Vinte meses

Filhote,

Faz tempo que não escrevo para você. Os últimos dois meses não foram muito fáceis, meu amor. Mas agora eu estou me reencontrando e me sentindo mais forte para voltar a fazer algo que tanto amo, que é escrever. Hoje você está fazendo 20 meses de vida, e não vou enumerar todas as habilidades que conquistou, quantas palavras já sabe falar e quantos vocábulos você criou no idioma ivanês, porque não saber como se diz em português não é motivo para você encerrar a conversa.

O que quero hoje é contar outras coisas para você. A primeira é que não sou perfeita. Eu sei que por alguns anos você vai duvidar disso. Você pensa e vai continuar pensando por bastante tempo que sua mamãe sabe tudo. Depois, quando chegar à adolescência, vai ter momentos (espero que não seja o tempo todo) em que vai pensar que não sei nada. E bem mais lá na frente, vai compreender que sou só uma pessoa adulta procurando fazer o melhor que pode. Mas não nos adiantemos tanto.

Quero que você saiba que eu erro e me arrependo. Com você, com as outras pessoas e comigo mesma. Especialmente nos dias em que me encontro no limite do cansaço, é fácil escorregar, sabe? É importante você saber disso, filho, porque você vai errar e se arrepender bastante vezes também. Quero contar, e mostrar com o meu exemplo, que sempre é possível recomeçar, melhorar, fazer diferente. E não importa o que aconteça, sempre existirão pessoas para apoiar você, para lembrar que um erro não o define e para enxergar o seu valor. A começar pela mamãe.

Outra coisa que quero dizer é que, mesmo nos dias mais difíceis, eu continuo lembrando que ser sua mãe é a realização do meu maior sonho. A maternidade é uma responsabilidade tão grande, um trabalho que exige tanto! Se fosse qualquer outro emprego talvez eu pedisse demissão. Noites mal dormidas, desafios cada vez maiores para entreter, brincar, ensinar, manter você longe da TV ou iPad e ainda assim conseguir fazer a comida, ajeitar a casa. Lidar com as suas frustrações, encontrar formas de me comunicar com você sem violência quando você tem uma crise de raiva. Sobreviver a dias chuvosos sem poder ir lá fora. Suportar o horror que têm sido as mordidas me deixando coberta de hematomas desde que seus últimos molares começaram a nascer (a dentista disse que eles só viriam depois dos dois anos, mas seus dentinhos têm pressa!). Nesses dias você me viu chorar algumas vezes. De dor, de cansaço, de ressentimento.

Felizmente as recompensas desse trabalho também são as maiores que existem. Ver você crescer cada vez mais corajoso, explorador, inventando brincadeiras. Cada dia mais menino e menos bebê. Perceber o quanto você é carinhoso não só comigo, enchendo-me de carinhos e beijinhos ou dizendo “amomãe”, misturando amo com mamãe, mas também com as outras pessoas. Você é uma criança adorável. E o amor ameniza as dores, alivia o cansaço e dissipa o ressentimento. Todos os dias seu pai e eu ficamos alguns minutos falando sobre a sorte de ter você em nossas vidas, sobre como nossa família é a fonte em que renovamos nossas forças, é o que nos faz caminhar e faz tudo valer a pena. Há um ano e oito meses somos pessoas muito mais felizes porque você está aqui.

Meu periquito, pirulito, pililico. Um dia você vai detestar saber os apelidos bobos com que eu o chamava, e eu vou lembrar que meu colo era seu lugar favorito no mundo.

Amo você mais do que tudo, meu amorzinho!

