Relato de parto do Igor

Muita gente me disse. Até eu disse a mim mesma, desde antes de engravidar: não compare uma gestação à outra, não compare um parto ao outro. Psicologicamente, meus principais esforços ao longo da segunda gravidez foram esses: não comparar e não criar expectativas. No que se refere às expectativas, eu nutri apenas uma, a de ser respeitada. No meu chá de bênçãos, minhas amigas expressavam seus desejos para o meu parto. “Acredite em você, acredite no seu corpo. Confie, se entregue”. Eram desejos válidos e bem-vindos, mas no fundo eu pensava: “eu já acredito em mim, sempre acreditei”. Eu já não duvidava de mim no primeiro. No segundo, então, eu sabia que meu corpo tinha a memória de como parir. Isso não me preocupava.

 

Uma amiga, a Tati, leu meu pensamento ao dizer: “tudo que desejo é que você seja respeitada”. Era só isso que eu queria, que me respeitassem e que meu bebê nascesse em segurança (e eu sabia, por experiência, que esse segundo desejo dependia diretamente do primeiro).

 

No que se refere às comparações, eu bem que tentei evitar, mas não tem como. Porque tomamos nossas decisões com base em nossas experiências. Por isso, preciso contar pelo menos três coisas sobre meu primeiro parto.

 

A primeira é que eu queria que o Ivan nascesse em casa, num lindo parto domiciliar planejado, assistido por uma equipe em que eu confiava. Mas deu tudo errado e ele acabou nascendo num parto hospitalar, com uma péssima assistência, e com a prática de violência obstétrica que colocou em risco a minha vida e a dele, que passou os primeiros 12 dias de vida na UTI.

 

A segunda é que meu TP (trabalho de parto) foi extremamente longo e exaustivo. Os pródromos iniciaram no dia da minha DPP (data provável de parto), 16/05, com contrações dolorosas e irregulares que me mantinham acordada a noite toda, e espaçavam até desaparecer durante o dia. Isso durou 3 dias. Na sexta-feira, 20/05, tive contrações regulares (3 a cada 10 minutos) o dia inteiro. À noite, eu estava com 9 cm de dilatação e um rebordo de colo. Minha bolsa foi rompida artificialmente num exame de toque por volta das 7h da manhã de sábado. A dilatação continuou paralisada aí, mesmo com muita ocitocina sintética que recebi no hospital, e o Ivan nasceu somente às 16h45 de sábado, dia 21/05. Ou seja, passei mais de 17 horas com 9 cm de dilatação, e cerca de 10 horas com a bolsa rota.

 

A terceira coisa sobre meu primeiro parto é que eu ouvi de algumas pessoas (direta ou indiretamente) que o “meu problema” era querer controlar tudo. Que eu não me entregava. Esse julgamento, somado à culpa que eu sentia – por ter feito escolhas que se revelaram ruins, por não ter conseguido evitar o sofrimento do meu filho – e a todo o trauma que derivou da situação que vivemos, foi um peso que carreguei por 2 anos e 7 meses. Muito mais do que imaginar se por acaso meu filho não havia encaixado direito, se exercícios ou alguma manobra teriam me ajudado, se analgesia teria resolvido, ou mesmo se eu deveria ter ido para uma cesárea (que me foi recusada, assim como a analgesia), eu me questionava se o parto tinha sido tão longo e difícil por minha culpa. Porque eu não tinha ido para a “partolândia”, porque não virei um animal selvagem em conexão com a terra e as forças cósmicas, porque sou racional demais.

 

Com base nessa experiência, a única coisa que planejei para a chegada do Igor foi que seria um parto hospitalar, assistido pelo Dr. Álvaro, obstetra da minha confiança. Eu sabia que, com ele, caso precisasse de alguma intervenção, ela seria feita no melhor momento possível, a fim de garantir a nossa segurança. E que minha vontade seria ouvida e levada em consideração em qualquer decisão que precisasse ser tomada.

 

Dessa vez não teria nem doula. Se as condições financeiras permitissem, talvez seria na suíte de parto da maternidade. Pagamos a taxa de disponibilidade do médico e era somente com ele que eu contava. Já no final da gestação, surgiu a maravilhosa oportunidade de receber o acompanhamento pré-hospitalar da Raquel, enfermeira obstetra que é, além de excelente profissional, uma amiga muito querida. Ela viria para minha casa quando eu entrasse em TP, e me examinaria e acompanharia até a maternidade quando fosse a hora. Era a minha segurança de que eu não iria nem cedo nem tarde demais, mas sim no momento certo.

 

Minha DPP era 12/12, e até esse dia eu não senti nenhum sinal de que o parto se aproximava. Já em 16/12, levamos o Ivan à Casa do Papai Noel em São José dos Pinhais, como parte das atividades do Calendário do Advento. Caminhando por lá, comecei a sentir contrações/cólicas dolorosas no baixo ventre. Elas continuaram por toda a noite. No dia seguinte, 17/12 (40 semanas e 5 dias, mesma idade gestacional que tinha o Ivan quando nasceu), usei muito óleo essencial de sálvia esclareia e fiz exercícios de baby spinning que a Raquel me ensinou. À tarde, tive consulta com meu obstetra. Ele atrasou para me atender, e minhas contrações estavam já mais frequentes e bastante intensas. Ele me fez duas perguntas antes do exame de toque. Primeiro quis saber, de 1 a 10, qual a intensidade da minha dor. Falei que era 7 e ele disse que não era possível, que eu não tinha cara de quem estava com tanta dor. Respondi, um pouco grosseira: “não discuta comigo, homem!”. A segunda pergunta foi quanto eu achava que tinha de dilatação naquele momento (por volta de 16h15), e eu respondi que uns 4 cm. Ele fez o toque e disse: “2 cm de dilatação, colo bem posterior, a cabecinha do neném tá aqui do lado ainda. Vamos aguardar. Amanhã de manhã você me diz como está. Se eu estiver na maternidade você vai lá pra eu te examinar, se não você vem aqui”. Saí desanimada com a perspectiva de outro TP longo e cansativo. O Dr. Álvaro se despediu dizendo que não valia a pena eu ficar caminhando, agachando, fazendo muitos exercícios, porque minhas contrações estavam bastante intensas, e a dilatação não estava acompanhando. A dica dele era eu relaxar, descansar na medida do possível, poupando energias para a fase seguinte do TP. Saímos do consultório e fomos comer um doce numa confeitaria.

