãe. O meu pesto lança afetuosas memórias olfativas ao futuro. 
Anúncios

Linda

pexels-photo-788824.jpegPele brilhante de suor, cabelos perfeitamente desordenados, você mexia o corpo ao som de Rock the Casbah. Meus olhos acompanhavam seus quadris, para lá e para cá, num movimento lento e amplo que me deixava tonto. Avancei em sua direção sem ver mais nada, as mangas da camisa dobradas até os cotovelos, o queixo próximo do peito, olhos fitando minhas próprias sobrancelhas. Talvez eu colocasse as mãos na sua cintura e dançasse com você. Só aproximei os lábios de sua orelha e disse: linda. Seus olhos me deportaram para a Sibéria. Eu supliquei: mas, linda. Você disse: está na hora de você beber uma água. Água enferruja, linda. Na minha cabeça pareceu engraçado, desculpe.

Pedi outra cerveja, reclinei o corpo e apoiei o cotovelo sobre o balcão do bar. Dali eu podia ver você dançar. Toda vez que erguia os braços, fechava os olhos e sorria, deixando ver o espacinho entre os dentes da frente. Duas grandes argolas douradas pendiam dos lóbulos de suas orelhas. Você abriu os olhos e me viu. Trocou de lugar com sua amiga. Não me incomodei, assim eu podia ver outro ângulo seu.

Você traçou com os olhos seu caminho até o banheiro, passando distante de mim. Não queria que as coisas fossem desse jeito entre nós. Eu queria dizer: não seja assim, linda. Se você apenas me olhasse, talvez me visse de verdade. Se você me escutasse, eu teria tanto a dizer. Sua amiga foi na frente, puxando você pela mão. Era difícil abrir caminho na pista entre os corpos em movimento, mas vocês conseguiram.

Esperei na porta do banheiro como uma servil sentinela. Você saiu e eu chamei. Linda. Você não atendeu. Eu não sou assim, mas tive que pegar no seu braço. Só para chamar sua atenção. Senti o cheiro do seu creme de cabelo, você virando o rosto na minha direção. Em seguida, seu corpo todo se voltou para mim, em câmera lenta, ombro esquerdo, seios, ombro direito. A atração entre nossos corpos era incontornável como se a força gravitacional da Terra trouxesse para si o meteoro que acabaria com a vida de seus jurássicos habitantes. Não sei dizer se era o punho fechado da sua mão direita que vinha ou se era meu nariz que ia. Encontraram-se os dois no meio do caminho, em extraordinária colisão. Do alto, sua voz era agridoce, entrava em meus ouvidos como uma fanfarra marchando no desfile da Independência. Saiu alisando os nós dos dedos com a palma da outra mão. Um corredor se abriu entre os corpos – não mais em movimento – e você desfilou magnífica em direção à saída.

-//-

Camila me disse que abriu esse lugar novo, com bons drinks e música gostosa para dançar. Falou que eu precisava me divertir. E era verdade. Havia meses que eu trabalhava na dissertação do mestrado, aproveitando o silêncio da noite para escrever e dormindo durante o dia, dando ao mundo poucas oportunidades de me ver. Uma noite de distração não me faria mal, e poderia até ajudar naquele momento em que a pesquisa não estava rendendo e eu me sentia derrotada. Valia a pena me entregar a um leve torpor alcóolico e dançar até meu corpo desabar.

Ela usava um vestido preto, sandálias de salto alto e os cabelos presos no alto da nuca. Eu vesti um short de cintura alta, blusinha curta e sapatilhas. Meus pés não nasceram para se equilibrar sobre saltos. Ergui a raiz dos cabelos com o pente garfo, coloquei os brincos de argola que ganhei dela e me animei até para me maquiar. A fila ainda não era longa quando chegamos. Ao entrar, pedi um mojito para a Camila, uma cerveja para mim, e fomos para a pista. Passaram-se uns minutos e eu já estava distante das disputas sócio-antropológicas entre modelos abstratos de organização do mercado. Longe das burocracias acadêmicas e normas da ABNT. A gente devia fazer isso mais vezes.

