2016: uma retrospectiva para Ivan


Filho amado,

Está chegando ao fim o ano em que você nasceu. 2016 tem muitos críticos, mas não se assuste, meu amor: minha memória é boa o suficiente para lembrar que, no ano passado, quando você morava ainda na minha barriga, muitas pessoas clamavam “acaba logo, 2015”, e o mesmo aconteceu com os anos antecedentes.

E não será diferente com 2017. Eu sei que é estranho, filho, mas as pessoas conservam a crença de que a vida nesse planeta não está difícil por causa delas próprias, mas sim por culpa de uma folha no calendário.

Para mim, essa fatia de tempo que chamamos de 2016 ficará para sempre marcada como o ano em que tudo mudou porque você chegou.

Comecei o ano repleta de expectativas. Seu pai e eu viajamos, saímos muito, registramos em fotografias o crescimento da minha barriga. Ele me acompanhou às consultas médicas, exames e se emocionou sempre que sua imagem apareceu no ultrassom. Choramos juntos de alegria ao ouvir seu coração pela primeira vez.

Passei por momentos estressantes no trabalho. Com você morando em mim e os hormônios trabalhando intensamente, foi mais difícil que nunca ter que tolerar indelicadezas gratuitas. Várias vezes eu me escondia no banheiro para chorar, e achava que não ia suportar até o início da minha licença.

Eu me preparei muito para receber você, mas confesso que romantizei um tanto sua chegada. Cometi o erro de acreditar que, por ter planejado muito, estava tudo sob o meu controle. Mas nada estava. Descobri isso da pior forma, e conheci a maior dor do mundo: ver você sofrer.

Conhecemos de muito perto a maldade humana e o despreparo de uma profissional que jamais deveria trabalhar com pessoas, muito menos com mulheres em trabalho de parto. Fui abandonada, num momento de intensa dificuldade, por pessoas em quem confiei demais. Senti o maior medo que uma mãe pode sentir, o de perder um filho. Enfrentei com você a UTI, o julgamento, a culpa. Suportei dores terríveis para passar horas ao seu lado, sem cansar. Quis morrer cada vez que espetavam uma agulha em você. Tive vontade de tirá-lo da incubadora e correr com você nos braços até a nossa casa.

Os primeiros meses não foram fáceis. O puerpério foi sombrio. Minha confiança estava dilacerada e eu não conseguia ouvir a minha intuição. Tinha muito medo de errar, de falhar de novo com você. Cedi a conselhos equivocados e isso quase nos custou a sua amamentação. Lutei de forma ferrenha, empenhei todos os meus esforços porque eu não ia perder mais essa batalha. Vencemos!

Depois do seu terceiro mês, tudo mudou. A cada dia foi ficando mais fácil. Ou não. Os desafios continuaram, mas eu fiquei mais forte. Reencontrei a confiança perdida. Voltei a olhar no espelho e ver a mulher que você merece como mãe.

E é com muita alegria que tenho acompanhado o seu desenvolvimento. Como digo sempre no seu ouvido: você é muito amado, é lindo, inteligente, esperto, amoroso, carinhoso, corajoso, você é uma pessoa do bem. Traz luz no seu sorriso e paz no seu olhar. Você é especial.

Filho, sou grata a você por ter me ensinado mais sobre o amor nesse ano da sua chegada do que eu aprendi em toda minha vida. Meu amor por você é tão grande que transborda esse eixo mãe-filho: sobra muito para sentir por mim mesma, por seu pai, por sua avó e todos os nossos antepassados. Pelos amigos, pelas mulheres maravilhosas que formam uma rede de apoio fantástica. Sobra amor para dividir com todas as pessoas que estão por aqui desde sempre e com as que entraram em nossa vida nesse ano.

No mundo lá fora aconteceu um montão de coisas ruins. Golpes, guerras, crimes, muita maldade. Em alguns dias temos a impressão de que o mal está vencendo. Mas aqui dentro, graças a você, eu renovo minha fé no bem. Você é uma semente dele, meu amor. Você e seus amiguinhos, crianças amadas que estão sendo criadas de um jeito diferente, com amor e respeito, com potencial para trazer a esse mundo um pouco mais de luz.

Com você por aqui, só posso agradecer por esse ano em nossas vidas, e tenho certeza de que 2017 será um ano ainda mais incrível para nós.

Amo você, filhote!

Mamãe

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Projeto 365 dias: dia 19 – Pequenas grandes coisas

Quando decidimos morar juntos, meu marido e eu compramos uma casinha simples, numa região bem afastada do centro de Curitiba – onde nós dois trabalhávamos. Era a opção que cabia no nosso bolso.

Durante quase cinco anos, tivemos que dirigir no mínimo 40 km por dia, para ir ao trabalho e voltar. Não havia comércio perto de casa que ficasse aberto até tarde, e só umas duas pizzarias tinham serviço de entrega na região. O transporte público era péssimo, com poucos ônibus, que faziam um percurso longuíssimo e demorado. Quando queríamos sair à noite, fazer um curso ou praticar alguma atividade física, era necessário planejar com antecedência, levar roupas, ir direto do trabalho, e chegar bem tarde em casa. Não havia condições de ir para casa, tomar um banho e depois sair de novo.

Em julho de 2014, mudamo-nos para um apartamento no centro de Curitiba, a quatro quadras do meu trabalho. Podemos dormir até mais tarde, temos diversas opções de lazer, delivery de culinárias variadas, vamos a pé para muitos lugares, eu pude vender meu carro. Nossa qualidade de vida aumentou significativamente.