 

Quando cheguei em casa, enchemos a piscina de água quentinha, fiz um mix de óleos essenciais no difusor, seguindo minha intuição (acho que foi lavanda, capim limão e sálvia esclareia), coloquei no pescoço o colar feito para mim no meu chá de bênçãos, botei minha playlist pra tocar e esqueci do mundo. De vez em quando o André, que tirou o dia para trabalhar de casa, vinha verificar se eu estava bem e viva. De repente, comecei a sentir muita dor na lombar e decidi que era hora de sair dali.

 

Às 20h15, senti que estava próximo. Mas, sei lá por que razão, eu tinha medo de estar errada, de incomodar as pessoas e o parto ainda levar horas para acontecer. Mandei mensagens para a Raquel, avisando que as contrações estavam longas, a dor muito intensa, que também tinha bastante dor na lombar e pressão no períneo, como se fosse fazer cocô. Ela respondeu que iria jantar e sairia de casa por volta de 21h30, a não ser que eu achasse que era melhor ela sair naquela hora mesmo. Eu senti vontade de dizer: “POR FAVOR, VENHA JÁ!”, mas novamente aquele medo de ser cedo demais me fez calar.

 

Em casa, meu comportamento também não deu ao meu marido a real dimensão do que eu estava sentindo. Quando eu percebi que precisávamos ir logo para a maternidade, pedi a ele que falasse com a Raquel para saber se ela estava chegando, caso contrário nos encontraríamos na maternidade mesmo. E fui me maquiar. Isso mesmo, eu não queria parir com as olheiras que eu estava. Prioridades, hahahaha… Terminei de me arrumar e ajeitar minhas coisas entre contrações fortíssimas, perguntei a ele se tinha falado com a Raquel, e ele, absurdamente calmo:

 

– Mandei mensagem, ela nem visualizou ainda.

– ENTÃO LIGUE, HOMEM!

 

Minha mãe, que tinha vindo para minha casa para cuidar do Ivan, estava visivelmente preocupada e querendo que fossemos logo. O Ivan estava dormindo profundamente (acordou de madrugada naquele dia e não conseguiu mais dormir, nem fez soneca durante o dia). O André bem tranquilão, só de cueca diante do computador.

Eram 21h38 quando o André falava ao telefone com a Raquel, que estava ainda saindo de sua casa, em São José dos Pinhais. Eu moro nas Mercês, e avisei o André que então não daria pra esperar. Às 21h39, tive uma contração muito forte e me agachei em frente ao meu sofá. Minha lombar doía muito, pedi ao André que massageasse, mas ele massageou com tanta força que senti mais dor ainda, e eu gritei pra ele sair dali e colocar uma roupa (sim, ele continuava de cueca). Minha mãe engrossou o coro de “VAI COLOCAR UMA ROUPA” e assumiu o posto da massagem (com mais delicadeza). Naquela contração intensa, minha bolsa rompeu e eu gritei para avisar o André, que, por sua vez, avisou a Raquel. Eu mandei um áudio para o Dr. Álvaro, avisando que estava com bolsa rota, muita dor, e indo para a maternidade.

 

O André se vestiu e colocou no ouvido os fones sem fio para seguir falando com a Raquel. Ela perguntou se eu conseguia andar. Com muita dificuldade e com a ajuda do André, fiquei de pé e tentei caminhar, mas era quase impossível. Dei uns dois passos em direção à porta e percebi que não havia a mínima chance de chegarmos em tempo na Maternidade Curitiba. Em instantes, analisei minhas alternativas, perguntando-me se daria tempo de chamar uma ambulância, ou talvez de chegar até o Hospital Nossa Senhora das Graças, que fica a duas quadras da minha casa (ideia que me apavorava, pois a médica que praticou violência obstétrica no meu primeiro parto é plantonista no Graças). Logo senti que outra contração forte estava vindo e concluí que não dava tempo de chegar nem no elevador. Não lembro exatamente das palavras que gritei para comunicar isso, mas minha mãe saiu correndo e voltou com muitas toalhas (só faltou trazer água quente para ser igual aos filmes! Alguém aí sabe para que eles usam a água quente nos partos domiciliares dos filmes? Até hoje não entendi).

 

O André me ajudou a me abaixar de novo, quase na porta de casa, enquanto eu dizia que o bebê já ia nascer. A Raquel orientava o André pelo telefone, enquanto seu marido dirigia nervoso e emocionado, ouvindo tudo no viva-voz do carro. Ela perguntou se o André conseguia ver alguma coisa, o cabelinho do bebê, sua cabeça. Ele respondeu que não estava vendo nada, e eu gritei (sim, eu fico bem agressiva em TP, aparentemente não consigo falar, só gritar):

 

– CLARO QUE VOCÊ NÃO TÁ VENDO NADA, EU TÔ DE CALCINHA, HOMEM!

