A verdade que ninguém me contou

Sempre achei graça nos “cursos de mães e pais”. Hoje, que sou mãe, acho mais ainda. Não me entendam mal: considero útil qualquer tipo de preparação que faça os futuros pais e mães se sentirem mais seguros e confiantes para o exercício da árdua tarefa que lhes foi confiada. Mas não deixa de ser engraçada a tentativa de tentar ensinar algo sobre ser mãe ou pai.

Pode-se ensinar a trocar fraldas, preparar para o básico da rotina, avisar qual a temperatura correta da água para o banho, dar algumas dicas, apresentar os diferentes tipos de choro e ensinar a identificar o que significa cada um deles (sim, isso existe, mas não é essa fórmula mágica que parece: na prática existem 87 tipos não identificados que seu bebê inventará a cada dia para testar sua sanidade). Nada que não se possa descobrir sozinho ou pesquisando no Google.

O mais importante ninguém ensina. Sobre o mais assustador, ninguém nem fala. Sobre os sentimentos e as coisas feias que você vai pensar naquela madrugada insone, sobre os instantes de arrependimento que serão seguidos de muito choro de culpa. Isso é muito inapropriado para figurar no universo maravilhoso e santificado das mães.

Não existe curso para almoçar, escovar os dentes e lavar um copo usando uma mão só, porque a outra segura o bebê. Nem para dar a uma criança em movimento duas gotas da vitamina que não pinga quando você quer e quase jorra no nariz do bebê quando você já está desistindo. Não há aula preparatória para não se desesperar com um choro insistente, de perder o fôlego, quando você já tentou de tudo: dar mamá, trocar fralda, dar banho, colo, música clássica, massagem, óleos essenciais, embalo, tapinhas suaves e ritmados no bumbum, aplicativo com som de útero. Não encontrei tutoriais no YouTube explicando como superar o tédio de passar dias e dias sozinha olhando para o bebê sem conseguir fazer mais nada, recusando convites e apenas lembrando de como era ter uma vida social ativa. Livros não ensinam a superar a insegurança de sair de casa levando o bebê e toda a parafernália necessária para sustentar essa aventura insana. Ninguém explica como sobreviver dormindo um sono leve, breve e nada restaurador, acordando com cada movimento ou gemido no bercinho ao lado da cama. Ninguém nos prepara para a despedida das certezas que tínhamos, que vão ruindo uma a uma. Também não nos dizem de forma empática que tudo bem mudar de ideia em relação a algumas coisas que havíamos planejado (normalmente apenas torcem para que nossos planos falhem para poder dizer “viu só? Eu não disse que você não ia conseguir?”). Muito pouca gente admite que é normal ter sentimentos conflitantes e que eles não diminuem o amor infinito e incondicional que temos por nossos filhos.

O mais incrível é que, mesmo sem ninguém nos ensinar, a gente aprende. Na porrada, no sofrimento, mas aprende. E a cada lição aprendida na aspereza da rotina, outras mil dúvidas surgem, sem que haja um serviço de atendimento ao consumidor, um zero oitocentos para telefonar. A única ouvidoria que existe consiste nos ouvidos atentos de outras mães e outros pais que, porventura, tenham coragem de dividir suas angústias e compartilhar pérolas de sabedoria adquiridas às custas de lágrimas e suor. Não são lições doces e poéticas como as que se leem nos livros, nem parecem simples como as dos cursos preparatórios, mas gosto delas porque são verdadeiras.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 06/07/2016, ainda sob a influência nefasta dos hormônios puerperais. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

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Pérolas do puerpério

Assistindo a um episódio do programa da Chelsea Handler na Netflix sobre por que as pessoas têm filhos. A atriz Kate Hudson diz que os meninos costumam ser bem ligados à mãe, até que por volta dos 10 anos desenvolvem uma aversão e se afastam.
Olho para o Ivan dormindo no meu colo e caio no choro pensando que daqui a 10 anos ele pode sentir aversão a mim.

(Oksana Guerra, 16/06/2016)

Depois de semanas enclausurada em casa, a puérpera, atendendo a uma recomendação médica, deixa o bebê com a vovó por algumas horas e sai com o marido para espairecer. Deixa em casa tudo preparado: leite materno para a hora do mamá, fraldas para as trocas, recomendações para telefonar caso aconteça qualquer coisa. Veste uma roupa, põe maquiagem, o marido a acha linda (como fica diferente sem pijama!).