O interessante é que, embora não tenhamos saudades de viver na nossa casinha, nem pensemos em voltar a morar nela, a vida lá nunca foi um sofrimento para nós. Nem mesmo o fato de eu ter me envolvido em dois acidentes graves na BR que pegava todos os dias foi motivo de trauma para mim. Foi triste e assustador, é claro, mas meu espírito – e o do meu marido também – é dotado de uma capacidade de regeneração muito grande.

À noite, depois do trabalho e de todas as demais atividades, chegávamos ao nosso lar cansados, porém felizes. Olhávamos à nossa volta e, mesmo com o pensamento voltado ao que ainda tínhamos para conquistar, nosso coração se alegrava com o que já era nosso. Nosso espaço, nosso cantinho, nosso conforto. Da nossa janela, não era possível ver muito longe, mas apreciávamos as flores brotando no jardim, as cores no pedaço de céu que era nosso.

No novo lar, descobrimos outras alegrias. Temos uma gata, que materializa tudo que eu sempre sonhei num animal de estimação: é companheira, carinhosa, adora colo (estou me virando para digitar com ela deitada sobre mim agora), dorminhoca. Temos mais espaço para receber os amigos, e estamos mais próximos deles também.

E uma coisa incrível que ganhamos foi a vista. É incrível a sensação de paz que enxergar o horizonte proporciona. De vez em quando, ao acordar, fico alguns minutos na janela observando o mundo, antes de decidir o que vou vestir. Hoje fiz isso ao chegar do trabalho. É quase uma forma de meditação.

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Ser feliz, muitas vezes, não exige mais do que isso: valorizar a vida que se leva. E isso não significa dar às coisas – boas ou ruins – importância maior do que elas têm. Não significa se apegar excessivamente. Hoje estou aqui, amanhã já não sei. Mas enquanto estiver, quero apreciar cada minuto que eu puder.

Sobre a ostentação e a inveja

Muitos textos, vídeos e campanhas já foram feitos para denunciar a “falsa felicidade” de usuários das redes sociais. Alguns de meus amigos parecem tão incomodados com o tópico que só se manifestam no Facebook para compartilhar algo nesse sentido. Como se quisessem esfregar na cara dos outros: “eu sei que vocês não são tão felizes como parecem”. Talvez não sejamos mesmo, mas hoje eu quero falar do outro lado disso.

Invidia, afresco de Giotto na Cappela dos Scrovegni, em Pádua. A serpente da inveja atinge o invejoso e não o invejado.
Invidia, afresco de Giotto na Cappela dos Scrovegni, em Pádua.
A serpente da inveja atinge o invejoso e não o invejado.

Porque é que essa felicidade – verdadeira ou não – incomoda tanto algumas pessoas? Eu não sei se todos que expõem retratos de felicidade diária na internet são felizes de verdade, mas eu torço para que sejam! Não sou fiscal da vida alheia para saber se as pessoas têm o direito de ostentar o título de felizes ou se deveriam ser banidas da rede social por essa imperdoável falsidade.

O motivo oculto nas manifestações de repúdio à ostentação muitas vezes é a inveja. Ela fica subentendida, como uma tranquilizadora mensagem subliminar que diz: “calma, não precisa odiar seus amigos, no fundo eles não são tão felizes como parecem”. A inveja nunca pode ser tratada abertamente, porque, de todos os sete pecados capitais, ela é o único que, aparentemente, ninguém sente. Muita gente se considera alvo de inveja, mas nunca conheci alguém que se reconhecesse invejoso.

Então, em vez de aprender a lidar com a inveja (que, claro, ninguém sente), criam-se campanhas na esperança de ensinar as pessoas a serem mais verdadeiras, ou seja, a pararem de expor essa felicidade tão falsificada, porque certamente ninguém pode ser tão feliz assim. Ou pode?

Quando vejo alguém postar que está num relacionamento sério, que está grávida, que o bebê nasceu, que mudou de casa, de cidade ou de país, que concluiu o mestrado com sucesso, que abriu o próprio negócio, que está de férias, que viajou de novo, que agradece a Deus pela graça alcançada, que está emagrecendo com saúde, que vai casar, que encontrou o amor, que adotou um gato, que ama o próprio trabalho, que adora ir pra academia domingo de manhã, que está jantando no restaurante estrelado da moda, que está se sentindo o máximo com o novo corte de cabelo, que está morando no paraíso, que a festa de ontem foi incrível, que terminou a maratona num tempo excelente, que é super apaixonada pelo marido, que está indo velejar, que tem o filho mais fofo do mundo, que está curtindo uma tarde de sol no parque ou que colheu tomatinhos da própria horta, eu não fico cogitando se aquela pequena ou grande felicidade é verdadeira ou não. Porque simplesmente não me diz respeito. E eu gosto de ver gente feliz. Porque gente feliz não enche o saco.

Pode até ser que a pessoa que postou “chuvinha gostosa para uma soneca” estivesse na verdade pensando “bosta de clima que acabou com meus planos de praia”. Mas e daí? Quem sabe ela esteja tentando ver o lado positivo da vida. Ou quem sabe queira parecer tão feliz quanto o ex parece estar, quando ambos na verdade estão profundamente infelizes. Pode ser, quem sabe? Eu espero que estejam felizes, ou que fiquem um dia, e se estiverem sendo falsos, isso não me afeta em nada.