Mamãe

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Um ano

Filhote,
Então você fez um ano. Há algumas semanas eu vinha me preparando para essa data, sem saber ao certo as emoções que ela me traria. Lembrar do seu nascimento me causa um misto de sensações. Quero ser sempre honesta com você e, para isso, devo reconhecer que o dia do seu nascimento envolveu dor, sofrimento, medo. Mas foi também o dia em que recebi o maior presente da minha vida, a felicidade de ser sua mãe.
Decidi que faria uma festa muito linda para celebrar o seu primeiro ano, porque esses 12 meses com você foram incríveis e merecem ser comemorados. Decidi que 21/05 será sempre um dia de muita alegria na nossa família. O planejamento e a concretização da sua festa tomaram todo o tempo e a energia de que eu dispunha, e nem deu para ficar triste lembrando da parte não tão legal desse dia. Quando vi, já estava na hora de cantar parabéns pra você. 
E como valeu a pena, meu anjo! Ver você curtir a festinha que preparei com todo amor, cercado de pessoas que o amam. A lição que você me ensina a cada dia é que o tempo passa muito rápido, e por isso eu preciso dar sempre mais atenção às coisas boas e aos momentos felizes.
Agora você entrou numa nova fase, e eu continuo amando acompanhar cada passo do seu desenvolvimento. Já sabe andar, bater palminhas, dar tchau, dançar, fazer não com a cabeça, tomar água com canudinho, fazer high five, cantar no ritmo da música. 
Continua amando esmagar a Samantha, mamar (que grande vitória chegarmos a um ano de amamentação depois de todas as dificuldades que tivemos), dormir no sling, tomar banho de chuveiro no colinho, Palavra Cantada, nadar na piscina, aula de música, instrumentos musicais, cozinhar um papá imaginário nas suas panelinhas, encaixar peças nos brinquedos de montar, brincar de esconder.
Sabe falar mamãe, mamá, gata, dadá, papá, ábua, banana, batata, au-au, vovó, nossa, opa e repete outras coisas que mamãe diz. Tem 8 dentinhos e um nascendo. Tem dias em que come pouco, e outros em que não sei pra onde vai tanta comida. Dorme ainda com a mamãe e o papai, e nós três amamos isso.
Parabéns pelo seu primeiro aninho, meu amor. Grata por fazer a minha vida tão feliz.
Amo você! 
Mamãe

9 meses

Filho,
Você foi concebido no dia 21/08/2015. Exatamente 9 meses depois, você veio ao mundo, em 21/05/2016. E hoje faz 9 meses que eu amo você do lado de fora do meu ventre. 
Esse mês foi especial. Entre outras coisas, você conheceu (e adorou) o mar! Passamos férias deliciosas com seu pai e sua vovó Maria. Você descobriu a textura (e o sabor) da areia. Brincou na piscina, aprendeu a subir escada, comeu mais do que nunca e se divertiu muito! 
Também começou a natação. A primeira aulinha foi meio tensa, você não curtiu o mergulho. Mas na segunda já se soltou e se divertiu muito, mesmo mergulhando! O coração da mamãe ficou mais tranquilo! Começou ainda a aulinha de musicalização para bebês, que é pura alegria. Ao chegar em casa depois da primeira aula, deslanchou a tocar seu pianinho como nunca antes. O papai já achou que compensou o investimento, hahaha!
Agora está bem mais fácil nos comunicarmos, meu amor! Você já sabe expressar com gestos e sons quando quer algo, e também quando não quer. Para o que está fazendo quando escuta a palavra “não”. Guarda objetos dentro de recipientes (adora caixas), abre e fecha as portas e gavetas, tira as coisas de dentro dos armários. Transforma várias coisas em instrumentos de percussão (o baldinho virado, caixas, prateleiras), batendo com as mãos ou com baquetas improvisadas. 
Desce do sofá bonitinho, sem ser de cabeça. Anda pela casa se apoiando nos móveis, dá tchau, bate palmas, manda beijos. Combina sílabas em sons que parecem palavras. Fica em pé sem apoio por alguns segundos e se agacha em seguida. Finge que vai mamar e aí faz “prrrr” assoprando o meu peito. 
Aprendeu a miar imitando a Samantha. Faz carinho na mamãe, no papai, na Sam, na vovó e em amiguinhos mais novos. E quando faz carinho, afina a sua voz dizendo “hmmm” como a gente faz com você. Lança olhares cheios de doçura. Encontra posições para dormir totalmente espalhado em cima de mim, para tentar evitar que eu saia da cama após você adormecer. 
São várias descobertas diárias e eu não consigo listar todas, mas gosto de escrever aquelas de que me lembro, para você ler um dia. E para eu ler nos próximos anos, quando já não recordar desses detalhes tão gostosos do seu desenvolvimento. 
Ah! Hoje pela primeira vez você comeu com a gente o bolo do seu mesversário, feito por mim com muito amor, com farinha de trigo integral, sem açúcar e sem leite. Você adorou!
Amo ser sua mãe, amo crescer com você. Amo ver o mundo pelos seus olhinhos. Amo você mais do que tudo! ❤
Feliz mesversário, meu amor!
Mamain

