Uma canção para meu sonho

Eu tenho um sonho. Tenho vários, aliás. Do tipo que se sonha de olhos abertos. Que nos pega desprevenidos e fixa nossos olhos num ponto aleatório, com cara de bobos. Meu sonho me distrai durante o trabalho. E o trabalho me distrai do meu sonho.

Deve haver algo de errado na programação do meu cérebro, porque dedico todo meu tempo ao trabalho e outras atividades, e não sobra nada para o sonho. Os motivos são claros: primeiro, preciso de dinheiro e segundo, tenho uma responsabilidade com as pessoas que me pagam. E o sonho, onde fica? Engavetado, alguém diria. Mas é uma gaveta sem chave, entreaberta, e o sonho escapa de lá todo dia para eu lembrar que ele existe.

As músicas que ouço falam dele. Os textos que leio me dizem que era isso que eu deveria estar vivendo. Ele aparece na TV, no cinema, no meio do filme que estou vendo. As pessoas falam dele nas redes sociais só para me provocar. Tem gente com muito menos preparo por aí vivendo meu sonho, descaradamente! Eu tento adequar meus planos para encaixar o sonho na rotina atribulada, mas ele não cabe, é muito maior que ela. Se eu aparar as pontinhas, apertar um pouco aqui, um tanto ali, quem sabe? Mas, espere… Tenho a experiência de toda uma vida para concluir que encaixotar o sonho me conduzirá exatamente ao ponto em que me encontro hoje, e nem um passo além.

A honestidade exige que eu me pergunte, porém: será mesmo que o trabalho é o grande vilão mantendo meus anseios mais profundos presos no alto de uma torre guardada por um dragão? Não vejo de que modo as horas gastas vendo minhas séries favoritas na TV estão me aproximando da realização dos meus projetos. Se ao menos o sonho da minha vida fosse um corpo sarado, talvez fosse mais fácil dispor do famoso trinômio “força, foco e fé” – parece que é inserido pela fábrica, em forma de hashtags, na composição do Whey Protein.

Além da organização e da disciplina que me faltam, eu sei, no fundo eu sei que existe ainda mais uma razão, e é a mais feia de todas. O medo. De arriscar. De falhar. De errar. De não ser tão incrível quanto penso que sou. De me expor. De fracassar.

Nos devaneios, enquanto os olhos pousam num horizonte imaginário e eu fico sem piscar, vejo o sonho como realidade. Vejo-me vivendo isso. Mas não vejo o processo para chegar até lá. O processo é chato. Exige dinheiro, tempo e paciência. Exige esforço e dedicação. Exige calar o ego e encarar os riscos. Exige. Às vezes jogo na mega-sena, e saio da casa lotérica imaginando como tudo seria tão mais fácil se eu acertasse aqueles números. Mas isso já é outro sonho.

Hoje decidi oferecer uma canção ao meu grande sonho. Para que ele saiba que não está esquecido. Que estou pensando nele, o tempo todo. Que vou, sim, tirá-lo da gaveta. Que ele vai ser minha realidade. Meu ritmo pode ser lento, mas estou em movimento. Aguente firme, que eu estou chegando.

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Sobre a obrigação de realizar todos os sonhos da sua vida ainda hoje

Não é novidade o processo histórico e as circunstâncias que moldaram as gerações conhecidas como dos veteranos, dos baby boomers, x, y, z e sopa de letrinhas. E a não ser que você tenha vivido entre os lobos ou isolado numa caverna nos últimos anos, certamente deve ter notado a proliferação da propaganda da felicidade.

Campanhas publicitárias, artigos, crônicas, livros de autoajuda, blogs e postagens simpáticas no Facebook ordenam o tempo todo: seja feliz! Largue seu emprego! Faça um ano sabático! Seja o que você quer ser! Realize seus sonhos! Não fique parado, você não é uma árvore! Vá à luta! Chute o balde! Não ligue para o que pensam! Nem para o que dizem! Seja você mesmo! Mas seja mais legal do que você é! E ninguém precisa dizer, porque você já entendeu: todos esses comandos trazem implícita a palavra AGORA.