É claro que eu tenho consciência de que as pessoas não são 100% alegres e contentes o tempo todo. Sei que, assim como eu, todo mundo enfrenta momentos de tristeza, de tédio, de insatisfação, mesmo que não os exponha nas redes sociais. Acredito que basta estar ciente dessa realidade para que o sucesso dos outros não crie em mim a ilusão de que minha vida não é tão legal quanto a deles.

Não estou dizendo que não é ridículo alguém criar um universo mágico e colorido no Facebook quando sua vida real está desabando. Mas não tenho como calçar os sapatos de quem faz isso para entender seus motivos. Quando vejo duas pessoas modificarem seus status de relacionamento para “solteiro” poucas semanas depois de trocarem juras de amor eterno na rede social, não tenho como saber se, antes, estavam apenas fingindo, ou se aquilo foi uma última tentativa desesperada de salvar um relacionamento. Na pior das hipóteses, as pessoas que fingem ser felizes merecem pena, e não raiva (e menos ainda inveja).

Se a felicidade alheia – falsa ou verdadeira – incomoda ao ponto de fazer você querer sair das redes sociais ou passar seu tempo dando indiretas para que as pessoas parem de ser exibicionistas, pense se o problema está realmente nelas (ou só nelas). Em vez de exigir dos outros que parem de se exibir, talvez seja o caso de lidar com a sua própria frustração. Talvez o tempo gasto criticando a ostentação alheia possa ser melhor empregado valorizando mais as coisas boas na sua própria vida. Até porque a única coisa mais patética que ostentar uma falsa felicidade é invejá-la.

Sobre a obrigação de realizar todos os sonhos da sua vida ainda hoje

Não é novidade o processo histórico e as circunstâncias que moldaram as gerações conhecidas como dos veteranos, dos baby boomers, x, y, z e sopa de letrinhas. E a não ser que você tenha vivido entre os lobos ou isolado numa caverna nos últimos anos, certamente deve ter notado a proliferação da propaganda da felicidade.

Campanhas publicitárias, artigos, crônicas, livros de autoajuda, blogs e postagens simpáticas no Facebook ordenam o tempo todo: seja feliz! Largue seu emprego! Faça um ano sabático! Seja o que você quer ser! Realize seus sonhos! Não fique parado, você não é uma árvore! Vá à luta! Chute o balde! Não ligue para o que pensam! Nem para o que dizem! Seja você mesmo! Mas seja mais legal do que você é! E ninguém precisa dizer, porque você já entendeu: todos esses comandos trazem implícita a palavra AGORA.

Miscelânea de frase encorajadoras da internet (se você é dono de uma dessas imagens e não quer vê-la aqui, apenas solicite que eu a removerei)
Miscelânea de frase encorajadoras da internet (se você é dono de uma dessas imagens e não quer vê-la aqui, apenas solicite que eu a removerei)

E você fica aí, frustrado, sentindo que é a única pessoa medrosa que ainda não largou a sua jornada de 40 horas semanais para viver uma grande aventura de bicicleta pelo Nepal. Acreditando que a areia dentro da cruel ampulheta do seu tempo de vida está quase alcançando suas narinas e você não fez nada de incrível. Não escalou o Everest, não ganhou um prêmio Nobel, não virou astronauta, seu nome não está nem no Guiness. Você ainda quer ter filhos, preferencialmente morando perto da sua mãe. Adotar um bicho de estimação, ou vários. Morar em outro país. Dar a volta ao mundo. Praticar esportes radicais. Não só mudar de emprego, mas virar um nômade digital. Fazer exercícios físicos com mais assiduidade e se alimentar melhor. Mas também experimentar vinhos e cervejas importadas. Ter uma vida social ativa. Passar mais tempo com os amigos. E passar um período num Ashram na Índia, só meditando. Morar num vilarejo remoto no sul da França. E num apartamento bem localizado em Manhattan. E numa casinha de frente para o mar em Santorini. E tudo isso tem que ser pra já. O símbolo do tempo deixou de ser um relógio: é uma chibata.

Caso ou compro uma bicicleta?
Caso ou compro uma bicicleta?

A internet nos deu acesso a milhares de sonhos. E a propaganda nos diz que se ainda não os conquistamos a razão é uma só: somos medrosos. Na verdade é só uma adaptação do padrão do fracasso por sua culpa exclusiva. As gerações anteriores sempre tiveram esfregado nas suas faces o modelo do sucesso: ter um emprego estável, patrimônio amplo, garantir a segurança da família e desfrutar ao fim da vida de uma confortável aposentadoria. Muita gente não conseguiu isso, pelos motivos mais variados. Mas a explicação da propaganda era uma só: essas pessoas não se esforçaram o suficiente. Se fossem trabalhadoras de verdade teriam conseguido tudo.

Hoje os anseios são outros. A antigamente tão sonhada estabilidade no emprego foi substituída por uma “forma criativa de ganhar dinheiro fazendo o que você ama”. Você vai ouvir de muita gente que os bens materiais não significam nada: o que enriquece mesmo é a experiência. Mesmo que as pessoas que dizem isso sejam proprietárias de imóveis, automóveis e variados fundos de investimentos. E se você não está vivendo intensamente o seu sonho, sinto muito, a culpa é toda sua.

A cada dia, mais pessoas absolutamente livres para fazer o que bem entendem de suas vidas se sentem absolutamente tolhidas pela obrigação premente de ser, hoje mesmo, a materialização de todos os seus potenciais. A pressão para ser extraordinariamente feliz o tempo todo é uma das maiores causas de infelicidade.