Não demorou muito para sentir o bafo quente de um bêbado na minha orelha. Inferno. Tentei dispensá-lo com educação. Ele se afastou, mas deixou para trás o bafo e um rastro de inconveniência. Procurei um lugar para me abrigar dos seus olhos. Camila me disse pra esquecer e relaxar. Certo. Fechei meus olhos para não ver mais. A música era boa mesmo. Era quase possível ignorar a hostilidade do desejo alheio que se impunha sem convite sobre cada movimento meu. Camila insistia que eu não deixasse um desconhecido estragar nossa noite. Ela quis trocar de lugar comigo. Eu sentia aqueles olhos de coruja velha colados na minha nuca. Queria outra cerveja, mas ele não saía do balcão do bar. Concentrei na música até a vontade passar.

Mais tarde, Camila e eu saíamos do banheiro, ele me puxou pelo braço. O meu fucking braço. Minha pele. Minha noite. Minha garganta seca. Fiquei paralisada, com o ódio em ebulição na parte interna das bochechas. Meu corpo ofendido respondeu por mim sem que eu mandasse. Cravei as unhas na palma da mão, formando um pequeno bloco maciço de carne, osso e ferro fundido. Mirei entre os olhos de coruja e meu braço disparou. Caído no chão, ele encontrou seu espaço e não invadia mais o de ninguém. MEU NOME NÃO É LINDA, OTÁRIO.

Sobre o processo criativo

Quando a gente se propõe a escrever com regularidade – seja por razões profissionais ou pessoais – não pode simplesmente contar com aquela inspiração sazonal, aquele momento em que a mente canaliza uma ideia vinda sabe-se lá de onde e que se converte em palavras fluindo através de nossos dedos. E aí, o que você faz quando seu prazo está chegando e você não tem ideia do que escrever?

Você pode, por exemplo, escrever um texto sobre o processo criativo.

Algumas dicas que já me serviram para vencer a paralisia diante da tela em branco:

  1. Começar pelo ambiente. Descrever o lugar em que estou, por exemplo. “O espaço da grande sala é dividido apenas pela disposição dos móveis. O piso claro e as três grandes janelas, que recortam a parede de um extremo ao outro, aumentam a sensação de amplitude. Um gato se espalha preguiçosamente sobre o topo do espaldar do sofá vermelho”. Pode ser um começo. É claro que, para isso virar ficção e, principalmente, uma ficção interessante, é necessário desenvolver um conflito, mas fazer isso a partir de um parágrafo qualquer pode ser mais fácil.
  2. Também a partir da observação do ambiente, contar a história de um objeto. Em meu conto Jota Peg, eu falo sobre um álbum de fotografias. Essa ideia surgiu porque, sobre minha mesa de trabalho, no meio da minha bagunça, está um álbum da minha tia, que eu peguei para digitalizar suas fotografias. IMG_1653.jpg
  3. Por falar em bagunça, algumas pessoas precisam de um ambiente perfeitamente organizado para se sentirem produtivas. Outras se viram melhor na bagunça. Eu sou mais do segundo grupo, gosto de ter livros, cadernos, objetos, referências, tudo ao meu redor. Mas quando a desorganização é demais, também me bloqueia. Então, no meio de uma crise de criatividade, se estiver tudo arrumadinho demais, bagunce. Se estiver bagunçado demais, arrume.
    IMG_1663.jpg
    Bagunça no ponto
  4. Ouvir a música certa para criar o clima. Eu gosto muito de música instrumental para escrever. Mas cada tema exige a trilha sonora adequada. Ainda falando do Jota Peg, comecei ouvindo o álbum Symphonies Nos. 1 and 2 da Ukraine National Symphony Orchestra. Mas, conforme o tom da história foi se revelando, eu parti para playlists chamadas “Coração Partido”, “Alone Again” e “Bad Days”.

  5. E, claro, o bom e velho pânico de última hora!305346_246012265446820_210286542352726_647653_459745339_n

Gostou? Espero que possa ajudar. E você, tem alguma dica testada e aprovada para compartilhar? Conte para mim nos comentários!

