9 dias sozinha no Peru – Nasca

Os nazca (a palavra com “z” se refere à civilização, e com “s” à cidade atual, mas não é uma regra absoluta e em cada lugar está escrito de um jeito) foram uma civilização pré-inca que se desenvolveu entre 300 a.C e 800 d.C no sul do atual Peru, especialmente em torno da cidade de Cahuachi, que foi o seu centro religioso e político. Por razões que desconhecemos, os nazca abandonaram Cahuachi e construíram outras cidades em diferentes regiões.

Esse povo desenvolveu artigos de ouro, cerâmica e elaborados trabalhos têxteis, mas o maior destaque de seu legado são os gigantescos desenhos de animais, plantas e formas geométricas traçados no deserto. Por suas dimensões, essa obras só podem ser vistas do céu. Por isso, na manhã do dia 25 de julho, embarquei numa pequena aeronave, com espaço para apenas quatro passageiros, além do piloto e do copiloto.

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O hostel em que me hospedei.

Eu já havia feito a reserva na noite anterior, ao chegar ao hostel. O voo custou US$ 70,00, além de uma taxa de embarque de 25 soles. O horário dependeria das condições climáticas. Acordei umas 8h e Jesus me disse — refiro-me ao recepcionista e não ao nosso Senhor — que passariam para me buscar às 9h. Ajeitei minhas coisas e não tomei café-da-manhã: essa é a recomendação para não passar mal durante as manobras bruscas do aviãozinho.

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No aeroporto, esperei em torno de uma hora até ser chamada para a sala de embarque. Os passageiros são distribuídos de acordo com o peso (a gente tem que se pesar antes de embarcar). Recebemos fones de ouvido para ouvir o piloto  durante o voo. Ele vai apontando os desenhos e dando informações.

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O vale e o deserto, vistos do avião.


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Os geóglifos se estendem por uma área de 50 quilômetros de comprimento por 15 quilômetros de largura. Acredita-se que as linhas tenham sido traçadas entre 400 e 650 d.C. A maior parte delas se encontra preservada, graças ao clima extremamente árido e ao isolamento da região. São desenhos rasos (em torno de 6 centímetros de profundidade), feitos através da remoção do óxido de ferro marrom-avermelhado revestido por pedras que cobrem a superfície do deserto de Nazca. Com isso, forma-se o contraste com a terra de cor clara que surge ao retirar-se o cascalho.

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A Carretera Panamericana Sur corta o deserto e destruiu muitos dos desenhos.

Somente a partir de 1930, quando as pessoas começaram a viajar de avião sobre o deserto, as linhas foram identificadas. Antes disso, foi construída a Carretera Panamericana Sur, a rodovia que corta o deserto, destruindo muitos dos desenhos. Em 1994, a UNESCO os designou como Patrimônio Mundial.

O aviãozinho vira de um lado para o outro, inclina bastante, fazendo manobras radicais para que os passageiros de ambos os lados consigam ver os desenhos. Naturalmente, apenas alguns são selecionados para ser vistos durante o voo, pois são centenas de linhas simples e formas geométricas, e mais de setenta desenhos de animais, aves, peixes e figuras humanas.

Como os nazca não possuíam escrita e não se tem notícia de seus descendentes para transmitir a história oralmente, proliferam teorias para tentar responder as perguntas que os desenhos despertam, especialmente como e por que foram feitos. Alguns estudiosos acreditam que eram uma espécie de oferenda, a fim de pedir água paras os deuses. Os guias da região riem dessa teoria, que eu também acho bastante ingênua. Os caras viveram na região por séculos, construíram aquedutos elaborados e sabiam exatamente onde buscar água. Eles sabiam que, literalmente, ela não ia cair do céu: chove em torno de 20 minutos POR ANO em Nasca.

De acordo com a maior parte dos guias, os desenhos e as formas geométricas apontam para cidades, centros religiosos e também para montanhas e outras formações naturais que possuíam um caráter espiritual para os nazca. Acredita-se também que eles podem constituir algum tipo de calendário astronômico. Um detalhe interessante é que a maior parte dos animais representados nos desenhos não existem nem jamais existiram na região, o que prova que os nazca, assim como eu, gostavam bastante de viajar. ☺

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A baleia.

Entre os desenhos que eu vi, havia uma baleia, um beija-flor estilizado, uma aranha, um macaco, uma figura humanóide conhecida como “o astronauta”, entre outras. Os maiores têm quase 3oo metros.

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Uma das figuras mais bonitas é o colibri.