Tenho a impressão de que houve uma pequena falha na transmutação dos anseios por estabilidade e conforto das gerações anteriores para os desejos de aventura e liberdade de hoje: a noção de tempo também precisa ser modificada. Antigamente as coisas tinham um momento certo para serem realizadas. Seguir o roteiro era uma questão de sobrevivência. Era preciso estudar, arranjar um emprego, casar, ter filhos, construir um patrimônio e se aposentar. Não havia muito espaço para digressões, a não ser que a pessoa tivesse nascido muito rica (o que continua fazendo diferença).

Atualmente, até mesmo a maternidade pode ser protelada. É claro que os riscos da gestação aumentam proporcionalmente à idade, mas já é quase um consenso que o processo tende a ser mais fácil quando a mulher já está num momento mais tranquilo de sua vida. Antigamente a menarca anunciava o início do ciclo reprodutivo que se encerraria com o esgotamento das condições da mulher de seguir engravidando e parindo. Hoje, fora o desejo da sua mãe e da sua sogra de serem avós, nada pode impedir uma mulher de esperar pelo momento em que se sentir preparada para dar esse passo.

Já se foi o tempo em que era preciso trabalhar até não aguentar mais porque sua produtividade acabava por volta dos 60 anos, quando uma pessoa não tinha mais o que oferecer à sociedade. A expectativa de vida é cada vez mais alta e os avanços da medicina asseguram que possamos chegar mais longe também com mais saúde e disposição. Muitas pessoas “idosas” são absolutamente ativas, produtivas, e mais: estão curtindo a vida!

O meu ponto não é simplesmente ir na contramão da propaganda e dizer: acomode-se! Agarre-se com unhas e dentes ao emprego que você odeia! Acumule bens materiais e prenda-se a eles! Esqueça seus sonhos! É evidente que não.

O que quero mesmo dizer é: não se desespere! O tempo não está contra você. Se alguns dos seus sonhos forem realizados só daqui a 20 ou 30 anos, não tem problema! A ansiedade por realizar todos eles ainda hoje, além de não ajudar em nada, impede que você desfrute suas conquistas e aproveite o presente. Não é feio celebrar uma promoção, mesmo que ainda não seja no trabalho dos seus sonhos. Enquanto sonha com a Times Square, não deixe de aproveitar as coisas incríveis que podem estar acontecendo agora mesmo na sua cidade. Seu apartamento pode não ter vista para a Torre Eiffel, mas isso não significa que ele não possa ser o lugar mais gostoso do mundo pra você.

E existe um pecado ainda mais grave do que não saber comemorar suas vitórias nem curtir o presente, que é deixar de valorizar as pessoas ao seu redor. Esse sim é o maior patrimônio que você pode construir na vida, e não vale a pena deixar de zelar pelos relacionamentos em razão de uma busca desenfreada pela satisfação de desejos que mudam de um dia para o outro. Quem viu o lindo longa de animação Up (um dos meus filmes preferidos) talvez se lembre de um símbolo pungente disso que a película mostrou.

O casal formado por Carl e Ellie Fredicksen, ainda na infância e ao longo da juventude, cultivava sonhos de aventuras incríveis numa terra distante e misteriosa, Paradise Falls. Ellie tinha um álbum de recortes e fotografias, chamado de “Adventure Book” (Livro de Aventuras), e os dois poupavam todo dinheiro que podiam para empreender a fantástica viagem de seus sonhos. Ao longo da vida, enfrentaram alguns infortúnios e tiveram necessidades urgentes que faziam a poupança retornar à estaca zero. Lá para o final – SPOILER ALERT: se você não viu (QUE VERGONHA!) e ainda pretende ver o filme, talvez deva pular o final desse parágrafo e também o próximo – o velho Carl acredita que a vida de Ellie terminou sem que ela tivesse preenchido a melhor parte do seu livro.

Isso foi só porque ele ainda não tinha virado a página (chega a ser linda de tão óbvia essa metáfora) para ver que ela tinha preenchido aquelas folhas com uma série de momentos importantes que eles viveram juntos. Sim, Ellie queria ser uma exploradora da vida selvagem em Paradise Falls. Mas enquanto sonhava, ela não deixou de aproveitar cada momento feliz e, especialmente, de valorizar o amor de quem esteve sempre ao seu lado. Essa foi sua grande aventura. Droga, já estou chorando, lembrar de Up sempre tem esse efeito em mim.

Até pouco tempo eu andava surtando com a pressão de realizar tantos dos meus sonhos, muitos deles aparentemente incompatíveis entre si, e tudo pra ontem. Já passei dos 30, e nos variados grupos sociais dos quais faço parte a pressão é a mesma, o que muda é o foco: para a família, já passei da hora de engravidar. Para o chefe, deveria estar captando clientes ou mostrando um nível mais elevado de compromisso profissional. Para algumas pessoas, eu devia vender minha casa e investir o dinheiro. Para outras, eu devia era comprar mais imóveis. Há quem pense que eu devia vender tudo e cair no mundo. Muita gente me vê como um talento desperdiçado, mas ninguém sabe me dizer quem quer me pagar para colocar em prática esse talento. Alguns acham que preciso me dedicar mais aos exercícios físicos. E há quem me assegure que nada disso realmente importa: preciso mesmo é cuidar das coisas do espírito. A pressão é tanta, que o mais fácil é… Simplesmente não fazer nada!

