2016: uma retrospectiva para Ivan


Filho amado,

Está chegando ao fim o ano em que você nasceu. 2016 tem muitos críticos, mas não se assuste, meu amor: minha memória é boa o suficiente para lembrar que, no ano passado, quando você morava ainda na minha barriga, muitas pessoas clamavam “acaba logo, 2015”, e o mesmo aconteceu com os anos antecedentes.

E não será diferente com 2017. Eu sei que é estranho, filho, mas as pessoas conservam a crença de que a vida nesse planeta não está difícil por causa delas próprias, mas sim por culpa de uma folha no calendário.

Para mim, essa fatia de tempo que chamamos de 2016 ficará para sempre marcada como o ano em que tudo mudou porque você chegou.

Comecei o ano repleta de expectativas. Seu pai e eu viajamos, saímos muito, registramos em fotografias o crescimento da minha barriga. Ele me acompanhou às consultas médicas, exames e se emocionou sempre que sua imagem apareceu no ultrassom. Choramos juntos de alegria ao ouvir seu coração pela primeira vez.

Passei por momentos estressantes no trabalho. Com você morando em mim e os hormônios trabalhando intensamente, foi mais difícil que nunca ter que tolerar indelicadezas gratuitas. Várias vezes eu me escondia no banheiro para chorar, e achava que não ia suportar até o início da minha licença.

Eu me preparei muito para receber você, mas confesso que romantizei um tanto sua chegada. Cometi o erro de acreditar que, por ter planejado muito, estava tudo sob o meu controle. Mas nada estava. Descobri isso da pior forma, e conheci a maior dor do mundo: ver você sofrer.

Conhecemos de muito perto a maldade humana e o despreparo de uma profissional que jamais deveria trabalhar com pessoas, muito menos com mulheres em trabalho de parto. Fui abandonada, num momento de intensa dificuldade, por pessoas em quem confiei demais. Senti o maior medo que uma mãe pode sentir, o de perder um filho. Enfrentei com você a UTI, o julgamento, a culpa. Suportei dores terríveis para passar horas ao seu lado, sem cansar. Quis morrer cada vez que espetavam uma agulha em você. Tive vontade de tirá-lo da incubadora e correr com você nos braços até a nossa casa.

Os primeiros meses não foram fáceis. O puerpério foi sombrio. Minha confiança estava dilacerada e eu não conseguia ouvir a minha intuição. Tinha muito medo de errar, de falhar de novo com você. Cedi a conselhos equivocados e isso quase nos custou a sua amamentação. Lutei de forma ferrenha, empenhei todos os meus esforços porque eu não ia perder mais essa batalha. Vencemos!

Depois do seu terceiro mês, tudo mudou. A cada dia foi ficando mais fácil. Ou não. Os desafios continuaram, mas eu fiquei mais forte. Reencontrei a confiança perdida. Voltei a olhar no espelho e ver a mulher que você merece como mãe.

E é com muita alegria que tenho acompanhado o seu desenvolvimento. Como digo sempre no seu ouvido: você é muito amado, é lindo, inteligente, esperto, amoroso, carinhoso, corajoso, você é uma pessoa do bem. Traz luz no seu sorriso e paz no seu olhar. Você é especial.

Filho, sou grata a você por ter me ensinado mais sobre o amor nesse ano da sua chegada do que eu aprendi em toda minha vida. Meu amor por você é tão grande que transborda esse eixo mãe-filho: sobra muito para sentir por mim mesma, por seu pai, por sua avó e todos os nossos antepassados. Pelos amigos, pelas mulheres maravilhosas que formam uma rede de apoio fantástica. Sobra amor para dividir com todas as pessoas que estão por aqui desde sempre e com as que entraram em nossa vida nesse ano.

No mundo lá fora aconteceu um montão de coisas ruins. Golpes, guerras, crimes, muita maldade. Em alguns dias temos a impressão de que o mal está vencendo. Mas aqui dentro, graças a você, eu renovo minha fé no bem. Você é uma semente dele, meu amor. Você e seus amiguinhos, crianças amadas que estão sendo criadas de um jeito diferente, com amor e respeito, com potencial para trazer a esse mundo um pouco mais de luz.

Com você por aqui, só posso agradecer por esse ano em nossas vidas, e tenho certeza de que 2017 será um ano ainda mais incrível para nós.