– Tá bom, eu vou rasgar!

– Não precisa rasgar, vou ficar de quatro apoios e você abaixa.

– Tá bom, tô rasgando.

– NÃO PRECISA RASGAR, HOMEM, SÓ ABAIXA A CALCINHA!

– Pronto, rasguei desse lado, já vou rasgar do outro!

– NÃO PRECISA RAS…

– Pronto, pronto, já rasguei aqui também! Tô vendo o cabelinho dele!

 

Eu, revirando os olhos pensando na calcinha rasgada, senti que era a hora e gritei:

 

– Ele vai nascer! Segura meu neném! Não deixa ele cair!

– Eu vou segurar! Eu vou segurar!

 

A contração veio com tudo e a cabeça do Igor saiu. O André ia falando para a Raquel e ela dizendo para ele ficar calmo, que na próxima contração sairia o resto do corpinho e que era para ele me lembrar de respirar. Minha mãe à beira de um ataque cardíaco. O André berrava para ela:

 

– FICA CALMA, MARIA!

 

E para mim:

 

– RESPIRA! RESPIRA!

– EU TÔ RESPIRANDOOO!

 

Muito pouco tempo depois, avisei que ele estava vindo. Mais uma contração e o André o segurou nos braços. Minha mãe avisou que havia uma circular de cordão, que o André desenrolou antes de entregá-lo para mim. Eu continuava sentindo a mesma pressão no períneo, e não conseguia sentar direito. Minha mãe sentou atrás de mim para eu apoiar minhas costas nela. Eu segurava o Igor e, inundada por uma onda gigantesca de ocitocina e adrenalina, sentia a mais absoluta certeza de que tudo ficaria bem. E tentava acalmar minha mãe e o André, que choravam e tremiam emocionados.

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Imagine como estavam as olheiras antes da maquiagem

O Igor tossiu e em seguida chorou, o que me tranquilizou ainda mais. O tônus muscular era evidente, ele estava todo durinho, segurando meu dedo com força em sua mãozinha. O corpinho coberto de vérnix, e um pouco de mecônio que certamente saiu apenas no momento em que ele nascia, porque quando minha bolsa rompeu (6 minutos antes), o líquido amniótico saiu cristalino. Sim, entre o rompimento da bolsa e o nascimento dele, passaram-se 6 minutos. Às 21h45 ele estava no meu colo, olhando para mim com olhinhos atentos, eu sentindo o cheirinho dele. Menos de 5 minutos depois, ele estava mamando no meu peito. Bônus: não fiz cocô durante o parto, o que teria sido especialmente chato de limpar no piso da minha sala. Decidimos esperar a Raquel chegar. Minha mãe ligou para o Dr. Álvaro:

 

– O bebê nasceu!

– Como assim? Nasceu onde?

– Na porta de casa! Não deu tempo de sair!

– Mas a Raquel tá aí, né?

– Não chegou ainda.

– E quem tá aí então???

– Eu e meu genro.

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Já nasceu sabendo mamar
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Ufa, minha mãe sobreviveu

O Dr. Álvaro avisou que nos esperaria na maternidade. Algum tempo depois, chegou a Raquel, que tantas vezes já fez o papel de “anja” no meu maternar e gestar, e agora virou também nossa coach de parto, orientando o André à distância e em tempo real. Ela examinou o Igor, confirmando que seu estado era perfeito. Em seguida, ajudou-me a vestir uma calcinha absorvente, deixando o cordão umbilical para cima (não clampeamos nem cortamos). Troquei de roupa e fomos para o carro dela. Seu marido nos levou para a maternidade. O Igor mamou o tempo todo, desde a minha casa, no elevador, no carro, até chegarmos na Curitiba, onde o Dr. Álvaro nos aguardava literalmente na porta, acompanhado de duas enfermeiras. Sentei numa cadeira de rodas e fomos para uma salinha onde eu fui examinada, o cordão foi clampeado e eu mesma o cortei. Após um tempo, dequitei a placenta, íntegra. Sem sofrimento, sem pressa. Tive duas lacerações e precisei levar pontos em uma delas, após a anestesia local. O André estava cuidando da burocracia do internamento, e a Raquel me emprestou sua mão para eu segurar (ou esmagar) nos momentos de dor.

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Minha anja Raquel, meu marido, amor e parteiro, André

A assistência do Dr. Álvaro, contrariando nossos planos, foi reduzida a esses cuidados após o parto, além da dica para relaxar em vez de me movimentar naquelas horas que o antecederam. Essa orientação se revelou perfeitamente acertada. Tenho certeza de que aquelas horas na piscina serviram para amenizar a dor das contrações enquanto a dilatação acontecia sem eu perceber. Não fosse pelo Dr. Álvaro, eu teria me dedicado a andar, subir e descer escadas, agachar e levantar, porque sempre ouvi sobre a importância do parto ativo, que os exercícios ajudam a induzir naturalmente e facilitar o trabalho de parto. Mas, de fato, na minha experiência anterior, eu passei mais de 24 horas me movimentando quase sem descanso, o que não apenas não facilitou, como possivelmente dificultou o parto, já que eu exauri minhas forças, e a dor das contrações intensas me acompanhou por um período excruciantemente longo. Ao indicar que eu relaxasse e poupasse minhas energias, ele mostrou uma sensibilidade de quem entende que cada gestante é única, cada trabalho de parto é diferente, e cada situação merece ser avaliada de forma individual. Não há uma receita padrão que funciona da mesma maneira para qualquer caso.

