O pesto e a memória

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Dia desses fui à feira. Uma das barracas tinha temperos frescos, cujo perfume tornava quase impossível passar por ali e resistir à vontade de escolher com o nariz qual deles levar. Comprei dois maços de manjericão italiano: a espécie com folhas grandes, de cor e aroma intensos. Uma amiga escreveu há poucos dias que fez um pesto com o manjericão que planta em casa, contando sobre a relação desse cheiro com sua infância como neta de uma nonna italiana.
 
Eu não tenho ascendência italiana, o que é uma lástima. Eu adoraria que essa culinária tão rica fizesse parte de minha memória afetiva. A primeira vez que experimentei um pesto foi já na adolescência, na casa de uma amiga. Fizemos um macarrão e ela abriu o vidro que tinha na geladeira, espalhando o molho sobre a massa. Eu ainda iria conhecer outros bem melhores do que aquele comprado pronto, mas de qualquer forma o primeiro encontro de minhas papilas gustativas com esse sabor foi inesquecível.
 
Minha amiga e eu acabamos nos afastando. Não, não teve nada a ver com o pesto. Quando comemos juntas aquela massa no fim de um dos muitos sábados em que eu dormi em sua casa, eu não imaginava que isso fosse possível. Eu não me via sem ela. Um dia, não sei por que, ingenuamente perguntei a ela se seríamos amigas para sempre. Ela respondeu que não sabia, pois as pessoas mudam e seguem rumos diferentes na vida. Talvez ela estivesse apenas sendo madura demais para uma pessoa de dezessete anos. Mas eu entendi como uma mensagem. Senti uma dor difícil de explicar. Naquela época eu já sabia como era gostar de alguém – romanticamente – e não ser correspondida, mas levar o fora de uma amiga, de uma melhor amiga, foi uma experiência muito mais angustiante. E eu não tinha nem para quem contar isso, já que era ela própria a minha confidente. Na iminência de ser deixada por minha amiga, tomei eu mesma a iniciativa e dei a ela o espaço que entendi que ela me pedia. Continuávamos conversando normalmente quando nos encontrávamos, mas ela deixou de ser a minha pessoa. Não voltei a dormir em sua casa, passar horas com ela ao telefone, dizer-lhe meus segredos. Depois de um tempo, perdemos o contato.
Quando a reencontrei, muitos anos mais tarde, eu me perguntei quem eu seria se tivesse permanecido à sombra daquela relação que significava tanto para mim. Há pouco tempo, percebi que esse foi um padrão que repeti em vários relacionamentos: quando sentia que minha presença já não era tão desejada, eu me afastava. É provável que eu tenha me equivocado em alguns casos, e uma conversa honesta poderia ter sido melhor que sumir da vida das pessoas. Mas o medo da rejeição decidiu por mim.
 
Ontem eu fiz o meu pesto. Com certeza não se compara à receita de uma nonna italiana original. E o aroma não me traz lembranças felizes do passado. Mas meu marido e meu filho estão encantados com o sabor do molho. Assim como eu, que não consigo deixar de me alegrar quando abro um dos vidros e o cheiro de manjericão se espalha pela cozinha. É um cheiro de comida feita com amor, para alimentar as pessoas que amo.
 
Imagino meu menino, quando crescido, passando pela barraca de temperos na feira. Ele escolhe um maço de folhas largas e bem verdes, porque o aroma o remete à cozinha da mãe. O meu pesto lança afetuosas memórias olfativas ao futuro. 
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