2016: uma retrospectiva para Ivan


Filho amado,

Está chegando ao fim o ano em que você nasceu. 2016 tem muitos críticos, mas não se assuste, meu amor: minha memória é boa o suficiente para lembrar que, no ano passado, quando você morava ainda na minha barriga, muitas pessoas clamavam “acaba logo, 2015”, e o mesmo aconteceu com os anos antecedentes.

E não será diferente com 2017. Eu sei que é estranho, filho, mas as pessoas conservam a crença de que a vida nesse planeta não está difícil por causa delas próprias, mas sim por culpa de uma folha no calendário.

Para mim, essa fatia de tempo que chamamos de 2016 ficará para sempre marcada como o ano em que tudo mudou porque você chegou.

Comecei o ano repleta de expectativas. Seu pai e eu viajamos, saímos muito, registramos em fotografias o crescimento da minha barriga. Ele me acompanhou às consultas médicas, exames e se emocionou sempre que sua imagem apareceu no ultrassom. Choramos juntos de alegria ao ouvir seu coração pela primeira vez.

Passei por momentos estressantes no trabalho. Com você morando em mim e os hormônios trabalhando intensamente, foi mais difícil que nunca ter que tolerar indelicadezas gratuitas. Várias vezes eu me escondia no banheiro para chorar, e achava que não ia suportar até o início da minha licença.

Eu me preparei muito para receber você, mas confesso que romantizei um tanto sua chegada. Cometi o erro de acreditar que, por ter planejado muito, estava tudo sob o meu controle. Mas nada estava. Descobri isso da pior forma, e conheci a maior dor do mundo: ver você sofrer.

Conhecemos de muito perto a maldade humana e o despreparo de uma profissional que jamais deveria trabalhar com pessoas, muito menos com mulheres em trabalho de parto. Fui abandonada, num momento de intensa dificuldade, por pessoas em quem confiei demais. Senti o maior medo que uma mãe pode sentir, o de perder um filho. Enfrentei com você a UTI, o julgamento, a culpa. Suportei dores terríveis para passar horas ao seu lado, sem cansar. Quis morrer cada vez que espetavam uma agulha em você. Tive vontade de tirá-lo da incubadora e correr com você nos braços até a nossa casa.

Os primeiros meses não foram fáceis. O puerpério foi sombrio. Minha confiança estava dilacerada e eu não conseguia ouvir a minha intuição. Tinha muito medo de errar, de falhar de novo com você. Cedi a conselhos equivocados e isso quase nos custou a sua amamentação. Lutei de forma ferrenha, empenhei todos os meus esforços porque eu não ia perder mais essa batalha. Vencemos!

Depois do seu terceiro mês, tudo mudou. A cada dia foi ficando mais fácil. Ou não. Os desafios continuaram, mas eu fiquei mais forte. Reencontrei a confiança perdida. Voltei a olhar no espelho e ver a mulher que você merece como mãe.

E é com muita alegria que tenho acompanhado o seu desenvolvimento. Como digo sempre no seu ouvido: você é muito amado, é lindo, inteligente, esperto, amoroso, carinhoso, corajoso, você é uma pessoa do bem. Traz luz no seu sorriso e paz no seu olhar. Você é especial.

Filho, sou grata a você por ter me ensinado mais sobre o amor nesse ano da sua chegada do que eu aprendi em toda minha vida. Meu amor por você é tão grande que transborda esse eixo mãe-filho: sobra muito para sentir por mim mesma, por seu pai, por sua avó e todos os nossos antepassados. Pelos amigos, pelas mulheres maravilhosas que formam uma rede de apoio fantástica. Sobra amor para dividir com todas as pessoas que estão por aqui desde sempre e com as que entraram em nossa vida nesse ano.

No mundo lá fora aconteceu um montão de coisas ruins. Golpes, guerras, crimes, muita maldade. Em alguns dias temos a impressão de que o mal está vencendo. Mas aqui dentro, graças a você, eu renovo minha fé no bem. Você é uma semente dele, meu amor. Você e seus amiguinhos, crianças amadas que estão sendo criadas de um jeito diferente, com amor e respeito, com potencial para trazer a esse mundo um pouco mais de luz.

Com você por aqui, só posso agradecer por esse ano em nossas vidas, e tenho certeza de que 2017 será um ano ainda mais incrível para nós.

Amo você, filhote!

Mamãe

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Bom dia!

Outro dia, minha professora de Yoga falava sobre mantras: mesmo que não saibamos o que querem dizer as palavras em sânscrito, entoá-las gera efeitos positivos. Quando conhecemos e refletimos sobre o significado, porém, os resultados são muito mais intensos.

Hoje, caminhando para o escritório como faço todas as manhãs, ocorreu-me que é assim também com outras coisas que dizemos por hábito, como um gesto mecânico ao qual não damos atenção. Como a expressão “bom dia”. Apenas dizê-la já tem seu efeito sobre quem diz e sobre quem ouve. É sinal, no mínimo, de cortesia. Mas é possível fazer mais que apenas pronunciar as palavras. Pensando nisso, ao me dirigir a cada uma das pessoas que costumo cumprimentar no meu caminho, experimentei empregar significado à saudação.

Começando pelo porteiro do meu prédio, passando pelo gari, até chegar à secretária do escritório, eles talvez não tenham notado diferença, mas eu não apenas lhes disse “bom dia”. Desejei de verdade que fosse bom para eles – para nós – o dia que começava. Já ao taxista que me lança olhares lascivos, o “bom dia” teve significado diferente. Desacompanhado de sorriso e pronunciado em tom seco e repreensivo, esse serviu para dizer: não me olhe como se eu fosse coisa, pois sou gente. Ele notou a diferença e respondeu baixinho, acabrunhado, quiçá arrependido.

Palavra é manifestação verbal de um pensamento. Quanta coisa cabe dentro de um “bom dia”!