Miscelânea de frase encorajadoras da internet (se você é dono de uma dessas imagens e não quer vê-la aqui, apenas solicite que eu a removerei)
Miscelânea de frase encorajadoras da internet (se você é dono de uma dessas imagens e não quer vê-la aqui, apenas solicite que eu a removerei)

E você fica aí, frustrado, sentindo que é a única pessoa medrosa que ainda não largou a sua jornada de 40 horas semanais para viver uma grande aventura de bicicleta pelo Nepal. Acreditando que a areia dentro da cruel ampulheta do seu tempo de vida está quase alcançando suas narinas e você não fez nada de incrível. Não escalou o Everest, não ganhou um prêmio Nobel, não virou astronauta, seu nome não está nem no Guiness. Você ainda quer ter filhos, preferencialmente morando perto da sua mãe. Adotar um bicho de estimação, ou vários. Morar em outro país. Dar a volta ao mundo. Praticar esportes radicais. Não só mudar de emprego, mas virar um nômade digital. Fazer exercícios físicos com mais assiduidade e se alimentar melhor. Mas também experimentar vinhos e cervejas importadas. Ter uma vida social ativa. Passar mais tempo com os amigos. E passar um período num Ashram na Índia, só meditando. Morar num vilarejo remoto no sul da França. E num apartamento bem localizado em Manhattan. E numa casinha de frente para o mar em Santorini. E tudo isso tem que ser pra já. O símbolo do tempo deixou de ser um relógio: é uma chibata.

Caso ou compro uma bicicleta?
Caso ou compro uma bicicleta?

A internet nos deu acesso a milhares de sonhos. E a propaganda nos diz que se ainda não os conquistamos a razão é uma só: somos medrosos. Na verdade é só uma adaptação do padrão do fracasso por sua culpa exclusiva. As gerações anteriores sempre tiveram esfregado nas suas faces o modelo do sucesso: ter um emprego estável, patrimônio amplo, garantir a segurança da família e desfrutar ao fim da vida de uma confortável aposentadoria. Muita gente não conseguiu isso, pelos motivos mais variados. Mas a explicação da propaganda era uma só: essas pessoas não se esforçaram o suficiente. Se fossem trabalhadoras de verdade teriam conseguido tudo.

Hoje os anseios são outros. A antigamente tão sonhada estabilidade no emprego foi substituída por uma “forma criativa de ganhar dinheiro fazendo o que você ama”. Você vai ouvir de muita gente que os bens materiais não significam nada: o que enriquece mesmo é a experiência. Mesmo que as pessoas que dizem isso sejam proprietárias de imóveis, automóveis e variados fundos de investimentos. E se você não está vivendo intensamente o seu sonho, sinto muito, a culpa é toda sua.

A cada dia, mais pessoas absolutamente livres para fazer o que bem entendem de suas vidas se sentem absolutamente tolhidas pela obrigação premente de ser, hoje mesmo, a materialização de todos os seus potenciais. A pressão para ser extraordinariamente feliz o tempo todo é uma das maiores causas de infelicidade.

Tenho a impressão de que houve uma pequena falha na transmutação dos anseios por estabilidade e conforto das gerações anteriores para os desejos de aventura e liberdade de hoje: a noção de tempo também precisa ser modificada. Antigamente as coisas tinham um momento certo para serem realizadas. Seguir o roteiro era uma questão de sobrevivência. Era preciso estudar, arranjar um emprego, casar, ter filhos, construir um patrimônio e se aposentar. Não havia muito espaço para digressões, a não ser que a pessoa tivesse nascido muito rica (o que continua fazendo diferença).

Atualmente, até mesmo a maternidade pode ser protelada. É claro que os riscos da gestação aumentam proporcionalmente à idade, mas já é quase um consenso que o processo tende a ser mais fácil quando a mulher já está num momento mais tranquilo de sua vida. Antigamente a menarca anunciava o início do ciclo reprodutivo que se encerraria com o esgotamento das condições da mulher de seguir engravidando e parindo. Hoje, fora o desejo da sua mãe e da sua sogra de serem avós, nada pode impedir uma mulher de esperar pelo momento em que se sentir preparada para dar esse passo.

Já se foi o tempo em que era preciso trabalhar até não aguentar mais porque sua produtividade acabava por volta dos 60 anos, quando uma pessoa não tinha mais o que oferecer à sociedade. A expectativa de vida é cada vez mais alta e os avanços da medicina asseguram que possamos chegar mais longe também com mais saúde e disposição. Muitas pessoas “idosas” são absolutamente ativas, produtivas, e mais: estão curtindo a vida!