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Igor mamando e eu cortando o cordão, com a ajuda do Dr. Álvaro

O pediatra, Dr. Pelissari, examinou o Igor e o levou, acompanhado do André, para os procedimentos necessários. Não fizeram nada que não aceitássemos (como colírio de nitrato de prata ou aspiração nasal, por exemplo). Logo ele estava de volta ao meu colo. Fomos muito bem tratados por toda a equipe de médicos e enfermeiras da maternidade.

 

E foi assim que eu planejei um parto domiciliar e tive um hospitalar, planejei um parto hospitalar e tive um domiciliar. O universo segue me lembrando que não estou no controle, mas essa segunda experiência me libertou daquele peso injusto. Porque mais uma vez eu não fui transportada para a “partolândia”. Eu não me transformei em outra pessoa, não virei bicho, não fiquei doidona. Em vez disso, eu me maquiei, monitorei a frequência das minhas contrações, escrevi mensagens em linguagem bem concatenada, raciocinei até o último segundo. E tive um parto rápido, fácil e tranquilo. Natural, na melhor acepção da palavra. Meu segundo bebê foi recebido pelos braços amorosos do pai, mas eu sei que teria conseguido até mesmo sozinha, que teria escolhido uma posição em que pudesse segurá-lo e que, por maior que fosse o medo, eu saberia como agir. Provavelmente jamais saberei por que o meu primeiro parto demorou tanto, mas com certeza não foi por falta de entrega da minha parte. Saber me manter consciente no presente não significa que eu queira controlar o incontrolável. A prova disso é que eu não me frustro quando as coisas acontecem de um jeito totalmente diferente do que planejei. Eu só quero, em qualquer hipótese, ser respeitada.

 

Meu marido me agradeceu, emocionado, por ter proporcionado a ele a experiência mais incrível de sua vida. Não foi como planejamos, não foi o que esperávamos, mas foi perfeito. Parir no chão da minha sala, ao lado da porta, na presença das duas pessoas em quem mais confio no mundo, capazes de me respeitar, aceitar e amar mesmo quando eu só consigo falar gritando com elas, foi melhor do que qualquer cenário que eu poderia imaginar. E eu agradeço ao Igor por ter chegado desse jeito tão inesperado, mostrando sua intensa vontade de viver. A cada dia se revela mais um pouco esse traço marcante de sua personalidade: quando quer alguma coisa, meu sagitariano com lua em áries não gosta de esperar… E já deixou isso claro ao estrear nesse mundo.

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Vinte meses

Filhote,

Faz tempo que não escrevo para você. Os últimos dois meses não foram muito fáceis, meu amor. Mas agora eu estou me reencontrando e me sentindo mais forte para voltar a fazer algo que tanto amo, que é escrever. Hoje você está fazendo 20 meses de vida, e não vou enumerar todas as habilidades que conquistou, quantas palavras já sabe falar e quantos vocábulos você criou no idioma ivanês, porque não saber como se diz em português não é motivo para você encerrar a conversa.

O que quero hoje é contar outras coisas para você. A primeira é que não sou perfeita. Eu sei que por alguns anos você vai duvidar disso. Você pensa e vai continuar pensando por bastante tempo que sua mamãe sabe tudo. Depois, quando chegar à adolescência, vai ter momentos (espero que não seja o tempo todo) em que vai pensar que não sei nada. E bem mais lá na frente, vai compreender que sou só uma pessoa adulta procurando fazer o melhor que pode. Mas não nos adiantemos tanto.

Quero que você saiba que eu erro e me arrependo. Com você, com as outras pessoas e comigo mesma. Especialmente nos dias em que me encontro no limite do cansaço, é fácil escorregar, sabe? É importante você saber disso, filho, porque você vai errar e se arrepender bastante vezes também. Quero contar, e mostrar com o meu exemplo, que sempre é possível recomeçar, melhorar, fazer diferente. E não importa o que aconteça, sempre existirão pessoas para apoiar você, para lembrar que um erro não o define e para enxergar o seu valor. A começar pela mamãe.

Outra coisa que quero dizer é que, mesmo nos dias mais difíceis, eu continuo lembrando que ser sua mãe é a realização do meu maior sonho. A maternidade é uma responsabilidade tão grande, um trabalho que exige tanto! Se fosse qualquer outro emprego talvez eu pedisse demissão. Noites mal dormidas, desafios cada vez maiores para entreter, brincar, ensinar, manter você longe da TV ou iPad e ainda assim conseguir fazer a comida, ajeitar a casa. Lidar com as suas frustrações, encontrar formas de me comunicar com você sem violência quando você tem uma crise de raiva. Sobreviver a dias chuvosos sem poder ir lá fora. Suportar o horror que têm sido as mordidas me deixando coberta de hematomas desde que seus últimos molares começaram a nascer (a dentista disse que eles só viriam depois dos dois anos, mas seus dentinhos têm pressa!). Nesses dias você me viu chorar algumas vezes. De dor, de cansaço, de ressentimento.

Felizmente as recompensas desse trabalho também são as maiores que existem. Ver você crescer cada vez mais corajoso, explorador, inventando brincadeiras. Cada dia mais menino e menos bebê. Perceber o quanto você é carinhoso não só comigo, enchendo-me de carinhos e beijinhos ou dizendo “amomãe”, misturando amo com mamãe, mas também com as outras pessoas. Você é uma criança adorável. E o amor ameniza as dores, alivia o cansaço e dissipa o ressentimento. Todos os dias seu pai e eu ficamos alguns minutos falando sobre a sorte de ter você em nossas vidas, sobre como nossa família é a fonte em que renovamos nossas forças, é o que nos faz caminhar e faz tudo valer a pena. Há um ano e oito meses somos pessoas muito mais felizes porque você está aqui.