A maternidade não é um sepulcro

Meu puerpério foi muito difícil e pesado. Olhando para trás nem me reconheço naquele – felizmente curto – período. Leio os textos que escrevi e eles não parecem meus. Hoje sinto que muito da tristeza, da falta de confiança em mim mesma e do constante medo de errar que carreguei comigo no pós-parto foram fruto da violência obstétrica que sofri. Some-se a isso as alterações hormonais e as inseguranças normais da maternidade, e o resultado foi uma completa desconexão com minha intuição. Levei alguns meses para começar a ouvir a voz interior que hoje conduz a minha forma de maternar.

Superadas as dificuldades iniciais, ser mãe tem se revelado a cada dia a experiência mais deliciosa, rica e desafiadora da minha vida. Muita coisa mudou, e com certeza a maior parte delas foi para melhor. Abri mão de algumas coisas, mas ganhei muitas outras que nem imaginava.

Vida social, amizades, jantares, viagens, passeios culturais? Eu digo que tudo isso é possível e muito agradável com filhos. O ritmo pode ser diferente, algumas coisas são adaptadas a esse novo membro da família que merece o mesmo respeito que os adultos. Não vou obrigá-lo a dormir num cantinho numa festa, do mesmo modo que eu e o pai dele rejeitaríamos essa sugestão para nós se estivéssemos cansados e alguém insistisse para a gente ficar mais. Não fazemos nada sem estar a fim, e as vontades e necessidades do nosso filho têm o mesmo valor que as nossas (quando não mais).

Isso não quer dizer que não nos divertimos mais, ou que deixamos de fazer tudo que a gente curte. A gente se adapta ao bebê e o bebê se adapta à gente, construímos juntos uma nova rotina, sem apego à vida que levávamos antes da chegada dele, mas sem abandonar totalmente quem éramos. Equilíbrio é a chave.

Mas é muito, MUITO desagradável quando pessoas que pensam diferente – seja porque acham que temos que arrastar o bebê para qualquer programa e que ele “tem que se acostumar”, seja porque acreditam que temos que viver enclausurados – tentam impor sua visão ou ficam agourando nossa alegria.

Eu ouvi muita gente me dizer “aproveite para dormir agora, porque depois nunca mais” (como se fosse possível fazer banco de horas de sono), mas a verdade é que tenho dormido bem, obrigada. Meu bebê ainda mama algumas vezes por noite, em alguns períodos (saltos de desenvolvimento ou picos de crescimento) um pouco mais, mas fazemos cama compartilhada e as mamadas dele não me privam do meu sono. Depois que ele nasceu ouvi que devia aproveitar para sair enquanto ele só mamava, que depois da introdução alimentar era impossível. Hoje me pergunto se essas pessoas nunca viram uma banana. Basta levar uma fruta e água, além do meu peito, e o bebê estará nutrido por horas.

Li algo que a Debora Camargo escreveu e me identifiquei muito: quando as pessoas dizem “aproveite porque depois fica pior”, a impressão que dá é que elas estão torcendo para que a gente se dê mal só para elas provarem um ponto. Só para poderem dizer que não dá mesmo para viajar com crianças, que é impossível levá-las a um museu ou um concerto de música, que você tem SIM que se conformar que ser mãe é só sofrimento e renúncia.

E se você ousar continuar sendo feliz e satisfeita mesmo com filhos, essas pessoas vão dizer que é “sorte”. Ditas por determinadas pessoas, até coisas que todo mundo gosta de ter soam como algo pelo que a gente deveria se desculpar, como sorte, rede de apoio, dinheiro. Não é que você se esforça, planeja, tem um cuidado extra para conciliar o conforto e bem estar do seu filho com a sua alegria de viver e sanidade. É que você tem sorte. Não é que você batalha para realizar seus sonhos e se vira em mil pra dar conta de tudo, é que você tem rede de apoio. Não é que você prioriza viajar em vez de comprar um carro novo, é que você tem muito dinheiro pra torrar em viagens.

A dica é: se você vir alguém fazendo algo que você não imaginava ser possível, inspire-se! Acredite que você também é capaz de muito mais. Não permita que o seu medo se transforme em crítica ao modo de viver das outras pessoas.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 06/12/2016, às 10h50, enquanto o bebê tirava uma soneca. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]