Amo você, filhote!

Mamãe

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Sete meses

Filho amado, hoje faz sete meses que você chegou. Mais um mês que vivemos na sua companhia, aprendendo a cada dia com você.

Você já sabe se sentar sozinho quando deixo você deitado. Levantar e ficar em pé com apoio, segurar seu copinho para tomar água e, com um pouco de ajuda, levar a colher com comida à boca. Experimentou muitas frutas, vegetais e ovo.

Faz bagunça na banheira. Já engatinha do seu jeito e quando cansa se arrasta pra onde quer ir. Faz posições dignas de um mestre yogi. Já tem dois dentinhos, o terceiro está nascendo e o quarto já se nota a caminho. Fica o tempo todo com a linguinha sentindo os dentes na gengiva, o que rende carinhas muito engraçadas nas fotos.

Canta para dormir, também tenta cantar junto comigo sua música preferida (continua sendo “O Pato”, de MPB4), brinca com a nossa gatinha, Samantha. Durante o dia, se eu pergunto “cadê o papai?”, você olha para a porta para ver se ele está chegando.

Adora grama e terra. Não dá bola para vídeos por mais de 30 segundos. Está aprendendo a descer da cama sozinho (sem ser de cabeça). Fez sua primeira viagenzinha de carro, conheceu o Papai Noel, viu espetáculo de Natal, foi ao cinema, subiu ao topo de um moinho, foi a vários parques, fez passeios, visitou pessoas e recebeu visitas, teve encontros com amiguinhos, foi a festas, museus.

Filhote, você nos encanta todos os dias com seu jeito carinhoso, seu chamego, seu bom humor. Seu pai e eu continuamos adorando seu bafinho de leite, seu cheirinho de anis estrelado depois da massagem do papai, suas tentativas de beijos que nos cobrem de baba.

Sou grata por mais esse mês de alegria, amor e aprendizado com você, meu anjo.

Amo você mais do que tudo!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi publicado originalmente em seu perfil pessoal no Facebook em 21/12/2016, às 21h59, enquanto o bebê dormia. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora.]

Seis meses

Meio ano de você na minha vida, filho. Ser mãe é mais um jeito de compreender a teoria da relatividade: esses seis meses passaram muito rápido, parece que, se eu me distrair por um instante, você já não será mais um bebê. E, ao mesmo tempo, quase não consigo mais lembrar como era a vida sem você. Sinto que sou sua mãe desde sempre. Que sua chegada não passou de um reencontro muito esperado.

Seis meses nutrindo você com o meu leite. Hoje parece pouca coisa, e é apenas o começo. Mas houve vários momentos em que pensei que não chegaria tão longe. Agora já estou confiante para dizer: você vai mamar até quando quiser, enquanto continuar bom para nós dois.

 

Já nem sei dizer o tanto de coisa que você aprendeu nesse tempo. Aproveite, meu filho, depois que a gente cresce não é mais tão fácil aprender coisas novas.

 

Agora você já senta sozinho, foge se arrastando, rolando e gargalhando quando digo “eu voooou pegar esse neném”, tenta engatinhar, insiste em ficar de pezinho quando dou a mão para você. Chora dizendo “nhenhenhem” e eu demoro para atender, porque esse choro é tão fofinho. Descobriu o pipi e consegue arrancar a fralda sozinho. Dorme agarrado em mim para eu não poder sair da cama. Faz um beicinho que me corta o coração. Continua tendo o bafinho de leite que eu amo. Começamos ontem sua introdução alimentar e descobri o que já desconfiava: você vai ser bom de garfo. Não faz careta pra nada.

Você, seu pai e eu temos nos divertido muito juntos. Todos os dias são repletos de descobertas, muito carinho, beijos babados e abracinhos gostosos, passeios alegres e muitos motivos para sorrir. Nunca pensei que a vida pudesse ser tão boa. Continuo repetindo: grata por você ter me escolhido!

 

Parabéns pelo seu sexto mesversário, Ivan!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/11/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Quando é aceitável bater no seu filho?

“Ontem não teve jeito. Tive que dar uns tapas na minha avó. A velha é muito teimosa! Já tentei conversar, expliquei com toda calma do mundo que ela não pode comer doces por causa da diabetes, mas não tem jeito! Sabe o que é ter que repetir a mesma coisa mil vezes todos os dias? Ela faz isso pra me desafiar! Dói mais em mim do que nela, mas de vez em quando ela precisa apanhar pra entender!”