Almocei num restaurante simplesinho. Comi uma saladinha de entrada, e massa com ají, um molho apimentado muito saboroso. O prato acompanhou um copo de suco, tudo por 8 soles. Depois voltei ao hostel para esperar o meu passeio da tarde. Havia reservado o tour de buggy pelo deserto, aquele que eu pretendia fazer em Huacachina e desisti por falta de tempo.

O passeio, que custaria 75 soles, incluía, além da aventura no deserto, uma visita a uma pirâmide da região (que não era a famosa de Cahuachi) e um cemitério antigo, também genérico, pois não era o de Chauchila. Porém, na hora que deveriam me buscar para o tour, o rapaz apareceu para avisar que ele havia sido cancelado, pois as outras três pessoas que o fariam comigo estavam passando mal desde o voo sobre as linhas de Nazca, pela manhã. Que frustração!

Consegui ainda me encaixar num passeio para visitar o centro de Cahuachi, que acabou sendo bem interessante. Fomos em três pessoas com nosso simpático guia. No caminho, ele parou num local e nos convidou a descer do carro. Começamos a andar pela areia, e por toda parte se viam ossadas humanas. Ele explicou que ali havia um cemitério, debaixo de toda aquela areia. Pessoas reviram o local em busca de objetos de valor, abandonando os ossos. Não há nenhum cuidado ou investimento pelo governo.

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Ossadas da civilização pré-inca, fragmentos de cerâmicas e tecidos, expostos e abandonados.

Mesmo o cemitério de Chauchila, famoso por suas múmias bem conservadas – expostas, a céu aberto – cujos cabelos continuaram crescendo, é totalmente abandonado. Um único vigia cuida do local, apenas durante o dia. Todos os objetos de ouro, as cerâmicas e mesmo algumas múmias foram furtados do lugar, vendidos para acervos particulares ou museus do mundo todo.

O centro cerimonial de Cahuachi estava situado no vale do rio Nazca, a 28 quilômetros da cidade e próximo dos geóglifos. Seu nome significa lugar onde vivem os videntes. Esse lugar está sendo escavado desde 1982 pelo arqueólogo italiano Giuseppe Orefici. O guia do meu tour conta que todos os achados no local são levados para Itália, a pretexto de serem estudados, e nunca são trazidos de volta.

Sabe-se que em 1998 descobriu-se um depósito de roupas, com 200 peças de tela estampada. Muito provavelmente, artigos de ouro e cerâmica também foram retirados do local.

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Panorama de Cahuachi.
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Com o guia do passeio.

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As edificações de Cahuachi são todas de adobe. A Grande Pirâmide, com seus 28 metros de altura, 90 de largura e 110 de comprimento, composta por sete plataformas escalonadas, é a que mais se destaca. Há ainda o Grande Templo Escalonado e os pequenos montes. O guia nos conta que muito provavelmente todos os morros ao redor são outras construções cobertas de areia. Onde quer que se escave, há uma descoberta. Em suas palavras, “no Peru, você levanta uma pedra e encontra uma civilização antiga”. O descaso dos governantes diante desses tesouros históricos é estarrecedor. 😦

Ainda haveria mais para ver nos arredores da simpática cidade de Nasca, como os aquedutos e o cemitério de Chauchila, mas eu não tinha tempo para tudo isso. Mais tarde, caminhei pela cidade, fiz um lanche e voltei ao hostel para buscar minhas coisas e seguir para a rodoviária. À noite embarquei num super confortável ônibus semi-leito da Cruz Del Sur com destino a Cusco. A viagem durou 15 horas, ao longo das quais foi servido o jantar e o café da manhã, eu dormi bastante e ainda assisti a um filme (há uma pequena TV individual por assento).

Logo mais eu conto sobre a apaixonante cidade de Cusco.

 

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9 dias sozinha no Peru – Paracas

Depois de todas as emoções e os dramas do meu primeiro dia no Peru, incluindo drinks exóticos, voo de parapente sobre o Pacífico, golpe de taxista, tentativa de assalto, febre, alergia, desmaio, desespero, solidão e medo, sobrevivi para levantar cedinho no dia 24 em Paracas, tomar meu café-da-manhã e enviar uma mensagem pelo Whatsapp para uma de minhas melhores amigas, casada com um médico, descrevendo meus sintomas. Ele diagnosticou que era mesmo alergia. Para você é fácil saber disso, porque eu já contei no texto anterior que foi uma reação alérgica a frutos do mar, mas para mim, que estava lá morrendo, na hora foi meio difícil identificar o que me acontecia.