Jota Peg

photo-album-photographer-old-47816.jpegNa casa dos meus pais, os álbuns de fotografia ficam na estante da sala. Eu costumava pensar que era para facilitar o ritual do constrangimento. As visitas de domingo chegavam para o almoço e a conversa começava meteorológica. Esse verão que só chove, os invernos que já não são frios como antigamente, mas e a seca no Nordeste, você viu que tristeza. Daí pulava para a política. Poderia ser um assunto inoportuno, mas ainda que parecessem exaltados, todos se assentavam na confortável certeza de que os políticos não valem nada, sem exceção, não tem diferença nenhuma entre os partidos, mas claro que esse que está no governo agora é o pior. Na sobremesa os assuntos se dividiam, os homens falavam de futebol e as mulheres da novela. No cafezinho já estavam quase sem assunto, e então minha mãe pegava os álbuns. Ignorando os protestos meus e de meus irmãos, exibia com orgulho as memórias estampadas em papel fotográfico desbotado. Olha só como eu estava linda no meu casamento, tão magra. E aqui o Júnior peladinho, que graça. Nesse dia aqui a Marcinha abriu o berreiro porque queria ir na montanha russa do parque. Adivinha só? Vomitou lá no alto e voltou chorando. Minha mãe contava e gargalhava, os olhos úmidos de tanto rir. Eu traçava em silêncio planos de vingança por aqueles anos de humilhação.

Eu já tinha vinte e um quando minha mãe me contou por que os álbuns ficavam naquela mobília específica. Não era apenas para entreter visitantes enfadados pela falta de assunto. Minha mãe imaginava que, na eventualidade de uma catástrofe, seria mais fácil salvar as relíquias da família se elas estivessem ali, perto da porta de saída. Se a casa pega fogo, minha filha, largo tudo pra trás, menos as fotografias. Não havia então discos rígidos e a nuvem era somente sinal de chuva, e não uma rede abstrata onde se podem armazenar dados. Para minha mãe, aqueles álbuns de fotografia eram a coisa mais preciosa que tínhamos, depois de nós mesmos.

Um filme de 12 poses durava tempos lá em casa. Nos aniversários, minha mãe fazia todos os convidados se espremerem atrás da mesa do bolo, e fazia uma única fotografia para registrar o evento. Também era assim no Natal, nos passeios de férias e outras ocasiões dignas de registro. O filme de 36 poses era proporcionalmente mais barato, mas minha mãe o evitava porque não suportava ter que esperar tanto tempo até que pudesse ser revelado.

Minha relação com a fotografia é diferente, mas também um pouco parecida. Faço dezenas de fotografias todos os dias, de coisas como meu café com um biscoitinho no pires ou o engarrafamento no final de tarde. E nenhuma imagem está sozinha. Todas são acompanhadas de uma sequência de cenas praticamente idênticas, das quais ao final seleciono uma para aplicar o melhor filtro e publicar numa rede social. Nas raras situações em que decido imprimir uma fotografia, conferindo-lhe existência para além do digital, é porque ela tem valor especial para mim. Nem toda imagem merece traçar seu caminho de tinta dos pixels até o papel. Algumas felicidades não ultrapassam a extensão do arquivo digital.

Quando planejávamos nosso casamento, convenci Maurício a investir boa parte de nosso orçamento para contratar um excelente fotógrafo. Eu disse que era mais importante que a banda, o uísque e os bem-casados. A fotografia era essencial. O profissional escolhido superou nossas expectativas. Receber as prévias em baixa definição foi suficiente para termos certeza de que nosso dinheiro havia sido bem empregado. Ele não apenas capturou com maestria nossas emoções, mas conseguiu retratar a cerimônia e a festa com tanta beleza que elas pareciam melhores nas imagens do que tinham sido na realidade.

Quase dois anos se passaram até que eu finalmente selecionasse, sozinha, as noventa imagens que iriam compor o álbum do casamento. O de verdade, que colocaríamos na estante da sala. Maurício e eu tentamos fazer isso juntos diversas vezes, mas sempre acabávamos discutindo – ele queria uma foto porque nela sua mãe estava sorrindo, não se importando com o fato de que naquele clique específico eu estava com queixo duplo. Ou éramos vencidos por uma associação infalível de tédio e procrastinação. Vamos só ver um episódio daquela série, depois continuamos. Mas logo agora que chegou a pizza. Vou só tomar um banho e já vemos isso. Acabei escolhendo sozinha e ele não disse nada. Depois de um tempo, eu decidia muitas coisas sozinha. Ele raramente dizia alguma coisa.