O meu ponto não é simplesmente ir na contramão da propaganda e dizer: acomode-se! Agarre-se com unhas e dentes ao emprego que você odeia! Acumule bens materiais e prenda-se a eles! Esqueça seus sonhos! É evidente que não.

O que quero mesmo dizer é: não se desespere! O tempo não está contra você. Se alguns dos seus sonhos forem realizados só daqui a 20 ou 30 anos, não tem problema! A ansiedade por realizar todos eles ainda hoje, além de não ajudar em nada, impede que você desfrute suas conquistas e aproveite o presente. Não é feio celebrar uma promoção, mesmo que ainda não seja no trabalho dos seus sonhos. Enquanto sonha com a Times Square, não deixe de aproveitar as coisas incríveis que podem estar acontecendo agora mesmo na sua cidade. Seu apartamento pode não ter vista para a Torre Eiffel, mas isso não significa que ele não possa ser o lugar mais gostoso do mundo pra você.

E existe um pecado ainda mais grave do que não saber comemorar suas vitórias nem curtir o presente, que é deixar de valorizar as pessoas ao seu redor. Esse sim é o maior patrimônio que você pode construir na vida, e não vale a pena deixar de zelar pelos relacionamentos em razão de uma busca desenfreada pela satisfação de desejos que mudam de um dia para o outro. Quem viu o lindo longa de animação Up (um dos meus filmes preferidos) talvez se lembre de um símbolo pungente disso que a película mostrou.

O casal formado por Carl e Ellie Fredicksen, ainda na infância e ao longo da juventude, cultivava sonhos de aventuras incríveis numa terra distante e misteriosa, Paradise Falls. Ellie tinha um álbum de recortes e fotografias, chamado de “Adventure Book” (Livro de Aventuras), e os dois poupavam todo dinheiro que podiam para empreender a fantástica viagem de seus sonhos. Ao longo da vida, enfrentaram alguns infortúnios e tiveram necessidades urgentes que faziam a poupança retornar à estaca zero. Lá para o final – SPOILER ALERT: se você não viu (QUE VERGONHA!) e ainda pretende ver o filme, talvez deva pular o final desse parágrafo e também o próximo – o velho Carl acredita que a vida de Ellie terminou sem que ela tivesse preenchido a melhor parte do seu livro.

Isso foi só porque ele ainda não tinha virado a página (chega a ser linda de tão óbvia essa metáfora) para ver que ela tinha preenchido aquelas folhas com uma série de momentos importantes que eles viveram juntos. Sim, Ellie queria ser uma exploradora da vida selvagem em Paradise Falls. Mas enquanto sonhava, ela não deixou de aproveitar cada momento feliz e, especialmente, de valorizar o amor de quem esteve sempre ao seu lado. Essa foi sua grande aventura. Droga, já estou chorando, lembrar de Up sempre tem esse efeito em mim.

Até pouco tempo eu andava surtando com a pressão de realizar tantos dos meus sonhos, muitos deles aparentemente incompatíveis entre si, e tudo pra ontem. Já passei dos 30, e nos variados grupos sociais dos quais faço parte a pressão é a mesma, o que muda é o foco: para a família, já passei da hora de engravidar. Para o chefe, deveria estar captando clientes ou mostrando um nível mais elevado de compromisso profissional. Para algumas pessoas, eu devia vender minha casa e investir o dinheiro. Para outras, eu devia era comprar mais imóveis. Há quem pense que eu devia vender tudo e cair no mundo. Muita gente me vê como um talento desperdiçado, mas ninguém sabe me dizer quem quer me pagar para colocar em prática esse talento. Alguns acham que preciso me dedicar mais aos exercícios físicos. E há quem me assegure que nada disso realmente importa: preciso mesmo é cuidar das coisas do espírito. A pressão é tanta, que o mais fácil é… Simplesmente não fazer nada!

De repente comecei a me inspirar no exemplo de pessoas que estão fazendo grandes coisas em momentos da vida que muita gente duvidaria! Gente que muda de profissão aos 40. Que faz o Caminho de Santiago aos 50. Que dá a volta ao mundo de bicicleta com 4 filhos. Que dá aula de Yoga aos 96 anos de idade. Não sei você, mas eu pretendo viver muito ainda, e com bastante saúde! Então, fiz as pazes com o tempo. Depois que nos reconciliamos, ficou mais fácil administrar a ansiedade e curtir o dia de hoje.