“Meu cachorro fez xixi no tapete da sala. Dei uma surra nele, está encolhido num canto até agora. Vamos ver se ele finalmente entende o significado da palavra ‘não’.”

“Sim, eu bati na minha esposa. Perdi a cabeça mesmo. Mas ela estava pedindo! Eu já cansei de dizer que não quero que ela fique andando sozinha na rua de noite. Já pensou se acontecesse alguma coisa grave? Podia ser assaltada, estuprada, assassinada! Quem sabe agora ela aprende a me escutar.”

“Eu bato no meu filho, sim, senhor! É um absurdo essa história de não poder dar tapa nas crianças! Eles vão crescer sem limites! Eu apanhei muito dos meus pais e por isso sou uma pessoa de bem!”

O que todas essas situações têm em comum? Todas são confissões (fictícias) de crimes. Porém, a última ainda é considerada normal e aplaudida por muita gente. Inclusive psicólogos e psiquiatras, porque diplomas não são garantia de bom senso.

É possível educar sem violência. Não bater é diferente de deixar de ensinar limites. Crianças entendem as coisas, mas aprendem por repetição e, principalmente, pelo exemplo dos pais. Por isso, ter filhos é um convite (que a maior parte das pessoas recusa) à auto-educação. Precisamos estar sempre atentos e vigilantes aos nossos atos, às nossas palavras, aos nossos sentimentos. Precisamos ter autocontrole para não descontar nossa raiva e frustração em forma de castigos físicos, sob o pretexto de educar.

Na dúvida, dê uma passada em qualquer cadeia e pergunte aos presos se eles foram criados com excesso de amor e jamais levaram um tapa, e se foi por isso que terminaram no mundo do crime.

E antes que um inteligente venha dizer “quero só ver se você nunca vai dar uma palmada no seu filho”, eu digo que não posso afirmar com certeza absoluta que jamais vou perder a paciência e dar um tapa nele. O que sei é que, se isso acontecer, vai continuar sendo errado. Se eu cometer um crime, ele não deixa de ser crime. Só o que posso fazer é continuar me educando para poder educá-lo, reconhecendo-o como um ser humano digno do mesmo respeito que eu quero para mim.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 02/11/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Três meses

Hoje celebramos mais um mês da sua vida, meu amor! Mais um mês repleto de desafios e de decisões difíceis. Reação a vacina por várias semanas, cólicas, dificuldade para ganhar peso. Muitos conselhos, dicas, médicos, mudança radical na dieta da mamãe.

Hoje já posso dizer que fiz e faço tudo que é possível para garantir seu bem estar, desde o mais básico até o inusitado. Apesar disso tudo, os dias tiveram sempre mais sorrisos do que lágrimas (da sua parte e da minha).

Filho, eu já o amava antes mesmo de você nascer, e, desde o primeiro instante em que o vi, soube que daria minha vida por você. Mas preciso confessar: foi nesse mês que eu me apaixonei perdidamente por você. As nuvens negras do puerpério se dissiparam, embora eu continue sensível, num misto estranho de fragilidade e força. Já consigo enxergar o horizonte, e ele é cheio de cor com você aqui comigo.

Que gostoso é ver seus olhinhos me buscarem, e seu coração se acalmar quando eles me encontram. Que delícia é dormir com você nos meus braços. Que alegria é receber seus sorrisos, suas risadinhas e curtir as nossas conversinhas! Ver você se desenvolvendo, seu pescocinho firme, sua curiosidade, suas mãozinhas cada vez mais hábeis. Você tem sido uma ótima companhia, filhote! Agradeço ao universo pela oportunidade de ser sua mãe, por você ter me escolhido, por estarmos juntos trilhando esse caminho. Parabéns pelo seu terceiro mesversário, Ivan!

Muita saúde e que Deus o abençoe, meu filho amado.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/08/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

A verdade que ninguém me contou

Sempre achei graça nos “cursos de mães e pais”. Hoje, que sou mãe, acho mais ainda. Não me entendam mal: considero útil qualquer tipo de preparação que faça os futuros pais e mães se sentirem mais seguros e confiantes para o exercício da árdua tarefa que lhes foi confiada. Mas não deixa de ser engraçada a tentativa de tentar ensinar algo sobre ser mãe ou pai.