A propósito, vale dizer que eu sempre comi frutos do mar (eu não como outros tipos de carne, mas peixe e frutos do mar, sim) e nunca tinha tido uma reação assim. Então vale mais essa dica: consuma com moderação alimentos que tendem a ser vilões alérgicos, especialmente se estiver viajando. E se você tem histórico de qualquer tipo de alergia, jamais deixe de levar seu antialérgico, aquele que você já está habituado a usar.

Eu já havia tomado dois comprimidos do meu anti-histamínico no dia anterior, após o entupimento nasal e a asma (usei também minha bombinha). Tomei mais um comprimido de manhã e segui a vida. Meus olhos ainda estavam bastante inchados, as pálpebras superiores formavam uma dobra, coisa linda de se ver. Mas a vermelhidão já havia sumido e, aparentemente, a febre também. Imagino que ter tomado o antialérgico logo aos primeiros sintomas tenha ajudado a contornar a situação e evitado situações um pouco mais chatas como anafilaxia, edema de glote e morte. Ufa!

Ainda cedo, parti para o passeio até as Islas Ballestas, um incrível refúgio natural que abriga numerosos tipos de pássaros e animais marinhos. No percurso de barco, passamos pela enigmática figura conhecida como “Candelabro”, com idade estimada em 2500 anos, que não se sabe quem fez nem o motivo.

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A imagem do “candelabro” está clarinha nessa foto, em razão do orvalho da manhã, mas se observar com cuidado você enxerga. =)

Nas ilhas, muitos pássaros, alguns pinguins fazendo fila para mergulhar e lobos marinhos preguiçosos fazem a nossa alegria. As formações rochosas são cobertas de guano (fezes dos pássaros), um poderoso fertilizante exportado para o mundo todo. Há quem reclame do aroma local. A natureza pede desculpas aos narizes mais sensíveis por não ter sempre cheirinho de flores. No barco, fui batendo papo com uma moça de Lima, que estava viajando com os pais. O passeio foi muito agradável.

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Voltando, fui ao terminal comprar minha passagem para Nasca (com “s”, é o nome atual da cidade peruana, com “z”, refere-se à civilização pré-inca). Meu plano inicial era, à tarde, pegar um táxi privativo até Huacachina — um oásis no meio do deserto — para fazer um divertidíssimo passeio de buggy, conhecido no local como arenero. De lá, pegaria um ônibus para Nasca. Eu repetiria, porém, o erro da noite anterior, chegando muito tarde a uma cidade desconhecida. É preciso aprender com os erros, chicos. Portanto, com grande pesar, risquei Huacachina do meu roteiro, ficando para uma próxima oportunidade. Essa, aliás, é uma grande vantagem de viajar sozinha: você decide o que quer fazer, sem correr o risco de frustrar as expectativas de qualquer pessoa além de você mesma.

Passagem comprada, voltei ao local marcado para iniciar meu próximo passeio do dia, rumo à Reserva Nacional de Paracas. Trata-se de uma Área Natural Protegida (ANP), com extensão de mais de 335.000 hectares, entre terra firme e águas marinhas. Lá se observam lindas paisagens e formações rochosas impressionantes, como La Catedral, parcialmente destruída pelo terremoto de agosto de 2007. Na areia do deserto, encontram-se muitas conchas e fósseis de um molusco chamado Turritella, que viveu na região há 36 milhões de anos, quando todo o deserto era mar.

La Catedral, como era e como ficou após o terremoto

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Almoçamos no restaurante El Che — de acordo com os guias do nosso tour, o único confiável do vilarejo de pescadores. Sentei-me sozinha, mas fui logo convidada a me juntar a um grupo de estadunidenses. Um professor de espanhol (não me lembro de que estado americano, acho que Connecticut), numa viagem pelo Peru, conheceu uma peruana num vilarejo. Apaixonaram-se e casaram. O único lugar que ela conhecia, além daquele em que nasceu, era Lima. Hoje, vivem nos Estados Unidos, e sempre que podem viajar ele gosta de levá-la para conhecer as belezas de seu próprio país, antes de conhecer o restante do mundo. Ah! Mas, assim como eu, ela é apaixonada por Nova York! Estavam na mesa também o filho adolescente do professor e mais duas senhoras amigas da família, que celebravam a aposentadoria recém-conquistada. A comida estava boa! Eu pedi um peixe grelhado com arroz, bem básico, e comi pedindo que ele não tentasse me matar. Mas os pratos de quem pediu frutos do mar estavam lindos.