Nas fotografias diárias estávamos sempre sorridentes, brindando com cervejas artesanais, saboreando hambúrguer de costela no food truck, completando o treino de dez quilômetros no domingo de manhã. Os sorrisos eram ativados pelo botão de fotografar como se fosse um controle remoto. Publicada a imagem com as devidas hashtags, engolíamos o silêncio. No escuro, sob o peso de seu corpo, eu fechava os olhos e pensava no homem que aparecia ao meu lado nas fotos. Seria incrível ser amada como eu parecia ser amada por ele. O sexo era como a corrida no parque: distância programada, velocidade controlada, tempo cada vez menor. Terminava com ele indo para o chuveiro antes que eu conseguisse encontrar minha calcinha entre os lençóis.

O telefone de Maurício vibrou. Na tela bloqueada, Renata perguntava se ele estava acordado. Acendi a luz. Peguei os óculos na mesinha de cabeceira. Olhei de novo. Um segundo alerta vibratório acompanhou o surgimento de um pequeno ícone de imagem. A senha ainda era a mesma de todos os seus dispositivos eletrônicos. Renata estava deitada, segurando o aparelho celular com os dois braços erguidos, num ângulo que afinava seu rosto e permitia ver seu corpo nu, desde a testa até o início das coxas. Respirei fundo e percebi um cubo incandescente dentro do meu estômago. Ajeitei a postura, abrindo os ombros, e o cubo foi rolando esôfago acima, as arestas ferindo e queimando meu tubo digestivo. Meus olhos ardiam e embaçavam as lentes dos óculos. Vomitei o cubo de lava. Sobre o lençol branco, parecia só vinho tinto. Maurício saiu do banheiro vestindo uma nuvem de vapor e gotículas sobre os pelos. O que aconteceu? Você tá bem? Atirei o celular nele com força.

Não é isso. Calma. Eu explico. Espera. Só estamos conversando. Foi só dessa vez. Ela que me procurou. Não aconteceu nada. É só virtual. Não vai acontecer de novo. Me perdoa. Eu não pedi foto nenhuma. Ela não vale nada, só quer me ferrar. Você tá sendo irracional. Vai dizer que você nunca falou com seu ex? Cala a boca e me escuta, sua louca. Desculpa. Calma, não falei por mal. Eu errei, mas te amo.

Hoje vi uma foto de Renata e Maurício, suados e sorridentes. Na legenda: corridinha básica para espantar o frio, hashtag mozão hashtag parceria hashtag casal corredor. Eu ri.

A capa do álbum tem a inscrição Nossas Núpcias, escrita com uma fonte de ângulos suaves e arredondados. É um pouco brega, mas eu quis um toque vintage. Parece com o álbum dos meus pais. As letras ficam engraçadas quando dançam no fogo. Uma vez minha mãe queimou sem querer um filme inteiro de 12 poses, abrindo a câmera antes de enrolar o negativo. Ela chorou. Queimar fotografias usando fósforos e álcool em gel é mais difícil. A chama viscosa e azul se arrasta devagar sobre a capa dura e o papel fosco. Nas primeiras três tentativas, o fogo morreu antes de causar algum dano ao vestido branco. Precisei rasgar as fotografias, uma a uma, antes que elas se convertessem em fumaça e cinza. Não chorei. Na casa dos meus pais, as fotografias ficam na rota de fuga para escapar em caso de incêndio.

Vinte meses

Filhote,

Faz tempo que não escrevo para você. Os últimos dois meses não foram muito fáceis, meu amor. Mas agora eu estou me reencontrando e me sentindo mais forte para voltar a fazer algo que tanto amo, que é escrever. Hoje você está fazendo 20 meses de vida, e não vou enumerar todas as habilidades que conquistou, quantas palavras já sabe falar e quantos vocábulos você criou no idioma ivanês, porque não saber como se diz em português não é motivo para você encerrar a conversa.

O que quero hoje é contar outras coisas para você. A primeira é que não sou perfeita. Eu sei que por alguns anos você vai duvidar disso. Você pensa e vai continuar pensando por bastante tempo que sua mamãe sabe tudo. Depois, quando chegar à adolescência, vai ter momentos (espero que não seja o tempo todo) em que vai pensar que não sei nada. E bem mais lá na frente, vai compreender que sou só uma pessoa adulta procurando fazer o melhor que pode. Mas não nos adiantemos tanto.