De repente comecei a me inspirar no exemplo de pessoas que estão fazendo grandes coisas em momentos da vida que muita gente duvidaria! Gente que muda de profissão aos 40. Que faz o Caminho de Santiago aos 50. Que dá a volta ao mundo de bicicleta com 4 filhos. Que dá aula de Yoga aos 96 anos de idade. Não sei você, mas eu pretendo viver muito ainda, e com bastante saúde! Então, fiz as pazes com o tempo. Depois que nos reconciliamos, ficou mais fácil administrar a ansiedade e curtir o dia de hoje.

Martin Glauer, de 30 anos, e a mulher Julie, de 40, deram a volta ao mundo de bicicleta, levando seus filhos Moses (5 anos), Caspar (4 anos), Turis (2 anos) e Herbie (9 meses).
Martin Glauer, de 30 anos, e a mulher Julie, de 40, deram a volta ao mundo de bicicleta, levando seus filhos Moses (5 anos), Caspar (4 anos), Turis (2 anos) e Herbie (9 meses).

Talvez (apenas talvez) eu não consiga realizar todos os meus sonhos. Mas saber que posso mudar de ideia a qualquer momento e vivenciar uma aventura diferente depois da outra me tranquiliza. A realização de um sonho não precisa ser um projeto definitivo. Então o melhor que posso fazer é aproveitar o momento e viver com intensidade tudo que posso desfrutar dele. De preferência ao lado das pessoas que fazem tudo isso valer a pena.

Tao Porchon-Lynch, aos 96 anos de idade.
Tao Porchon-Lynch, aos 96 anos de idade, considerada a professora de Yoga mais velha do mundo. ♥

Oksana Guerra

O que aprendi com 100 dias felizes

No dia 28 de fevereiro desse ano, comecei o desafio 100 dias felizes: todos os dias postar em alguma rede social uma foto de algo que me faz feliz. Estava num momento meio complicado, e não queria dar destaque às coisas ruins. Como escrevi na legenda da minha primeira foto (com a minha mãe, que fez aniversário naquele dia), minha motivação para o projeto, então, era dar mais valor aos momentos de alegria. Aqui está a lista de coisas que aprendi ao cumprir o desafio.

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1. Muitas das coisas boas que podem fazer você feliz já estão aí, você só precisa notá-las.

2. Ter a felicidade como objetivo pode ser a diferença entre mais um dia de tédio e um totalmente diferente.

3. Pessoas são sempre mais importantes que coisas.

4. Relaxar precisa ser uma prioridade na vida.

5. Ser feliz é mais simples do que parece.

6. As pessoas tendem a querer participar dos seus dias felizes, o que não acontece muito nos seus dias tristes.

7. Sua felicidade contagia muito mais gente do que você pode imaginar.

8. Comida e felicidade são coisas que andam juntas.

9. Surpreendentemente, atividades físicas realmente podem deixar você feliz.

10. Muitas vezes, a felicidade consiste em participar de momentos felizes de outras pessoas.

11. Estender a mão a quem precisa enche o coração de alegria.

12. A gratidão é um combustível da felicidade.

13. Engajar-se numa atividade espiritual faz bem à saúde.

14. É mais fácil ser feliz fazendo coisas diferentes do que repetindo o mesmo de sempre.

15. O ato-reflexo diante de um sorriso espontâneo e sincero é quase infalível.

16. A satisfação que coisas materiais trazem passa muito rápido, exceto se você usá-las para fazer outra pessoa feliz.

17. A certeza de um amor incondicional é garantia de felicidade (ou ainda: quem tem mãe, tem tudo).

18. Faz muito sentido amizade rimar com felicidade.

19. Prestigiar o sucesso alheio influencia você de uma forma positiva. Sentir inveja nunca vale a pena.

20. Para ser feliz, é preciso flexibilidade.

21. É mais fácil ser feliz em dias de sol.

22. Mas quando esfria é só buscar fontes alternativas de calor.

23. Tem algo de especial em fazer coisas boas com suas próprias mãos.

24. A música certa pode modificar totalmente seu humor.

25. Arte potencializa o que há de melhor em nós.

26. Para fazer o bem aos outros, é preciso fazer antes a si mesmo.

27. Risada de bebês causa alegria instantaneamente.

28. Ver quem você ama feliz é uma das coisas mais gostosas da vida.

29. É muito bom ter para onde voltar ao final de um dia cansativo.

30. E o melhor lugar do mundo continua sendo um abraço.

31. Entrar em contato com outras culturas é sempre incrível.

32. Nunca temos tanta gente em nossa vida que não valha a pena conhecer pessoas novas.

33. Ver pessoas lutarem pelo que acreditam é inspirador.

34. Um dos melhores efeitos colaterais de fazer coisas diferentes são as pessoas conhecidas no processo.

35. A presença de alguém especial transforma um momento qualquer num evento memorável.

36. Beber sozinho é triste, beber a dois é romance, beber em três ou mais é festa.

37. Quando esquecer como se faz para ser feliz sem motivo, apenas observe um cachorro.

38. A natureza oferece espetáculos gratuitos diariamente. Não perca.

39. O mar cura muita coisa.

40. Quem tem um bom livro nunca está sozinho.

41. Alguns tipos de alegria só se experimentam ao ar livre.

42. La felicità è un gelato.

43. Todo carinho que vai, volta.

44. Alegria dividida estranhamente se multiplica.

45. Às vezes você deve apenas confiar que o dia de amanhã será melhor.