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Isso é outra coisa sensacional de viajar sozinha: não é preciso ser desinibida para fazer amizades. É muito comum as pessoas convidarem quem está só para se juntar a elas. Gostei muito da experiência de alternar momentos de contemplação e reflexão solitária (que muito me agradam) e conversas animadas, conhecendo gente diferente e exercitando idiomas diversos. Depois do almoço, passamos pelo pequeno Centro de Interpretação da Reserva, onde há algumas informações sobre os ecossistemas, a biodiversidade e a proteção de espécies ameaçadas na área.

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De volta ao Kokopelli, pude observar a sua estrutura que, infelizmente, não tive tempo de usufruir. Há uma piscina, a área do bar é bacana, e tem uma saída direto para a praia, onde se praticam diversos esportes aquáticos em razão dos ventos constantes. Aproveitei o Wi-Fi para mandar notícias para o marido e a família, e fui caminhando até o terminal de ônibus (uns 15 minutos).

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A passagem para Nasca custou 35 soles e o ônibus era bem razoável. Cheguei por volta das 20h e peguei um táxi para o meu hostel, o Brabant, que eu já não recomendo tão efusivamente. O taxista tentou de todo jeito me convencer a fechar com ele os passeios para o dia seguinte, inclusive o voo sobre as linhas de Nazca, pois ele trabalhava também com turismo. Delicadamente, eu disse que estava muito cansada, pedi que deixasse seu telefone comigo que eu ligaria na manhã seguinte. No hostel, fui recebida por Jesus — o recepcionista, não o salvador. Contratei os passeios, todos mais baratos do que os valores oferecidos pelo taxista.

Fiquei num quarto com mais duas meninas, ambas canadenses. O lugar era meio estranho, mal-conservado, e só tínhamos um banheiro: apenas um vaso sanitário e um chuveiro, para todos do hostel. Felizmente estava meio vazio. Ainda assim, esquisito. Mas serviu para carregar meus aparelhos eletrônicos, tomar um banho, mandar mensagens avisando que continuava viva e, finalmente, dormir.

No próximo texto, conto sobre as aventuras em Nasca.

9 dias sozinha no Peru – Lima

O famoso “pau-de-selfie” é indispensável quando se faz uma viagem sozinha. 😀


Quando mais nova, eu nem pensava em viajar sozinha. Parecia-me a coisa mais triste do mundo não contar com uma companhia durante as férias. Depois, tive a sorte de casar com o melhor companheiro de aventuras que existe. Damo-nos perfeitamente bem, estamos sempre em sintonia e nos divertimos demais juntos.

Acontece que, esse ano, o marido só poderia tirar férias a partir de outubro. E eu senti que morreria se tivesse que esperar até lá. Foi dele que partiu a ideia: “se quiser viajar sozinha, eu tenho milhas para vencer que posso ceder para você”. Comecei então a pesquisar destinos que coubessem dentro da soma das minhas milhas com as dele, e logo me decidi pelo Peru.

As férias não poderiam ser muito longas, para sobrarem dias para viajar com o marido, lá por outubro. Consegui encaixar ida e volta por bons preços (em milhas) em nove dias de viagem. Muito pouco tempo para conhecer tudo que eu gostaria no Peru – país incrível e recheado de boas surpresas.

Minha jornada começou no dia 22 de julho, às 20h22, num voo de Curitiba a Congonhas. Meu próximo voo sairia de Guarulhos somente na manhã seguinte, às 7h45. Uma amigona que mora em São Paulo infelizmente estava em Curitiba nessa data, e até chegou a me oferecer a chave de sua casa para eu passar a noite. Mas calculando as despesas de táxi, na bandeira 2, concluí que valia mais a pena dormir no Slaviero Fast Sleep, o hotel dentro do aeroporto de Guarulhos. Peguei o transfer gratuito da Tam de Congonhas para Guarulhos e usei o Fast Sleep apenas para um banho e para dormir naquele quarto/cabine que, como disse uma amiga, parece uma gavetinha de cemitério, de tão pequeno.