Meu periquito, pirulito, pililico. Um dia você vai detestar saber os apelidos bobos com que eu o chamava, e eu vou lembrar que meu colo era seu lugar favorito no mundo.

Amo você mais do que tudo, meu amorzinho!

Mamãe

Quem chora quer o quê?

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Você que tem filho, sabe quando você está muito triste ou frustrado(a) por algum motivo? Talvez tenha perdido o emprego, sofrido uma violência ou uma traição. Talvez tenha se decepcionado com alguém. Ou esteja nas profundezas do puerpério. Não importa a razão. Imagine que, diante da pessoa que você mais confia no mundo, cônjuge, parceiro(a), melhor amigo(a), talvez até sua mãe ou seu pai, você se permite chorar. O que você espera é acolhimento, certo?
 
Imagine então que essa pessoa, em quem você confia tão profundamente a ponto de expor toda a sua vulnerabilidade, reage assim:
 
– ISSO, MOSTRA PRA TODO MUNDO COMO VOCÊ É CHORÃO! OLHA LÁ, TÁ TODO MUNDO VENDO VOCÊ CHORAR!
 
Perceba. Por amor, por favor, não faça isso com seu filho. As razões pelas quais os bebês e as crianças choram podem parecer banais para pessoas maduras, mas são as razões deles! Ninguém no mundo gosta de (e nem merece) ser ridicularizado por seu sofrimento. Não resolve, não ensina a criança a lidar com sua frustração.
 
Eu sei que não é fácil suportar um choro estridente e incessante muitas vezes causado por uma coisa que, para nós, adultos, é absurda. Como o garotinho de um ano e pouco na praça que gritava porque sua mãe não queria deixá-lo se atirar no espelho d’água.
 
Precisamos compreender, porém, que dentro do arcabouço de experiências de uma criança pequena, o que é óbvio para nós, não é para ela. O bebê nem imagina que seja um problema se jogar na água num dia gelado. Não faz ideia da temperatura daquela água, nem da profundidade, tampouco lhe passa pela cabeça que esteja imunda. Não sabe que existem regras sociais que determinam que as pessoas não devem nadar na pracinha. Ele não entende a proibição e fica frustrado.
 
Conheço incontáveis adultos que não sabem lidar com suas próprias frustrações, reagindo de forma absolutamente inadequada a situações em que são contrariados – com impaciência, raiva, intolerância e até violência. Como então esperar uma reação madura de alguém que sequer entende o motivo do “não”, e que conta com vocabulário reduzido para se expressar?
 
A mensagem que se passa a uma criança reagindo ao seu choro com menosprezo é de que é feio e inaceitável expor seus sentimentos. E que é aceitável rir e fazer piada com o sofrimento alheio (já que a pessoa que mais amo no mundo faz isso comigo).
 
Se a criança é um menino, isso tudo costuma vir com uma carga ainda maior no sentido de que “homem não chora”. Gente, por favor. Precisamos no mundo de homens (independentemente de sua orientação sexual) com maturidade emocional. Bem resolvidos com seus sentimentos. Que não sintam sua masculinidade ameaçada por ter lágrimas nos olhos. Homem de verdade chora, SIM. Homem de verdade sente dor, medo, tristeza. Esconder sentimentos não torna ninguém mais homem.
 
Então, pai e mãe, acreditem em mim, eu sei que nem sempre é fácil ser a pessoa adulta na relação, mas sejamos. Há momentos (MUITOS) em que a paciência quase se esgota. Nem sempre é fácil segurar o grito na garganta ou deixar de repetir os padrões da nossa criação. Mas façamos um esforço. Não vamos rir da frustração de nossos pequenos. Não zombemos de sua vulnerabilidade. Acolhamos o sentimento deles. Digamos: “eu sei que você está triste/frustrado por não poder fazer isso. Podemos fazer outra coisa”. Abracemos. Assim, com a autoestima fortalecida, será mais fácil, para eles, lidar com as frustrações no futuro.
 
A propósito, quando a mãe do menino na pracinha disse a ele “olha lá, seu amigo tá vendo como você é chorão’, meu filho de 14 meses se aproximou dele e, sem que ninguém lhe dissesse nada, fez um carinho em sua cabeça. Eu respirei aliviada. Sim, é isso que ele tem aprendido comigo e com o pai dele: quem está chorando precisa de um carinho.

Entretenimento infantil durante o voo e trechos terrestres

Essa será a primeira vez que o Ivan viajará de avião. E de trem. E de ônibus. Entreter um bebê em viagens de carro já não foi moleza. Mas agora lidamos com um toddler que quer andar o tempo todo, e em meios de transporte coletivo a maior preocupação é tentar não incomodar (muito) os outros passageiros.
Então essas são as ideias que tenho até o momento para tentar tornar a viagem o mais tranquila possível:

  1. Dormir. Como mencionei no post anterior, nossos voos principais e mais longos são noturnos. Os trechos terrestres longos também programamos para fazer à noite. Eu realmente acredito que o Ivan vai dormir nesses trechos. Ele costuma dormir bem à noite, ainda que acorde de vez em quando para mamar. 
  2. Mamar. Várias mães dão essa dica: amamentar durante a decolagem e o pouso minimiza os desconfortos causados pela pressão nos ouvidos. 
  3. Comer. No carro, quando o Ivan está entediado, biscoitinhos de arroz ou de polvilho e uvas passas costumam deixá-lo mais tranquilo.
  4. Música. Outra coisa que o acalma bastante. Já tenho os álbuns preferidos dele salvos para tocar off-line no Spotify.
  5. Livrinhos. Ocupam pouco espaço, mas também o entretêm por pouco tempo.
  6. Brinquedos. Algumas mães sugerem levar brinquedos novos (os antigos já não fazem sucesso). Mas essa opção não me agrada muito porque: a) muita coisa para carregar, b) as novidades deixam de ser novidades muito rapidamente; c) são raros os brinquedos que sirvam para entreter uma criança da idade do Ivan (um ano e dois meses) sentadinho no meu colo. Vou levar uma coisinha ou outra, mas não confio que vá funcionar por muito tempo.
  7. Vídeos e joguinhos no celular ou tablet. Não sei se o voo que pegaremos terá boas opções de entretenimento individuais, mas prefiro nem contar com isso (até porque não é qualquer desenho animado que ele gosta). Vou levar os preferidos baixados para ver off-line (há algumas opções que ele gosta na Netflix, e outros baixei o aplicativo, como Palavra Cantada e Bita). Não está entre as primeiras opções não só porque gosto de limitar o tempões exposição dele a telas, mas principalmente por serem trechos noturnos, e acho que ficar vendo desenhos animados pode interferir negativamente no sono. Mas pode ser uma boa para quando ele acordar de manhã, e para viagens curtas de trem que serão feitas durante o dia.

Editando para colocar dicas da minha amiga Aline que eu tinha esquecido e achei ótimas:

– Papel, giz de cera, carimbo e adesivos autocolantes! 

Você já viajou com bebês ou crianças e tem alguma dica que eu não coloquei na lista? Conte pra mim nos comentários! 

Primeiro passo: escolha e compra das passagens

Sempre que possível, nós resgatamos nossas passagens com pontos do nosso programa de milhagens. Mas, dessa vez, não tínhamos pontos bastantes para isso.
Pesquisamos, então, pelo Skyscanner, dando prioridade a: 

  • Voos noturnos, pois acreditamos que será mais fácil o Ivan dormir e não termos tanta dificuldade para entretê-lo;
  • Mínimo de escalas e conexões possíveis;
  • Preço baixo.

Ocorre que, embora o Skyscanner seja o nosso buscador de passagens favorito, não é ele quem efetivamente vende as passagens. No caso, os bilhetes que mais se encaixaram nos critérios acima eram vendidos pela eDreams. Encontramos muitas reclamações dessa agência (cancelamentos, venda de passagens que já não existiam e overbooking) e preferimos não nos arriscar.

Entramos em contato diretamente com a companhia aérea e compramos as passagens por um preço apenas um pouco superior ao oferecido pela eDreams. Nossos voos de ida e volta contam com conexões no Rio de Janeiro e em Roma. A de Roma, na ida, é bem longa (7 horas). Se chegarmos na hora e a passagem pela imigração for bem rapidinha, talvez deixemos nossas bagagens no locker do Terminal 3 para ir dar uma olhadinha no Coliseu. =)

No próximo post vou falar dos planos de entretenimento para o Ivan no avião. 

Planejando a primeira grande viagem com o bebê

Essas tags de mala feitas à mão (por mim, minha mãe e meu marido) foram as lembrancinhas da festa de um ano do Ivan. E finalmente as nossas serão usadas!

Viajar é uma das coisas que mais amo na vida. Há quase 9 anos conheci o melhor parceiro de viagem, e tem sido uma alegria imensa conhecer o mundo aos pouquinhos com ele. Marido e eu nos entendemos perfeitamente, gostamos dos mesmos programas, somos igualmente animados a conhecer destinos diferentes, aproveitar bem os dias, experimentar comidas e programas locais. Juntos estabelecemos o que chamamos de lema da família Guerra: FAZER VALER. Tiramos o melhor de qualquer experiência, desde um jantar mais caro do que o previsto até uma dica super furada de derviches dançantes.

Desde que chegou o mais novo integrante da família, já começamos a imaginar como seria mostrar o mundo a ele, e também conhecer o mundo através de seus olhinhos. Mudar o ritmo para acomodar suas necessidades, incluir programas legais para ele, cuidar de seu conforto, sua alimentação, seu soninho. Fizemos já algumas pequenas viagens: usamos dois dias para conhecer Carambeí e Castrolanda, duas cidadezinhas próximas daqui; fizemos um bate-volta para a Lapa; visitamos chácaras ao redor de Curitiba; passamos uma semana numa prainha privativa em Governador Celso Ramos-SC.

Agora, o papai conseguiu negociar com seu chefe maravilhosas férias de 30 dias para fazermos uma viagem incrível. A mais longa que já fizemos. No meu antigo trabalho, não podia tirar mais do que 15 dias de férias de cada vez, e isso nos limitava bastante – não rolava ir para lugares muito distantes, que tomariam muito tempo no percurso, nem comprar passagens mais caras para ficar tão pouco tempo no destino. Um mês viajando já dá pra brincar, né?

Pensamos em várias das nossas viagens dos sonhos (já realizamos algumas e, felizmente, sempre surgem novos sonhos para ocupar esse lugar). O André quer muito conhecer a Alemanha, e então eu pensei nela como porta de entrada para o leste europeu (também chamado, talvez de forma geograficamente mais correta, de Europa Central), que sempre sonhei conhecer.