Vão ao shopping comprar um presente. Ela aproveita para ir a uma loja de que gosta, olha tudo, experimenta 8 peças. E leva… Um pijama.

(Oksana Guerra, 25/06/2016)

Essa é de alguns dias atrás, e esqueci de contar ou não tive condições de digitar, segurando o bebê no colo e tentando guardar os peitos no sutiã de amamentação com uma mão só (os fabricantes deviam facilitar esse negócio).
Depois de diversas noites de privação de sono e com a sanidade mental fortemente abalada, a puérpera decide esquentar água para fazer um chá. Em vez de selecionar o tempo de aquecimento, digita sua senha do banco no painel do forno de micro-ondas.

(Oksana Guerra, 26/06/2016)

Domingo, família toda pronta para um breve passeio no parque. Na porta do apartamento, a mãe da puérpera alerta:

– Filha, você vai de pantufas?

(Oksana Guerra, 05/07/2016)

O porteiro avisa pelo interfone que chegou encomenda. A puérpera reflete por uns segundos e conclui que, sim, pijama é um traje socialmente adequado para ir à portaria receber o pacote.

(Oksana Guerra, 06/07/2016)

Um dia eu fui uma mãe perfeita. Mas aí meu filho nasceu. Fim.

(Oksana Guerra, 06/07/2016)

[Essas pérolas são de autoria de Oksana Guerra e foram originalmente publicadas em seu perfil pessoal no Facebook nas datas indicadas]

Um mês

Hoje faz um mês que você chegou! Enfrentamos juntos algumas batalhas, momentos difíceis, mas superamos tudo com muito amor! A cada dia seu pai e eu estamos nos adaptando melhor, dormindo um pouquinho mais, e sempre curtindo muito essa pessoinha linda com que o universo nos presenteou. Que já presta atenção a tudo à sua volta, reconhece nossas vozes desde o primeiro dia, quase sustenta a cabecinha sozinho, é muito ativo e esperto. E, acima de tudo, adora um colinho! A maior certeza que tenho é de que o amor que sinto por você é infinito e capaz de tudo!
Parabéns, filhote, pelo seu primeiro mesversário! Desejo muita saúde e alegria, meu amorzinho!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 21/06/2016. É curtinho e simples, porque o cérebro estava ocupado demais em assegurar a sobrevivência materna durante o puerpério, não sobrando grande disposição literária. Mas é cheio de amor, e é proibida sua reprodução parcial ou total sem a prévia autorização da autora]

Exterogestar: como dói amar assim

Conversávamos, minha mãe e eu, sobre as primeiras semanas do recém-nascido. Como são exaustivas, como o bebê suga as energias maternas reduzindo a mulher a um simulacro do que um dia foi. Ninguém nos prepara para essa missão, nem há mesmo como preparar. A prática é diferente, mais assustadora e cruel do que qualquer teoria.

Aí algumas pessoas dizem: “aproveite, essa é a melhor fase e passa muito rápido”. A melhor? Estou em cacos. Nunca estive tão cansada.

Então minha mãe disse que o fator de que se sente falta depois, quando passa, é a dependência total e absoluta do bebê em relação à mãe. E eu perguntei: “mas não é essa a pior parte?”

No fundo eu mesma já conhecia a resposta para essa pergunta. É, sim, a pior parte. É a melhor também. É ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. É o maior erro e o maior dos acertos da natureza. Nossos bebês nascem antes do tempo, para que seus crânios dotados de cérebros bem desenvolvidos possam passar pelo canal vaginal. Se a gestação levasse o tempo necessário, morreríamos todos no parto, mães e bebês. Houve então essa adaptação evolutiva que nos diferencia dos demais mamíferos e de todos os seres viventes: nascemos incompletos e precisamos de cuidado intenso para sobreviver no início de nossa existência, ao contrário de outros animais, que já nascem saltitantes e em pouco tempo já podem caçar sozinhos. Quando não são capazes, as mães os abandonam.

A simbiose desenvolvida durante a gestação humana não termina, portanto, no nascimento. E ao mesmo tempo em que é exaustivo ter uma criatura que depende integralmente de nós, 24 horas por dia, é também algo de mágico experimentar uma conexão tão intensa com outro ser. Um ser que é outro, mas ainda é parte de nós.

Assim, compreendi: quando essa fase passar, vou sentir um alívio indescritível, e ao mesmo tempo serei tomada da saudade mais dolorosa da minha vida.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 25/06/2016, em pleno estado puerperal. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a autorização prévia da autora]