Pode-se ensinar a trocar fraldas, preparar para o básico da rotina, avisar qual a temperatura correta da água para o banho, dar algumas dicas, apresentar os diferentes tipos de choro e ensinar a identificar o que significa cada um deles (sim, isso existe, mas não é essa fórmula mágica que parece: na prática existem 87 tipos não identificados que seu bebê inventará a cada dia para testar sua sanidade). Nada que não se possa descobrir sozinho ou pesquisando no Google.

O mais importante ninguém ensina. Sobre o mais assustador, ninguém nem fala. Sobre os sentimentos e as coisas feias que você vai pensar naquela madrugada insone, sobre os instantes de arrependimento que serão seguidos de muito choro de culpa. Isso é muito inapropriado para figurar no universo maravilhoso e santificado das mães.

Não existe curso para almoçar, escovar os dentes e lavar um copo usando uma mão só, porque a outra segura o bebê. Nem para dar a uma criança em movimento duas gotas da vitamina que não pinga quando você quer e quase jorra no nariz do bebê quando você já está desistindo. Não há aula preparatória para não se desesperar com um choro insistente, de perder o fôlego, quando você já tentou de tudo: dar mamá, trocar fralda, dar banho, colo, música clássica, massagem, óleos essenciais, embalo, tapinhas suaves e ritmados no bumbum, aplicativo com som de útero. Não encontrei tutoriais no YouTube explicando como superar o tédio de passar dias e dias sozinha olhando para o bebê sem conseguir fazer mais nada, recusando convites e apenas lembrando de como era ter uma vida social ativa. Livros não ensinam a superar a insegurança de sair de casa levando o bebê e toda a parafernália necessária para sustentar essa aventura insana. Ninguém explica como sobreviver dormindo um sono leve, breve e nada restaurador, acordando com cada movimento ou gemido no bercinho ao lado da cama. Ninguém nos prepara para a despedida das certezas que tínhamos, que vão ruindo uma a uma. Também não nos dizem de forma empática que tudo bem mudar de ideia em relação a algumas coisas que havíamos planejado (normalmente apenas torcem para que nossos planos falhem para poder dizer “viu só? Eu não disse que você não ia conseguir?”). Muito pouca gente admite que é normal ter sentimentos conflitantes e que eles não diminuem o amor infinito e incondicional que temos por nossos filhos.

O mais incrível é que, mesmo sem ninguém nos ensinar, a gente aprende. Na porrada, no sofrimento, mas aprende. E a cada lição aprendida na aspereza da rotina, outras mil dúvidas surgem, sem que haja um serviço de atendimento ao consumidor, um zero oitocentos para telefonar. A única ouvidoria que existe consiste nos ouvidos atentos de outras mães e outros pais que, porventura, tenham coragem de dividir suas angústias e compartilhar pérolas de sabedoria adquiridas às custas de lágrimas e suor. Não são lições doces e poéticas como as que se leem nos livros, nem parecem simples como as dos cursos preparatórios, mas gosto delas porque são verdadeiras.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 06/07/2016, ainda sob a influência nefasta dos hormônios puerperais. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Pérolas do puerpério

Assistindo a um episódio do programa da Chelsea Handler na Netflix sobre por que as pessoas têm filhos. A atriz Kate Hudson diz que os meninos costumam ser bem ligados à mãe, até que por volta dos 10 anos desenvolvem uma aversão e se afastam.
Olho para o Ivan dormindo no meu colo e caio no choro pensando que daqui a 10 anos ele pode sentir aversão a mim.

(Oksana Guerra, 16/06/2016)

Depois de semanas enclausurada em casa, a puérpera, atendendo a uma recomendação médica, deixa o bebê com a vovó por algumas horas e sai com o marido para espairecer. Deixa em casa tudo preparado: leite materno para a hora do mamá, fraldas para as trocas, recomendações para telefonar caso aconteça qualquer coisa. Veste uma roupa, põe maquiagem, o marido a acha linda (como fica diferente sem pijama!).

Vão ao shopping comprar um presente. Ela aproveita para ir a uma loja de que gosta, olha tudo, experimenta 8 peças. E leva… Um pijama.