Simulei alguns roteiros incluindo as cidades mais populares da região, Praga, Viena e Budapeste. Mas eu queria a qualquer custo incluir Lviv, na Ucrânia, porque tenho familiares lá que ainda não conheço. O roteiro ficou meio quebrado, e acabamos optando por algo fora do comum: começaremos em Berlim, faremos um pit stop em Dresden, de onde seguiremos para Wroclaw (também conhecida como Breslávia), na Polônia. Ainda no mesmo país, visitaremos a Cracóvia. Pensei também em Varsóvia, mas acabei optando por não fazer esse desvio ao norte. Da Cracóvia, partiremos para Ivano-Frankivsk, cidadezinha no sudoeste da Ucrânia onde tenho parentes, frutos do primeiro casamento do meu avô materno, antes de migrar para o Brasil. Em seguida, a bela Lviv, conhecida como a Paris do leste europeu, onde vive o restante da minha família ucraniana. Depois, Kiev. E, finalmente, Moscou. Da capital russa, voltaremos.

Eu quero compartilhar os detalhes dessa aventura, mas confesso que não tem sido fácil, pois tenho um mocinho que não desgruda do meu pé, e usar o computador na presença dele é um desafio enorme. Depois que ele dorme é que consigo organizar o roteiro, pesquisar sobre as cidades, comprar ingressos, passagens de trem etc. E às vezes também preciso dormir. Mas farei o possível para dividir com vocês o planejamento e execução da viagem! 🙂

Um ano

Filhote,
Então você fez um ano. Há algumas semanas eu vinha me preparando para essa data, sem saber ao certo as emoções que ela me traria. Lembrar do seu nascimento me causa um misto de sensações. Quero ser sempre honesta com você e, para isso, devo reconhecer que o dia do seu nascimento envolveu dor, sofrimento, medo. Mas foi também o dia em que recebi o maior presente da minha vida, a felicidade de ser sua mãe.
Decidi que faria uma festa muito linda para celebrar o seu primeiro ano, porque esses 12 meses com você foram incríveis e merecem ser comemorados. Decidi que 21/05 será sempre um dia de muita alegria na nossa família. O planejamento e a concretização da sua festa tomaram todo o tempo e a energia de que eu dispunha, e nem deu para ficar triste lembrando da parte não tão legal desse dia. Quando vi, já estava na hora de cantar parabéns pra você. 
E como valeu a pena, meu anjo! Ver você curtir a festinha que preparei com todo amor, cercado de pessoas que o amam. A lição que você me ensina a cada dia é que o tempo passa muito rápido, e por isso eu preciso dar sempre mais atenção às coisas boas e aos momentos felizes.
Agora você entrou numa nova fase, e eu continuo amando acompanhar cada passo do seu desenvolvimento. Já sabe andar, bater palminhas, dar tchau, dançar, fazer não com a cabeça, tomar água com canudinho, fazer high five, cantar no ritmo da música. 
Continua amando esmagar a Samantha, mamar (que grande vitória chegarmos a um ano de amamentação depois de todas as dificuldades que tivemos), dormir no sling, tomar banho de chuveiro no colinho, Palavra Cantada, nadar na piscina, aula de música, instrumentos musicais, cozinhar um papá imaginário nas suas panelinhas, encaixar peças nos brinquedos de montar, brincar de esconder.
Sabe falar mamãe, mamá, gata, dadá, papá, ábua, banana, batata, au-au, vovó, nossa, opa e repete outras coisas que mamãe diz. Tem 8 dentinhos e um nascendo. Tem dias em que come pouco, e outros em que não sei pra onde vai tanta comida. Dorme ainda com a mamãe e o papai, e nós três amamos isso.
Parabéns pelo seu primeiro aninho, meu amor. Grata por fazer a minha vida tão feliz.
Amo você! 
Mamãe

Suicídio não tem graca, depressão não é piada

Aqui em casa meu filho vai aprender que:

– chinelo serve para calçar;

– cinta serve para segurar as calças;

– a palma da minha mão serve para várias coisas, mas agredi-lo não é uma delas.
Meu filho vai aprender que, não importa o momento da vida que ele esteja passando, ele sempre vai encontrar em mim e no pai dele ouvidos atentos aos seus problemas. Que ele sempre pode contar conosco. Que a colaboração nos afazeres da casa é tarefa de todos que vivem nela, mas que aqui não achamos que depressão e ansiedade são falta de “ter a pia” cheia de louça pra lavar. 
Vocês que estão fazendo piada e compartilhando o “desafio da preguiça azul” ou “desafio da havaiana azul”, insinuando que adolescentes capazes de se automutilar e até se suicidar são desocupados e merecem apanhar, apenas se perguntem se é a vocês que seus filhos recorrerão num momento de dificuldade. Apenas imaginem se, menosprezando os adolescentes e seus conflitos psicológicos (e eventuais transtornos), vocês serão o porto seguro deles. Ou se eles irão buscar apoio em outros adolescentes ainda mais desorientados. Se você acha que esses adolescentes estão só querendo atenção, ué, e quem no mundo não está? Quem não precisa de atenção, amor e cuidado? De onde vem essa ideia deturpada de que, quando alguém pede atenção, devemos virar as costas ou reagir com violência?
Como diz a minha mãe, filho não se perde na rua, mas sim dentro de casa. Perde-se na falta de diálogo, de atenção, de cuidado.
Em vez de ficar compartilhando piada sem graça ou alertando sobre o perigo de as crianças aceitarem balas de estranhos (a grande novidade de 1985), olhemos com atenção para os nossos filhos, para as crianças e jovens do nosso convívio. Sejamos seus confidentes, ofereçamos apoio livre de julgamentos, façamos que saibam que não estão sozinhos. 
A quem precisar de alguém que lhe ouça: EU ESTOU AQUI.
(Esse texto foi originalmente publicado por Oksana Guerra em seu perfil pessoal no Facebook em 19/04/2017, bem como na página Mama Neném em 20/04/2017)