46. Viajar é preciso.

47. Solidariedade contagia.

48. Não é feio reconhecer e valorizar as próprias conquistas.

49. Também existe algo reconfortante em manter uma rotina.

50. Aprender coisas novas alimenta o cérebro.

51. Às vezes é bom contar com a sorte.

52. Não desistir já é uma vitória.

53. Bom humor é mais gostoso do que a alternativa.

54. Manter uma dieta saudável faz bem à saúde e à autoestima. Mas não subestime o poder de uma confort food.

55. Ser feliz nos dias em que tudo dá certo é moleza, mas só os fortes conseguem rir e fazer sorrir nos dias ruins.

56. Celebrar os bons momentos intensifica a alegria. Não deixe datas especiais passarem em branco.

57. Avance sempre, mas não esqueça de onde veio.

58. Pessoas infelizes tentarão arrastar você para o fundo do poço. Se não puder tirá-las de lá, não afunde junto.

59. Não é necessário ter resposta para tudo.

60. Para dor nas costas ou na alma: massagem.

61. Nunca aceite que digam que você já comemorou demais o seu aniversário esse ano.

62. Quando pensar em começar uma frase com “no meu tempo…”, lembre-se de que seu tempo é agora.

63. A falta de companhia não é desculpa para deixar de fazer algo legal.

64. Aliás, se você for realmente legal, vai adorar estar na sua própria companhia.

65. Se você alimentar preconceitos em relação a determinados lugares, estilos de música ou pessoas, vai perder muitas oportunidades de se divertir.

66. Pessoas que não fazem nada podem ficar incomodadas ao ver você fazendo coisas legais.

67. Como tudo é uma questão de prática, quanto mais você aproveita a vida, mais fácil fica aproveitá-la.

68. Falta de tempo é uma desculpa esfarrapada que usamos para não aproveitar nosso tempo com o que nos faz feliz.

69. Você nunca está velho demais para brincar.

70. Sua cidade oferece mais opções de lazer do que você imagina. É só procurar.

71. Não importa o quanto você seja sensacional, algumas pessoas simplesmente não vão com a sua cara.

72. Invista sua energia em alianças construtivas em vez de desperdiçá-la em discussões infrutíferas.

73. Mas não se isole na proteção da sua tribo. Converse com pessoas com opinião oposta à sua. Não tente persuadir ou convencer, apenas saiba ouvir e se mostrar verdadeiramente interessado.

74. Se ninguém ou poucas pessoas fizeram algo até hoje, que isso sirva de incentivo para você estar entre os pioneiros.

75. Você tem o direito de ficar triste às vezes, mas isso não significa que você deva ser uma pessoa infeliz.

76. Existem muitas coisas que você só faz quando está viajando, e elas também podem ser feitas na sua cidade.

77. A criatividade e a imaginação não são talentos exclusivos de pessoas muito especiais – são habilidades que você também pode desenvolver.

78. É impossível evitar os problemas em todos os dias da sua vida. Mas é perfeitamente viável aprender a lidar com as dificuldades sem se abalar nem perder o otimismo. Isso é resiliência.

79. É muito importante descobrir e exercitar algo em que você seja realmente bom. O senso de realização é recompensador.

80. Não importa se você ainda não encontrou o sentido da sua vida. Mas é bom que você esteja interessado em saber qual é.

81. Relacionamentos venenosos podem sugar até mesmo a energia de pessoas muito equilibradas. Procure sempre estabelecer relacionamentos positivos e saudáveis.

82. Poucas coisas causam mais satisfação que o sentimento de fazer parte de algo maior. Vale a pena se engajar em grupos a serviço de uma causa ou uma ideia em que você acredite.

83. Não é para incentivar um complexo de Pollyanna, mas é mais saudável cultivar bons sentimentos do que emoções negativas.

84. Às vezes alguém só precisa desabafar, você não precisa necessariamente dar uma solução para o problema.

85. Por mais que você possa ficar longos períodos sem ver seus amigos e a amizade permaneça a mesma, você deve fazer um esforço para vê-los com mais frequência.

86. Muitas vezes, suas atitudes terão resultados positivos absolutamente inesperados.

87. Mesmo sem ter certeza alguma de um retorno, começar algo bom ainda vale mais a pena que não fazer nada.

88. Sua coragem aumenta muito quando você tem alguém por quem faria qualquer coisa.

89. A família é muito importante. Mas em momentos difíceis, você pode descobrir que família, de verdade, não tem necessariamente o seu sobrenome nem tem laços sanguíneos com você.

90. Muitas vezes a ajuda vem de onde menos se espera.

91. Na mesma medida em que algumas pessoas irão decepcionar você, outras irão surpreendê-lo positivamente se você permitir.

92. Cada um realmente só dá o que tem para dar.

93. Estar feliz com sua vida não quer dizer que não existe mais espaço para crescer e melhorar, mas apenas que você reconhece o que já conquistou até aqui.

94. Nunca ignore pedidos silenciosos de socorro.

95. Banho serve para higiene do corpo, para refletir sobre a vida e para ter ideias brilhantes.

96. A propósito, embora no banho seja difícil, sempre que possível anote suas ideias brilhantes o quanto antes. Elas tendem a desvanecer com facilidade.

97. Em alguns momentos você terá que escolher entre privilegiar a experiência ou a memória. Nem sempre será possível viver um momento intensamente feliz e ainda fotografá-lo para a posteridade.