Quero que você saiba que eu erro e me arrependo. Com você, com as outras pessoas e comigo mesma. Especialmente nos dias em que me encontro no limite do cansaço, é fácil escorregar, sabe? É importante você saber disso, filho, porque você vai errar e se arrepender bastante vezes também. Quero contar, e mostrar com o meu exemplo, que sempre é possível recomeçar, melhorar, fazer diferente. E não importa o que aconteça, sempre existirão pessoas para apoiar você, para lembrar que um erro não o define e para enxergar o seu valor. A começar pela mamãe.

Outra coisa que quero dizer é que, mesmo nos dias mais difíceis, eu continuo lembrando que ser sua mãe é a realização do meu maior sonho. A maternidade é uma responsabilidade tão grande, um trabalho que exige tanto! Se fosse qualquer outro emprego talvez eu pedisse demissão. Noites mal dormidas, desafios cada vez maiores para entreter, brincar, ensinar, manter você longe da TV ou iPad e ainda assim conseguir fazer a comida, ajeitar a casa. Lidar com as suas frustrações, encontrar formas de me comunicar com você sem violência quando você tem uma crise de raiva. Sobreviver a dias chuvosos sem poder ir lá fora. Suportar o horror que têm sido as mordidas me deixando coberta de hematomas desde que seus últimos molares começaram a nascer (a dentista disse que eles só viriam depois dos dois anos, mas seus dentinhos têm pressa!). Nesses dias você me viu chorar algumas vezes. De dor, de cansaço, de ressentimento.

Felizmente as recompensas desse trabalho também são as maiores que existem. Ver você crescer cada vez mais corajoso, explorador, inventando brincadeiras. Cada dia mais menino e menos bebê. Perceber o quanto você é carinhoso não só comigo, enchendo-me de carinhos e beijinhos ou dizendo “amomãe”, misturando amo com mamãe, mas também com as outras pessoas. Você é uma criança adorável. E o amor ameniza as dores, alivia o cansaço e dissipa o ressentimento. Todos os dias seu pai e eu ficamos alguns minutos falando sobre a sorte de ter você em nossas vidas, sobre como nossa família é a fonte em que renovamos nossas forças, é o que nos faz caminhar e faz tudo valer a pena. Há um ano e oito meses somos pessoas muito mais felizes porque você está aqui.

Meu periquito, pirulito, pililico. Um dia você vai detestar saber os apelidos bobos com que eu o chamava, e eu vou lembrar que meu colo era seu lugar favorito no mundo.

Amo você mais do que tudo, meu amorzinho!

Mamãe

Quem chora quer o quê?

DSCF7493
Você que tem filho, sabe quando você está muito triste ou frustrado(a) por algum motivo? Talvez tenha perdido o emprego, sofrido uma violência ou uma traição. Talvez tenha se decepcionado com alguém. Ou esteja nas profundezas do puerpério. Não importa a razão. Imagine que, diante da pessoa que você mais confia no mundo, cônjuge, parceiro(a), melhor amigo(a), talvez até sua mãe ou seu pai, você se permite chorar. O que você espera é acolhimento, certo?
 
Imagine então que essa pessoa, em quem você confia tão profundamente a ponto de expor toda a sua vulnerabilidade, reage assim:
 
– ISSO, MOSTRA PRA TODO MUNDO COMO VOCÊ É CHORÃO! OLHA LÁ, TÁ TODO MUNDO VENDO VOCÊ CHORAR!
 
Perceba. Por amor, por favor, não faça isso com seu filho. As razões pelas quais os bebês e as crianças choram podem parecer banais para pessoas maduras, mas são as razões deles! Ninguém no mundo gosta de (e nem merece) ser ridicularizado por seu sofrimento. Não resolve, não ensina a criança a lidar com sua frustração.
 
Eu sei que não é fácil suportar um choro estridente e incessante muitas vezes causado por uma coisa que, para nós, adultos, é absurda. Como o garotinho de um ano e pouco na praça que gritava porque sua mãe não queria deixá-lo se atirar no espelho d’água.
 