9 meses

Filho,
Você foi concebido no dia 21/08/2015. Exatamente 9 meses depois, você veio ao mundo, em 21/05/2016. E hoje faz 9 meses que eu amo você do lado de fora do meu ventre. 
Esse mês foi especial. Entre outras coisas, você conheceu (e adorou) o mar! Passamos férias deliciosas com seu pai e sua vovó Maria. Você descobriu a textura (e o sabor) da areia. Brincou na piscina, aprendeu a subir escada, comeu mais do que nunca e se divertiu muito! 
Também começou a natação. A primeira aulinha foi meio tensa, você não curtiu o mergulho. Mas na segunda já se soltou e se divertiu muito, mesmo mergulhando! O coração da mamãe ficou mais tranquilo! Começou ainda a aulinha de musicalização para bebês, que é pura alegria. Ao chegar em casa depois da primeira aula, deslanchou a tocar seu pianinho como nunca antes. O papai já achou que compensou o investimento, hahaha!
Agora está bem mais fácil nos comunicarmos, meu amor! Você já sabe expressar com gestos e sons quando quer algo, e também quando não quer. Para o que está fazendo quando escuta a palavra “não”. Guarda objetos dentro de recipientes (adora caixas), abre e fecha as portas e gavetas, tira as coisas de dentro dos armários. Transforma várias coisas em instrumentos de percussão (o baldinho virado, caixas, prateleiras), batendo com as mãos ou com baquetas improvisadas. 
Desce do sofá bonitinho, sem ser de cabeça. Anda pela casa se apoiando nos móveis, dá tchau, bate palmas, manda beijos. Combina sílabas em sons que parecem palavras. Fica em pé sem apoio por alguns segundos e se agacha em seguida. Finge que vai mamar e aí faz “prrrr” assoprando o meu peito. 
Aprendeu a miar imitando a Samantha. Faz carinho na mamãe, no papai, na Sam, na vovó e em amiguinhos mais novos. E quando faz carinho, afina a sua voz dizendo “hmmm” como a gente faz com você. Lança olhares cheios de doçura. Encontra posições para dormir totalmente espalhado em cima de mim, para tentar evitar que eu saia da cama após você adormecer. 
São várias descobertas diárias e eu não consigo listar todas, mas gosto de escrever aquelas de que me lembro, para você ler um dia. E para eu ler nos próximos anos, quando já não recordar desses detalhes tão gostosos do seu desenvolvimento. 
Ah! Hoje pela primeira vez você comeu com a gente o bolo do seu mesversário, feito por mim com muito amor, com farinha de trigo integral, sem açúcar e sem leite. Você adorou!
Amo ser sua mãe, amo crescer com você. Amo ver o mundo pelos seus olhinhos. Amo você mais do que tudo! ❤
Feliz mesversário, meu amor!
Mamain

Oito meses

Filhote, parabéns por mais um mês de vida. Hoje faz oito meses que você está aqui, nos fazendo mais felizes a cada dia.

Agora você já bate palmas, dá tchau e piscadinhas sedutoras. Explora todos os cantinhos da casa, abre portas, gavetas, travas. Sobe na cama, escala nos móveis, anda sozinho se apoiando neles. Os tombos ainda são frequentes, mas cada vez você aprende melhor o jeito de cair sem se machucar. Experimenta soltar as mãozinhas e fica alguns segundos em pé. Fica de joelhos e de cócoras. É também um bebê dançarino. Ah, e canta muito.

Dá abraço, beija e faz carinho. Mas também dá tapas e mordidas. Já tem 6 dentes, e eles já fizeram mamãe chorar de dor algumas vezes.

É uma delícia ver você brincar com a Samantha, jogando um brinquedo para ela e gargalhando com as reações da gata. Adora jogar bola e engatinhar atrás dela pela casa toda. A máquina de escrever da mamãe é outro brinquedo que faz muito sucesso. Termina o dia com as perninhas e pés encardidos, e faz bastante bagunça na banheira.

Continua aceitando bem novos alimentos, anda tentando usar a colher sozinho para pegar comida e levar à boca, e oferece o que estiver comendo para quem está perto. A primeira vez que fez isso foi no mês passado, quando colocou um brócolis na cara do chefe do papai na festa de fim de ano da empresa. De lá para cá esse altruísmo se intensificou: até os brinquedos babados você quer que a gente também experimente, tira da sua boca e coloca na nossa. Sabe expressar perfeitamente quando quer mais comida (faz um “hummm” nervoso e característico enquanto bate com as mãozinhas na bandeja).

Já faz tempo que balbucia, mas hoje num momento em que me afastei você veio engatinhando atrás de mim e eu e seu papai ouvimos você dizer certinho “mamain”!

Filho, já nem sei mais enumerar suas habilidades. São várias novas toda semana, conquistadas em saltos de desenvolvimento que nos proporcionam noites agitadas e dias cheios de emoção.

Você é um menino lindo, inteligente e muito carinhoso! Seu jeito doce nos faz transbordar de amor. Não há nada mais emocionante que o seu rostinho se iluminando ao me ver! Sua alegria ao ver o papai chegar! Agradeço todos os dias à natureza por ter me abençoado com a graça de ser sua mãe!

Amo você!
Mamain

Texto de autoria de Oksana Guerra, originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 21/01/2017.