98. Mas quando o registro não atrapalhar a experiência, faça-o. Cada vez menos você poderá confiar na sua própria memória.

99. É uma delícia concluir com sucesso um desafio a que você se propôs.

100. O amor sempre será a maior fonte de felicidade. ♥

Vai uma surpresinha aí?

Para ouvir enquanto lê o texto:

Outro dia vi o TED Talk de Tony Robbins, escritor e palestrante motivacional estadunidense – é possível que você o conheça do filme “O Amor é Cego”, no qual ele interpreta a si próprio e hipnotiza o personagem principal, fazendo com que ele enxergue apenas a beleza interior das pessoas. No TED, Robbins pergunta à plateia quem gosta de surpresas. Muitas pessoas erguem a mão. Robbins responde que é mentira: gostamos das surpresas que queremos. Às demais, chamamos de problemas.

É interessante o quanto nos incomodamos com acontecimentos inesperados em nossa vida. Não são raras as pessoas que se deixam abater profundamente por surpresas desagradáveis. É como se desejássemos que nossas vidas pudessem ser representadas, num gráfico, por uma simples linha reta. De preferência, ascendente, é claro.

Imagine, porém, que você está pensando em ir ao cinema nesse final de semana. Você abre um site e lê as sinopses dos dois filmes em cartaz. Uma delas diz: “jovem mulher se casa com o namoradinho de infância. O casal financia uma casa e tem dois filhos. Ambos têm empregos de que não gostam muito, mas acreditam que a vida poderia ser pior. Aos domingos, vão à missa”. A segunda é assim: “depois de deixar para trás a família, os amigos e a cidade em que cresceu em busca do sonho de ser atriz, o único emprego que Fulana consegue na cidade grande é como garçonete. Certo dia, um acontecimento inesperado a leva a conhecer Sicrano e, mesmo contra sua vontade, ela é obrigada a ajudá-lo a decifrar um enigma. A inusitada amizade acaba dando um novo sentido para a existência dos dois”. 

Qual história parece mais interessante? Mesmo que você prefira filmes cuja sinopse se resuma aos termos “mulheres lindas”, “perseguições” e “explosões”, aposto que concorda que o segundo enredo desperta um pouco mais de curiosidade que o primeiro. As histórias mais interessantes, divertidas, tocantes ou edificantes contam com a superação de algum empecilho.

Quantos personagens de longas animados da Disney ou da Pixar tiveram que enfrentar a tristeza da morte de um dos pais, geralmente acompanhada de um grande sentimento de culpa? Qual a comédia romântica que funciona sem que no meio da história o casal se separe, para depois perceber que nasceram um para o outro? Sem reviravoltas, não existiriam filmes de suspense, terror, policiais, romances…

E é claro que não é só na ficção que isso acontece. A verdade é que todo mundo já se deparou com uma situação difícil e/ou inesperada. A morte de um ente querido; uma gestação não planejada; o abandono físico ou emocional de um pai ou uma mãe; o recomeço depois de uma demissão ou de um divórcio; uma violência ou injustiça; a mudança de escola, cidade ou país e as dificuldades de adaptação ao novo ambiente; uma doença; o processo de se livrar de um vício; uma desilusão amorosa. Mesmo as pessoas que aparentemente nunca sofreram também guardam esqueletos no armário.

Não estou sugerindo que você persiga tragédias para se tornar uma pessoa mais interessante. Estou apenas dizendo que os percalços são parte da vida e é assim que devemos encará-los. Os problemas são solucionados com mais facilidade quando não nos apequenamos diante deles. E por mais que pareça, quando estamos sofrendo, que a dor será eterna, todos já sabemos por experiências pretéritas que é verdade o que nossas mães sempre disseram: vai passar.

No fim das contas, o que nos define é a maneira com que reagimos às surpresas que não queremos. Porque ser feliz nos dias em que tudo dá certo é muito fácil. O desafio é encontrar alegria e valorizar as coisas boas quando tudo parece conspirar contra.

 

Imagem original de www.thedoghouse.com
Imagem original de http://www.thedoghouse.com

O que eu quero

Para ouvir enquanto lê o texto:

Há uma diferença entre o que queremos e o que pensamos que queremos. Entender essa diferença é essencial para a satisfação pessoal. 

Segundo conta uma lenda corporativa, quando a Sony estava produzindo o primeiro modelo de Walkman, um grupo de pessoas foi convidado para ajudar a decidir a cor do aparelho. As opções eram: amarela ou preta. O grupo logo concordou que compraria o amarelo, que era muito mais esportivo e interessante que o preto, tão comum. Como forma de agradecimento pelo tempo e atenção dos voluntários, a Sony teria oferecido a eles um Walkman de brinde, deixando uma mesa de cada lado da porta de saída, uma com os modelos na cor preta e outra com os aparelhos amarelos. Com exceção de uma pessoa, todas as demais pegaram um Walman preto.

Não me lembro onde ouvi ou li essa história pela primeira vez. Mas, numa das fontes disponíveis, o autor faz a sua própria interpretação dos possíveis motivos pelos quais as pessoas disseram que queriam uma coisa e acabaram escolhendo outra. Segundo ele, as pessoas teriam ficado com vergonha de admitir perante o moderador do grupo que não gostaram do Walkman amarelo, porque isso seria rude. Além disso, elas não teriam coragem de discordar publicamente do grupo.