Precisamos compreender, porém, que dentro do arcabouço de experiências de uma criança pequena, o que é óbvio para nós, não é para ela. O bebê nem imagina que seja um problema se jogar na água num dia gelado. Não faz ideia da temperatura daquela água, nem da profundidade, tampouco lhe passa pela cabeça que esteja imunda. Não sabe que existem regras sociais que determinam que as pessoas não devem nadar na pracinha. Ele não entende a proibição e fica frustrado.
 
Conheço incontáveis adultos que não sabem lidar com suas próprias frustrações, reagindo de forma absolutamente inadequada a situações em que são contrariados – com impaciência, raiva, intolerância e até violência. Como então esperar uma reação madura de alguém que sequer entende o motivo do “não”, e que conta com vocabulário reduzido para se expressar?
 
A mensagem que se passa a uma criança reagindo ao seu choro com menosprezo é de que é feio e inaceitável expor seus sentimentos. E que é aceitável rir e fazer piada com o sofrimento alheio (já que a pessoa que mais amo no mundo faz isso comigo).
 
Se a criança é um menino, isso tudo costuma vir com uma carga ainda maior no sentido de que “homem não chora”. Gente, por favor. Precisamos no mundo de homens (independentemente de sua orientação sexual) com maturidade emocional. Bem resolvidos com seus sentimentos. Que não sintam sua masculinidade ameaçada por ter lágrimas nos olhos. Homem de verdade chora, SIM. Homem de verdade sente dor, medo, tristeza. Esconder sentimentos não torna ninguém mais homem.
 
Então, pai e mãe, acreditem em mim, eu sei que nem sempre é fácil ser a pessoa adulta na relação, mas sejamos. Há momentos (MUITOS) em que a paciência quase se esgota. Nem sempre é fácil segurar o grito na garganta ou deixar de repetir os padrões da nossa criação. Mas façamos um esforço. Não vamos rir da frustração de nossos pequenos. Não zombemos de sua vulnerabilidade. Acolhamos o sentimento deles. Digamos: “eu sei que você está triste/frustrado por não poder fazer isso. Podemos fazer outra coisa”. Abracemos. Assim, com a autoestima fortalecida, será mais fácil, para eles, lidar com as frustrações no futuro.
 
A propósito, quando a mãe do menino na pracinha disse a ele “olha lá, seu amigo tá vendo como você é chorão’, meu filho de 14 meses se aproximou dele e, sem que ninguém lhe dissesse nada, fez um carinho em sua cabeça. Eu respirei aliviada. Sim, é isso que ele tem aprendido comigo e com o pai dele: quem está chorando precisa de um carinho.

Entretenimento infantil durante o voo e trechos terrestres

Essa será a primeira vez que o Ivan viajará de avião. E de trem. E de ônibus. Entreter um bebê em viagens de carro já não foi moleza. Mas agora lidamos com um toddler que quer andar o tempo todo, e em meios de transporte coletivo a maior preocupação é tentar não incomodar (muito) os outros passageiros.
Então essas são as ideias que tenho até o momento para tentar tornar a viagem o mais tranquila possível:

  1. Dormir. Como mencionei no post anterior, nossos voos principais e mais longos são noturnos. Os trechos terrestres longos também programamos para fazer à noite. Eu realmente acredito que o Ivan vai dormir nesses trechos. Ele costuma dormir bem à noite, ainda que acorde de vez em quando para mamar. 
  2. Mamar. Várias mães dão essa dica: amamentar durante a decolagem e o pouso minimiza os desconfortos causados pela pressão nos ouvidos. 
  3. Comer. No carro, quando o Ivan está entediado, biscoitinhos de arroz ou de polvilho e uvas passas costumam deixá-lo mais tranquilo.
  4. Música. Outra coisa que o acalma bastante. Já tenho os álbuns preferidos dele salvos para tocar off-line no Spotify.
  5. Livrinhos. Ocupam pouco espaço, mas também o entretêm por pouco tempo.
  6. Brinquedos. Algumas mães sugerem levar brinquedos novos (os antigos já não fazem sucesso). Mas essa opção não me agrada muito porque: a) muita coisa para carregar, b) as novidades deixam de ser novidades muito rapidamente; c) são raros os brinquedos que sirvam para entreter uma criança da idade do Ivan (um ano e dois meses) sentadinho no meu colo. Vou levar uma coisinha ou outra, mas não confio que vá funcionar por muito tempo.
  7. Vídeos e joguinhos no celular ou tablet. Não sei se o voo que pegaremos terá boas opções de entretenimento individuais, mas prefiro nem contar com isso (até porque não é qualquer desenho animado que ele gosta). Vou levar os preferidos baixados para ver off-line (há algumas opções que ele gosta na Netflix, e outros baixei o aplicativo, como Palavra Cantada e Bita). Não está entre as primeiras opções não só porque gosto de limitar o tempões exposição dele a telas, mas principalmente por serem trechos noturnos, e acho que ficar vendo desenhos animados pode interferir negativamente no sono. Mas pode ser uma boa para quando ele acordar de manhã, e para viagens curtas de trem que serão feitas durante o dia.