O voo para Lima foi num Airbus Industrie A320-100/200. Assisti a um filme (About Time) no meu computador, já que esse pequeno avião não possui opções de entretenimento. Cheguei à capital peruana às 11h (horário local). Minha primeira dica: o balcão de informações turísticas está localizado no primeiro piso, os táxis estão no térreo. Logo de cara, no térreo, um taxista chegou me oferecendo uma corrida, e disse que até onde eu queria ir (Miraflores) custaria 120 soles ou 40 dólares. Eu achei muito caro, e tentei me livrar do cara, que me perseguia onde eu fosse. Fui ao banheiro e quando saí ele estava lá me esperando, sorridente. Fui sacar dinheiro, ele foi atrás. Até que subi ao guichê de informações turísticas e ele ficou lá embaixo. Disseram-me que o valor estava mesmo muito alto e que eu devia procurar o quadro onde constam os valores tabelados. Cada companhia tem seu quadro, a moça me disse que a Taxi Green costuma ser a mais barata. O quadro dessa empresa está à extrema direita no térreo. Lá vi que o preço para Miraflores era de 50 soles.

O percurso é de uns 25 a 30 minutos. Passamos por algumas regiões meio feias, e a paisagem fica bonita mesmo é em Miraflores, um bairro lindo. Pedi ao taxista para me deixar no Shopping Larcomar, e almocei no Restaurante Mangos, onde há um buffet custando 55 soles por pessoa. Você come até morrer à vontade, inclui sobremesa. A comida é deliciosa, o atendimento é ótimo (apesar de ter achado que o atencioso garçom Edwin estava demasiadamente interessado em saber se eu era casada, se estava sozinha e onde me hospedaria, mas me fiz de boba e deu tudo certo), mas o mais incrível mesmo é a vista.

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Pegue uma mesa na varanda, se houver disponibilidade. Ali eu fiquei, bebendo um doble coca sour (versão do pisco sour que inclui folhas de coca maceradas), comendo quilogramas de ceviche de peixe e de frutos do mar (guarde essa informação) e observando pessoas voarem de parapente sobre o mar.

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Justo em frente ao restaurante, dentro do shopping, encontrei outro ponto de informações turísticas, e ali perguntei de onde partem os voos. Dava para ir andando, era logo depois da Plaza del Amor. Lá fui eu, mochilão nas costas. Parei na praça por um tempo, tirei um cochilo sob a sombra de uma árvore para fazer a digestão.

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Plaza del Amor

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Pouco tempo depois, deixei minha mochila sob os cuidados de alguns pilotos e, 240 soles mais pobre, voei com o experiente piloto Akita sobre o Pacífico, acenei para o pessoal que almoçava no Mangos, vi meu reflexo nos vidros espelhados do Marriot. Que experiência incrível!

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Saí feliz e saltitante pelas ruas — ou quase, contando o peso da mochila nas costas — e um taxista com um carro muito, mas MUITO podre parou ao meu lado, querendo saber se eu precisava de táxi. Perguntei quanto era até o Museo Larco (em Lima não há taxímetros, então você deve sempre negociar antes o valor da corrida) e ele disse que eram 6 soles. Não sabia qual era a distância então concordei. O cara andou, sei lá, um quilômetro, talvez, e parou na frente de um centro cultural qualquer, na Avenida Larco, e disse: “museo”. Eu sabia que não era ali, mas já estava bastante arrependida de ter entrado naquele táxi caindo aos pedaços e decidi não desperdiçar a oportunidade de sair dele. Paguei os 6 soles, sequei as lágrimas no meu papel de trouxa e saí em busca de um táxi de verdade. Aqui vai então minha segunda dica: não entre em táxis estranhos caindo aos pedaços em Lima. Todos os oficiais que eu peguei eram carros pretos bem ajeitados.

O táxi de verdade até o Museo Larco, que fica longe de Miraflores, custou 20 soles. O taxista era bem simpático e foi me dando várias dicas que ficarão para uma próxima visita a Lima: disse que La Mar é a melhor cevicheria da cidade, e recomendou o buffet criollo do El Bolivariano aos domingos (65 soles por pessoa).

Museo Larco

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IMG_7126O Museu, cuja entrada custa 30 soles, possui uma impressionante coleção arqueológica, que permite compreender o desenvolvimento da história do Peru. O prédio é bonito, repleto de flores. Nos fundos há um lindo jardim, um café e uma galeria de arte erótica pré-colombiana. Confesso que eu não consegui aproveitar tanto quanto gostaria, pois não estava me sentindo nada bem. Primeiro meu nariz entupiu até a alma, depois tive falta de ar. Achei que fosse rinite alérgica e asma. Mal sabia que eram os primeiros sinais de uma forte reação alérgica à overdose de frutos do mar no Mangos (lembra que eu disse para guardar a informação?).

