What about Breakfast at Tiffany’s?

MPW-13067

Um dia desses, conversando com uma amiga de longa data, percebi que, de uma amizade intensa que vivemos no passado, restaram muito poucos pontos em comum. Conforme amadurecemos, definimos com mais propriedade as ideias em que acreditamos e estabelecemos com mais convicção nossos princípios. E nesse processo, fomos parar em pontos bem distantes um do outro.

Antigamente era fácil ter tudo em comum com alguém. Já tínhamos, claro, alguns princípios filosóficos, sociais e políticos que nos interessavam e, quiçá, guiavam nossas atitudes. Mas não tínhamos muita certeza de nada, e nem apresentávamos pontos de vista referente a eles com muita frequência. Outros interesses urgiam e se sobrepunham aos demais: festas, namoros, o início de nossa vida profissional, os estudos, planos para o futuro.

Hoje, além de já termos mais consciência de quem somos, ainda contamos com um agravante: o Facebook. Numa mesa de bar, jamais teríamos a oportunidade de expor tanto sobre nossas crenças pessoais como fazemos na rede social. Ninguém cogitaria levar uma revista para o boteco para mostrar aos amigos dizendo: “gente, leiam esse artigo aqui, eu curti”, só para dar um exemplo. Não é raro eu sofrer de profundo desapontamento ao ver na rede os pensamentos dos quais compartilham meus amigos, e tenho certeza de que muitos deles sentem o mesmo em relação a mim.

É evidente, porém, que o fato de pensarmos diferente não impede que sejamos amigos. Aliás, é enriquecedor relacionar-se com distintas pessoas, conviver com variadas formas de pensamentos, conhecer diversas crenças, gostos e ideias.

Mas de vez em quando olho para alguém e me pergunto: o que foi que sobrou? Temos ainda algum alicerce no qual se sustente nossa amizade, por mais superficial que ela tenha se tornado?

Sempre temos alguma coisa em comum com alguém. O gosto musical. Aquela série de TV. O ódio por pessoas que palitam os dentes. O sarcasmo. O apreço pelo linguajar culto. O amor por gatos. O interesse por determinado assunto. Algum posicionamento político. O humor. A crença espiritual. A cerveja. Paris. E existem ainda aquelas pessoas que nos atraem pelas diferenças, que, quando não agridem, somam. Quando conseguimos nos despir dos preconceitos, pode ser no mínimo elucidativo o convívio com alguém que vive de uma forma diferente da que acreditamos ser a correta.

É preciso sempre manter calibrada nossa balança, para verificar se o que sustenta um relacionamento ainda vale a pena. Quando a postura do outro é um insulto às suas mais preciosas convicções, talvez seja melhor se afastar.

Se não é esse o caso… O que você achou de Breakfast at Tifffany’s?

Anúncios

Amar dói?

love can hurt

 

(Atenção: o vídeo contém imagens não recomendadas para crianças. E é melhor não ver no seu trabalho)


 

Gosto de uma música chamada “Only love can hurt like this” (Só o amor pode machucar assim). Gosto da sonoridade, da voz da intérprete (Paloma Faith), do clipe. Mas sei que o que diz a letra não é verdade, porque o amor não dói, nem fere.

Você lê isso e instantaneamente brotam em sua memória lembranças sofridas, de relacionamentos passados e talvez até do atual. Quem sabe você lembre da briga que teve na semana passada. Começou como uma discussão boba, mas terminou com seu coração doído. Chorando no chuveiro, com uma sensação de abandono. Ou rolando na cama, tentando entender o que aconteceu. E você pensa que estou falando bobagens e Paloma Faith é que sabe das coisas, porque só o amor consegue machucar desse jeito.

Eu insisto: o amor não machuca. Mas eu jamais disse que relacionamentos não o fariam.

Quando duas pessoas decidem dividir entre si o melhor de si mesmas, é inevitável que tragam também o pior. Mesmo que queira, acima de qualquer coisa, o bem de quem ama, eventualmente você o fará sofrer. E haverá dor para você também.

O que fere, no entanto, não é o amor. É a insegurança. É o ciúme. É a sua dificuldade em lidar com críticas. É a falta de sensibilidade do outro ao fazer uma crítica. É a intolerância. É a impaciência. São os defeitos que trazemos conosco para o relacionamento, e que vêm à tona no exercício da convivência.

O que é o amor, então? E onde ele se esconde enquanto o relacionamento pega fogo?

O amor é a força que move o arrependimento sincero quando percebemos que uma atitude ou palavra nossa causou sofrimento em quem amamos. É a energia que nos envolve motivando o perdão. É o calor do abraço na reconciliação. Essa dor que você sente não é amor. O amor é a cura. É o “bom dia” acompanhado de um sorriso a cada despertar. É dividir a coberta no sofá ao notar que o pé do outro está gelado. É oferecer um carinho, um cuidado, um copo d’água ou o auxílio financeiro de que o outro está precisando naquele momento. É ir ao mercado e lembrar que o cereal dele acabou. É comer só metade do último pãozinho.

O amor pode se revelar, sim, em grandes gestos. Mas ele se manifesta com maior frequência nos detalhes que passam despercebidos na rotina. Durante as turbulências ele aguarda, paciente, pelo momento de fazer sua mágica. Ele não se desgasta tentando brilhar onde não há pessoas dispostas a colocá-lo em prática.

Quando permitimos, porém, o amor nos toma e nos move. Ele nos conduz e nos guia. O amor nos acalenta ao ponto de acreditarmos que aquela discussão boba na semana passada foi a última vez que choramos ou perdemos o sono. Não é verdade. Sofreremos novamente. Feriremos outra vez. Mas não é por mal que o amor nos leva a crer numa ilusão. Ele quer apenas acreditar que seremos melhores.