(Oksana Guerra, 25/06/2016)

Essa é de alguns dias atrás, e esqueci de contar ou não tive condições de digitar, segurando o bebê no colo e tentando guardar os peitos no sutiã de amamentação com uma mão só (os fabricantes deviam facilitar esse negócio).
Depois de diversas noites de privação de sono e com a sanidade mental fortemente abalada, a puérpera decide esquentar água para fazer um chá. Em vez de selecionar o tempo de aquecimento, digita sua senha do banco no painel do forno de micro-ondas.

(Oksana Guerra, 26/06/2016)

Domingo, família toda pronta para um breve passeio no parque. Na porta do apartamento, a mãe da puérpera alerta:

– Filha, você vai de pantufas?

(Oksana Guerra, 05/07/2016)

O porteiro avisa pelo interfone que chegou encomenda. A puérpera reflete por uns segundos e conclui que, sim, pijama é um traje socialmente adequado para ir à portaria receber o pacote.

(Oksana Guerra, 06/07/2016)

Um dia eu fui uma mãe perfeita. Mas aí meu filho nasceu. Fim.

(Oksana Guerra, 06/07/2016)

[Essas pérolas são de autoria de Oksana Guerra e foram originalmente publicadas em seu perfil pessoal no Facebook nas datas indicadas]

Um mês

Hoje faz um mês que você chegou! Enfrentamos juntos algumas batalhas, momentos difíceis, mas superamos tudo com muito amor! A cada dia seu pai e eu estamos nos adaptando melhor, dormindo um pouquinho mais, e sempre curtindo muito essa pessoinha linda com que o universo nos presenteou. Que já presta atenção a tudo à sua volta, reconhece nossas vozes desde o primeiro dia, quase sustenta a cabecinha sozinho, é muito ativo e esperto. E, acima de tudo, adora um colinho! A maior certeza que tenho é de que o amor que sinto por você é infinito e capaz de tudo!
Parabéns, filhote, pelo seu primeiro mesversário! Desejo muita saúde e alegria, meu amorzinho!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 21/06/2016. É curtinho e simples, porque o cérebro estava ocupado demais em assegurar a sobrevivência materna durante o puerpério, não sobrando grande disposição literária. Mas é cheio de amor, e é proibida sua reprodução parcial ou total sem a prévia autorização da autora]

Exterogestar: como dói amar assim

Conversávamos, minha mãe e eu, sobre as primeiras semanas do recém-nascido. Como são exaustivas, como o bebê suga as energias maternas reduzindo a mulher a um simulacro do que um dia foi. Ninguém nos prepara para essa missão, nem há mesmo como preparar. A prática é diferente, mais assustadora e cruel do que qualquer teoria.

Aí algumas pessoas dizem: “aproveite, essa é a melhor fase e passa muito rápido”. A melhor? Estou em cacos. Nunca estive tão cansada.

Então minha mãe disse que o fator de que se sente falta depois, quando passa, é a dependência total e absoluta do bebê em relação à mãe. E eu perguntei: “mas não é essa a pior parte?”

No fundo eu mesma já conhecia a resposta para essa pergunta. É, sim, a pior parte. É a melhor também. É ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. É o maior erro e o maior dos acertos da natureza. Nossos bebês nascem antes do tempo, para que seus crânios dotados de cérebros bem desenvolvidos possam passar pelo canal vaginal. Se a gestação levasse o tempo necessário, morreríamos todos no parto, mães e bebês. Houve então essa adaptação evolutiva que nos diferencia dos demais mamíferos e de todos os seres viventes: nascemos incompletos e precisamos de cuidado intenso para sobreviver no início de nossa existência, ao contrário de outros animais, que já nascem saltitantes e em pouco tempo já podem caçar sozinhos. Quando não são capazes, as mães os abandonam.

A simbiose desenvolvida durante a gestação humana não termina, portanto, no nascimento. E ao mesmo tempo em que é exaustivo ter uma criatura que depende integralmente de nós, 24 horas por dia, é também algo de mágico experimentar uma conexão tão intensa com outro ser. Um ser que é outro, mas ainda é parte de nós.