Com todo respeito à opinião citada, ouso discordar. Acredito que as pessoas disseram preferir o amarelo porque gostariam de ser as pessoas que escolheriam aquele modelo. Pessoas esportivas e fora do comum. Que se atrevem, que se arriscam, que não se importam com o que os outros vão pensar. Porém, chega a hora de efetivamente fazer uma escolha e elas preferem o caminho mais seguro.

Manter-se na zona de conforto é tão automático que tenho até minhas dúvidas se isso deve ser chamado de “escolha”. Se você faz o mesmo caminho de casa ao trabalho todos os dias, e numa determinada manhã decide fazer um percurso alternativo, precisa ficar mais atento que de costume enquanto dirige, caso contrário fará o trajeto de sempre sem nem perceber. 

É muito provável que essa tendência a escolher a opção mais prudente seja um resquício evolutivo dos perigos presentes em nosso ambiente ancestral. Através da seleção natural, sobreviveram os genes que assegurariam a sobrevivência num ambiente inóspito.

Não há mais animais selvagens à espreita. Sim, há muitos perigos lá fora, mas nenhum deles me paralisa de verdade. Se existe algo que pode me manter bem distante dos meus sonhos, é a falta de ânimo para vencer a inércia, a falta de coragem de fazer diferente, a preguiça, a falta de vontade. Estar acomodado não significa estar contente. Num dia frio, o esterco fresco e quente pode ser a salvação de um pé descalço. Nem por isso enfiar o pé na merda virou a definição da felicidade.

Hoje vou de Walkman amarelo.

Imagem do comercial de lançamento do Xperia pela Sony.
Imagem do comercial de lançamento do Xperia pela Sony.

Questão de vontade, não de idade.

Para ouvir enquanto lê o texto:

Passei cerca de trinta anos da minha vida envelhecendo. Parecia simplesmente o certo a fazer. Ser uma pessoa madura. Adotar o comportamento adequado. Arcar com responsabilidades. Ter opinião. Lidar com problemas cada vez mais difíceis. Conformar-me com o que não posso fazer. Gerenciar minha própria vida. Ser um exemplo de moral. Ter um propósito na vida. Desconfiar das pessoas. Conquistar a independência. Abraçar a complexidade do meu ser e desistir de entender a mim mesma.

Um dia resolvi que não queria mais envelhecer. Descobri que “o certo a fazer” é uma questão de ponto de vista. Percebi que excesso de maturidade significa que você passou do ponto (e o próximo passo é deteriorar). Observei que quem dita qual é o comportamento adequado é geralmente cheio de inadequações. Concluí que ser responsável não é um peso a carregar, mas sim a chave da minha liberdade. Vi que é saudável mudar de opinião de vez em quando, além de ser indispensável respeitar as opiniões diferentes das minhas. Notei que os problemas são do tamanho que eu dou a eles. Perguntei-me: “mas o que é que eu não posso fazer?”. Constatei que gerenciar é algo muito burocrático para definir a minha vida – prefiro fazer arte com ela. Entendi que vale mais a pena inspirar atitudes positivas do que seguir cegamente um conjunto de regras que nem sempre materializa o bem. Decidi ter vários propósitos na vida, mas não me apegar a eles – se algo falhar, o plano B é “continue a nadar, continue a nadar”. Aprendi a importância de cultivar a fé. Conquistei minha independência e, então, dei um passo atrás, para aprender a dizer: “preciso de você”. Resolvi simplificar e, num processo contínuo de autoconhecimento, amar a mim mesma e a quem mais eu conseguir.

De repente, não só parei de envelhecer, mas comecei a ficar mais jovem! Voltei a brincar, a acreditar, a confiar, a arriscar. Estou aprendendo ainda a saltar sem medo (não se abandonam as rugas e cicatrizes da alma sem algum esforço). Estou mais bonita. Sinto-me mais bem disposta. Tenho feito novas amizades e me divertido com as antigas. A dor nas costas diminuiu. E estou enxergando melhor! Mas não com os olhos, claro.

Não frequento muitas festas – escolho somente as melhores. Mas quando compareço, sou a primeira a chegar e a última a sair! Quando eu era velha, costumava pensar: “que bom seria se eu pudesse ter a disposição da juventude com o discernimento que tenho hoje…” E não é que é possível?

Algumas roupas não me servem mais: ficaram muito grandes ou muito sérias. Também existem atitudes que já não me cabem: rabugices, pressa constante, resmungos e lamentos, guardar mágoas e ressentimentos, valorizar as dores e doenças, falar demais, achar que sei mais do que os outros, manter hábitos ruins só porque é difícil mudar. Confesso que foi mais fácil me livrar das roupas que não serviam. Mas estou trabalhando nas atitudes.

Há quem desaprove meu rejuvenescimento. Nem todo mundo consegue abrir mão do cinismo e da descrença. A muitos falta ânimo para abandonar o pessimismo. Alguns simplesmente acham ridículo. Pensam que não tem cabimento uma senhora casada de 32 anos se comportar dessa maneira. Que é um absurdo andar assim, como se fosse uma menina. Não me importo. Fico com a opinião dos jovens, como meu marido, a cada dia mais menino. E minha jovem amiga de 99 anos de idade, que faz piada e ri como criança. E, ainda, minha amiga de 3 anos de idade, que me faz abraçar desconhecidos.

Além disso, conservei do meu tempo de envelhecimento uma série de lições. Uma delas é que eu não posso agradar a todos. Então, só por hoje, escolho agradar a mim mesma.

oki