Editando para colocar dicas da minha amiga Aline que eu tinha esquecido e achei ótimas:

– Papel, giz de cera, carimbo e adesivos autocolantes! 

Você já viajou com bebês ou crianças e tem alguma dica que eu não coloquei na lista? Conte pra mim nos comentários! 

Primeiro passo: escolha e compra das passagens

Sempre que possível, nós resgatamos nossas passagens com pontos do nosso programa de milhagens. Mas, dessa vez, não tínhamos pontos bastantes para isso.
Pesquisamos, então, pelo Skyscanner, dando prioridade a: 

  • Voos noturnos, pois acreditamos que será mais fácil o Ivan dormir e não termos tanta dificuldade para entretê-lo;
  • Mínimo de escalas e conexões possíveis;
  • Preço baixo.

Ocorre que, embora o Skyscanner seja o nosso buscador de passagens favorito, não é ele quem efetivamente vende as passagens. No caso, os bilhetes que mais se encaixaram nos critérios acima eram vendidos pela eDreams. Encontramos muitas reclamações dessa agência (cancelamentos, venda de passagens que já não existiam e overbooking) e preferimos não nos arriscar.

Entramos em contato diretamente com a companhia aérea e compramos as passagens por um preço apenas um pouco superior ao oferecido pela eDreams. Nossos voos de ida e volta contam com conexões no Rio de Janeiro e em Roma. A de Roma, na ida, é bem longa (7 horas). Se chegarmos na hora e a passagem pela imigração for bem rapidinha, talvez deixemos nossas bagagens no locker do Terminal 3 para ir dar uma olhadinha no Coliseu. =)

No próximo post vou falar dos planos de entretenimento para o Ivan no avião. 

Planejando a primeira grande viagem com o bebê

Essas tags de mala feitas à mão (por mim, minha mãe e meu marido) foram as lembrancinhas da festa de um ano do Ivan. E finalmente as nossas serão usadas!

Viajar é uma das coisas que mais amo na vida. Há quase 9 anos conheci o melhor parceiro de viagem, e tem sido uma alegria imensa conhecer o mundo aos pouquinhos com ele. Marido e eu nos entendemos perfeitamente, gostamos dos mesmos programas, somos igualmente animados a conhecer destinos diferentes, aproveitar bem os dias, experimentar comidas e programas locais. Juntos estabelecemos o que chamamos de lema da família Guerra: FAZER VALER. Tiramos o melhor de qualquer experiência, desde um jantar mais caro do que o previsto até uma dica super furada de derviches dançantes.

Desde que chegou o mais novo integrante da família, já começamos a imaginar como seria mostrar o mundo a ele, e também conhecer o mundo através de seus olhinhos. Mudar o ritmo para acomodar suas necessidades, incluir programas legais para ele, cuidar de seu conforto, sua alimentação, seu soninho. Fizemos já algumas pequenas viagens: usamos dois dias para conhecer Carambeí e Castrolanda, duas cidadezinhas próximas daqui; fizemos um bate-volta para a Lapa; visitamos chácaras ao redor de Curitiba; passamos uma semana numa prainha privativa em Governador Celso Ramos-SC.

Agora, o papai conseguiu negociar com seu chefe maravilhosas férias de 30 dias para fazermos uma viagem incrível. A mais longa que já fizemos. No meu antigo trabalho, não podia tirar mais do que 15 dias de férias de cada vez, e isso nos limitava bastante – não rolava ir para lugares muito distantes, que tomariam muito tempo no percurso, nem comprar passagens mais caras para ficar tão pouco tempo no destino. Um mês viajando já dá pra brincar, né?