Assim, compreendi: quando essa fase passar, vou sentir um alívio indescritível, e ao mesmo tempo serei tomada da saudade mais dolorosa da minha vida.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 25/06/2016, em pleno estado puerperal. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a autorização prévia da autora]

A maternidade não é um sepulcro

Meu puerpério foi muito difícil e pesado. Olhando para trás nem me reconheço naquele – felizmente curto – período. Leio os textos que escrevi e eles não parecem meus. Hoje sinto que muito da tristeza, da falta de confiança em mim mesma e do constante medo de errar que carreguei comigo no pós-parto foram fruto da violência obstétrica que sofri. Some-se a isso as alterações hormonais e as inseguranças normais da maternidade, e o resultado foi uma completa desconexão com minha intuição. Levei alguns meses para começar a ouvir a voz interior que hoje conduz a minha forma de maternar.

Superadas as dificuldades iniciais, ser mãe tem se revelado a cada dia a experiência mais deliciosa, rica e desafiadora da minha vida. Muita coisa mudou, e com certeza a maior parte delas foi para melhor. Abri mão de algumas coisas, mas ganhei muitas outras que nem imaginava.

Vida social, amizades, jantares, viagens, passeios culturais? Eu digo que tudo isso é possível e muito agradável com filhos. O ritmo pode ser diferente, algumas coisas são adaptadas a esse novo membro da família que merece o mesmo respeito que os adultos. Não vou obrigá-lo a dormir num cantinho numa festa, do mesmo modo que eu e o pai dele rejeitaríamos essa sugestão para nós se estivéssemos cansados e alguém insistisse para a gente ficar mais. Não fazemos nada sem estar a fim, e as vontades e necessidades do nosso filho têm o mesmo valor que as nossas (quando não mais).

Isso não quer dizer que não nos divertimos mais, ou que deixamos de fazer tudo que a gente curte. A gente se adapta ao bebê e o bebê se adapta à gente, construímos juntos uma nova rotina, sem apego à vida que levávamos antes da chegada dele, mas sem abandonar totalmente quem éramos. Equilíbrio é a chave.

Mas é muito, MUITO desagradável quando pessoas que pensam diferente – seja porque acham que temos que arrastar o bebê para qualquer programa e que ele “tem que se acostumar”, seja porque acreditam que temos que viver enclausurados – tentam impor sua visão ou ficam agourando nossa alegria.

Eu ouvi muita gente me dizer “aproveite para dormir agora, porque depois nunca mais” (como se fosse possível fazer banco de horas de sono), mas a verdade é que tenho dormido bem, obrigada. Meu bebê ainda mama algumas vezes por noite, em alguns períodos (saltos de desenvolvimento ou picos de crescimento) um pouco mais, mas fazemos cama compartilhada e as mamadas dele não me privam do meu sono. Depois que ele nasceu ouvi que devia aproveitar para sair enquanto ele só mamava, que depois da introdução alimentar era impossível. Hoje me pergunto se essas pessoas nunca viram uma banana. Basta levar uma fruta e água, além do meu peito, e o bebê estará nutrido por horas.

Li algo que a Debora Camargo escreveu e me identifiquei muito: quando as pessoas dizem “aproveite porque depois fica pior”, a impressão que dá é que elas estão torcendo para que a gente se dê mal só para elas provarem um ponto. Só para poderem dizer que não dá mesmo para viajar com crianças, que é impossível levá-las a um museu ou um concerto de música, que você tem SIM que se conformar que ser mãe é só sofrimento e renúncia.

E se você ousar continuar sendo feliz e satisfeita mesmo com filhos, essas pessoas vão dizer que é “sorte”. Ditas por determinadas pessoas, até coisas que todo mundo gosta de ter soam como algo pelo que a gente deveria se desculpar, como sorte, rede de apoio, dinheiro. Não é que você se esforça, planeja, tem um cuidado extra para conciliar o conforto e bem estar do seu filho com a sua alegria de viver e sanidade. É que você tem sorte. Não é que você batalha para realizar seus sonhos e se vira em mil pra dar conta de tudo, é que você tem rede de apoio. Não é que você prioriza viajar em vez de comprar um carro novo, é que você tem muito dinheiro pra torrar em viagens.

A dica é: se você vir alguém fazendo algo que você não imaginava ser possível, inspire-se! Acredite que você também é capaz de muito mais. Não permita que o seu medo se transforme em crítica ao modo de viver das outras pessoas.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 06/12/2016, às 10h50, enquanto o bebê tirava uma soneca. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]