Martin Glauer, de 30 anos, e a mulher Julie, de 40, deram a volta ao mundo de bicicleta, levando seus filhos Moses (5 anos), Caspar (4 anos), Turis (2 anos) e Herbie (9 meses).
Martin Glauer, de 30 anos, e a mulher Julie, de 40, deram a volta ao mundo de bicicleta, levando seus filhos Moses (5 anos), Caspar (4 anos), Turis (2 anos) e Herbie (9 meses).

Talvez (apenas talvez) eu não consiga realizar todos os meus sonhos. Mas saber que posso mudar de ideia a qualquer momento e vivenciar uma aventura diferente depois da outra me tranquiliza. A realização de um sonho não precisa ser um projeto definitivo. Então o melhor que posso fazer é aproveitar o momento e viver com intensidade tudo que posso desfrutar dele. De preferência ao lado das pessoas que fazem tudo isso valer a pena.

Tao Porchon-Lynch, aos 96 anos de idade.
Tao Porchon-Lynch, aos 96 anos de idade, considerada a professora de Yoga mais velha do mundo. ♥

Oksana Guerra

O que eu quero

Para ouvir enquanto lê o texto:

Há uma diferença entre o que queremos e o que pensamos que queremos. Entender essa diferença é essencial para a satisfação pessoal. 

Segundo conta uma lenda corporativa, quando a Sony estava produzindo o primeiro modelo de Walkman, um grupo de pessoas foi convidado para ajudar a decidir a cor do aparelho. As opções eram: amarela ou preta. O grupo logo concordou que compraria o amarelo, que era muito mais esportivo e interessante que o preto, tão comum. Como forma de agradecimento pelo tempo e atenção dos voluntários, a Sony teria oferecido a eles um Walkman de brinde, deixando uma mesa de cada lado da porta de saída, uma com os modelos na cor preta e outra com os aparelhos amarelos. Com exceção de uma pessoa, todas as demais pegaram um Walman preto.

Não me lembro onde ouvi ou li essa história pela primeira vez. Mas, numa das fontes disponíveis, o autor faz a sua própria interpretação dos possíveis motivos pelos quais as pessoas disseram que queriam uma coisa e acabaram escolhendo outra. Segundo ele, as pessoas teriam ficado com vergonha de admitir perante o moderador do grupo que não gostaram do Walkman amarelo, porque isso seria rude. Além disso, elas não teriam coragem de discordar publicamente do grupo.

Com todo respeito à opinião citada, ouso discordar. Acredito que as pessoas disseram preferir o amarelo porque gostariam de ser as pessoas que escolheriam aquele modelo. Pessoas esportivas e fora do comum. Que se atrevem, que se arriscam, que não se importam com o que os outros vão pensar. Porém, chega a hora de efetivamente fazer uma escolha e elas preferem o caminho mais seguro.

Manter-se na zona de conforto é tão automático que tenho até minhas dúvidas se isso deve ser chamado de “escolha”. Se você faz o mesmo caminho de casa ao trabalho todos os dias, e numa determinada manhã decide fazer um percurso alternativo, precisa ficar mais atento que de costume enquanto dirige, caso contrário fará o trajeto de sempre sem nem perceber. 

É muito provável que essa tendência a escolher a opção mais prudente seja um resquício evolutivo dos perigos presentes em nosso ambiente ancestral. Através da seleção natural, sobreviveram os genes que assegurariam a sobrevivência num ambiente inóspito.

Não há mais animais selvagens à espreita. Sim, há muitos perigos lá fora, mas nenhum deles me paralisa de verdade. Se existe algo que pode me manter bem distante dos meus sonhos, é a falta de ânimo para vencer a inércia, a falta de coragem de fazer diferente, a preguiça, a falta de vontade. Estar acomodado não significa estar contente. Num dia frio, o esterco fresco e quente pode ser a salvação de um pé descalço. Nem por isso enfiar o pé na merda virou a definição da felicidade.

Hoje vou de Walkman amarelo.

Imagem do comercial de lançamento do Xperia pela Sony.
Imagem do comercial de lançamento do Xperia pela Sony.