Pensamos em várias das nossas viagens dos sonhos (já realizamos algumas e, felizmente, sempre surgem novos sonhos para ocupar esse lugar). O André quer muito conhecer a Alemanha, e então eu pensei nela como porta de entrada para o leste europeu (também chamado, talvez de forma geograficamente mais correta, de Europa Central), que sempre sonhei conhecer.

Simulei alguns roteiros incluindo as cidades mais populares da região, Praga, Viena e Budapeste. Mas eu queria a qualquer custo incluir Lviv, na Ucrânia, porque tenho familiares lá que ainda não conheço. O roteiro ficou meio quebrado, e acabamos optando por algo fora do comum: começaremos em Berlim, faremos um pit stop em Dresden, de onde seguiremos para Wroclaw (também conhecida como Breslávia), na Polônia. Ainda no mesmo país, visitaremos a Cracóvia. Pensei também em Varsóvia, mas acabei optando por não fazer esse desvio ao norte. Da Cracóvia, partiremos para Ivano-Frankivsk, cidadezinha no sudoeste da Ucrânia onde tenho parentes, frutos do primeiro casamento do meu avô materno, antes de migrar para o Brasil. Em seguida, a bela Lviv, conhecida como a Paris do leste europeu, onde vive o restante da minha família ucraniana. Depois, Kiev. E, finalmente, Moscou. Da capital russa, voltaremos.

Eu quero compartilhar os detalhes dessa aventura, mas confesso que não tem sido fácil, pois tenho um mocinho que não desgruda do meu pé, e usar o computador na presença dele é um desafio enorme. Depois que ele dorme é que consigo organizar o roteiro, pesquisar sobre as cidades, comprar ingressos, passagens de trem etc. E às vezes também preciso dormir. Mas farei o possível para dividir com vocês o planejamento e execução da viagem! 🙂

Um ano

Filhote,
Então você fez um ano. Há algumas semanas eu vinha me preparando para essa data, sem saber ao certo as emoções que ela me traria. Lembrar do seu nascimento me causa um misto de sensações. Quero ser sempre honesta com você e, para isso, devo reconhecer que o dia do seu nascimento envolveu dor, sofrimento, medo. Mas foi também o dia em que recebi o maior presente da minha vida, a felicidade de ser sua mãe.
Decidi que faria uma festa muito linda para celebrar o seu primeiro ano, porque esses 12 meses com você foram incríveis e merecem ser comemorados. Decidi que 21/05 será sempre um dia de muita alegria na nossa família. O planejamento e a concretização da sua festa tomaram todo o tempo e a energia de que eu dispunha, e nem deu para ficar triste lembrando da parte não tão legal desse dia. Quando vi, já estava na hora de cantar parabéns pra você. 
E como valeu a pena, meu anjo! Ver você curtir a festinha que preparei com todo amor, cercado de pessoas que o amam. A lição que você me ensina a cada dia é que o tempo passa muito rápido, e por isso eu preciso dar sempre mais atenção às coisas boas e aos momentos felizes.
Agora você entrou numa nova fase, e eu continuo amando acompanhar cada passo do seu desenvolvimento. Já sabe andar, bater palminhas, dar tchau, dançar, fazer não com a cabeça, tomar água com canudinho, fazer high five, cantar no ritmo da música. 
Continua amando esmagar a Samantha, mamar (que grande vitória chegarmos a um ano de amamentação depois de todas as dificuldades que tivemos), dormir no sling, tomar banho de chuveiro no colinho, Palavra Cantada, nadar na piscina, aula de música, instrumentos musicais, cozinhar um papá imaginário nas suas panelinhas, encaixar peças nos brinquedos de montar, brincar de esconder.
Sabe falar mamãe, mamá, gata, dadá, papá, ábua, banana, batata, au-au, vovó, nossa, opa e repete outras coisas que mamãe diz. Tem 8 dentinhos e um nascendo. Tem dias em que come pouco, e outros em que não sei pra onde vai tanta comida. Dorme ainda com a mamãe e o papai, e nós três amamos isso.
Parabéns pelo seu primeiro aninho, meu amor. Grata por fazer a minha vida tão feliz.
Amo você! 
Mamãe