Pedi um táxi para me levar até o terminal do Grupo Soyuz e PerúBus, onde tomaria o ônibus para Pisco. Meu destino final era Paracas, mas o último ônibus direto de Lima para Paracas (da Cruz Del Sur, uma excelente companhia) sai às 14h. Ou seja, eu teria que abrir mão do voo de parapente, do museu, e não sei nem se daria para almoçar no Mangos. Então decidi pegar esse ônibus da Soyuz que para em Pisco, e tem mais ou menos um a cada hora. De Pisco até Paracas, de táxi, leva-se menos de meia hora.

O que eu não sabia, e o taxista bem poderia ter me avisado, é que a região em que está localizado o terminal da Soyuz, La Victoria, é a mais perigosa de Lima. Todos os peruanos para quem contei que estive lá ficaram apavorados, dizendo que eu jamais deveria ter me aventurado nesse bairro. No táxi, eu não conseguia ficar acordada, mal abria os olhos e já apagava em seguida. Não tinha percebido ainda, mas provavelmente já tinha febre (a reação alérgica que citei antes). A corrida custou 15 soles. Paguei e, quando fui descer, senti que alguém puxou minha mochila. O cara que tentou roubá-la deve tê-la achado muito pesada, e agarrou então meu iPhone, que estava na minha mão.

Minha mochila caiu no chão e ficamos nós dois, eu e o ladrão, lutando pelo iPhone. Ele gritava: “dame! Dame! Dame!”, e eu respondia: “no! No! No!”. Ele puxava o telefone, empurrava meus braços (fiquei com alguns hematomas). Eu senti que estava prestes a perder a luta: ia ficar só com a capinha nas mãos. Foi então que, instintivamente, decidi gritar com toda a força dos meus pulmões. Não pedi socorro, nem disse uma palavra específica, apenas emiti um berro de horror, como gritaria se estivesse sendo esfaqueada ou algo do tipo. O cara deve ter se assustado e saiu correndo. O taxista maldito ainda estava parado ali. Assim como dezenas de outras pessoas ao meu redor, apenas olhava, sem mover um músculo para me ajudar. Juntei todas as minhas coisas e entrei no terminal, muito atordoada. Imagino que se eu estivesse em condições normais de funcionamento, sem cansaço, susto e febre, teria gritado: “AQUI É BRASIL, MALUCO! Tá achando que me arranca o iPhone fácil assim? Não sou gringa, não, trouxa!”

Eis minha terceira dica: se possível, não vá de jeito nenhum à região de La Victoria. Se precisar mesmo ir, esteja muito atento, com todos os pertences bem guardados, sem celular, câmera ou relógio à vista, saia do táxi e entre no terminal o mais rápido possível. Lá dentro é tranquilo, o terminal é pequeno e tem seguranças na porta.

Interior do terminal de ônibus da Soyuz/PerúBus

Meu ônibus (que custou 28 soles) saiu só às 19h, e chegou a Pisco quase 23h. A viagem foi terrível. Sofria de calafrios, tonturas, apagava e acordava sem saber onde estava. De acordo com o e-mail que eu havia recebido do meu hostel, no terminal da Soyuz em Pisco eu encontraria uns táxis coletivos, que custariam 1 sol para chegar ao centro de Pisco. Lá eu pegaria outro desses táxis coletivos até Paracas, por 5 ou 6 soles. A corrida num táxi privativo deveria custar 20 soles. Naquele horário, porém, não achei nenhum desses táxis coletivos, e me cobraram 30 soles pelo privativo. Tentei negociar, mas não teve jeito. Era tarde, o lugar era bem estranho, na beira da estrada, sem nada por perto, e eu estava mais ou menos à beira da morte. Aceitei.

Entrei num carro ainda mais podre que aquele táxi golpista em Lima. Nem cinto de segurança havia. O carro tremia e fazia um ruído (aquele tátátá de fusca velho, sabe?) muito alto, enquanto o motorista, sem me dirigir palavra nem sequer me olhar na cara, tocava por uma estrada escura que eu rezava para ser a que me conduziria a Paracas. A viagem levou entre 20 e 30 minutos, que me pareceram uma vida. Eu ia pensando: “é isso. Acabou. É hoje que serei estuprada, roubada, morta. Não necessariamente nessa ordem”. Enfim, vi a placa “Bienvenido a Paracas” e respirei aliviada.

Aí está minha quarta dica, especialmente para mulheres que viajam sozinhas: programem-se para chegar cedo nas cidades. Pode ser bastante assustador chegar a um local desconhecido à noite, sem conhecer ninguém, com sua cara de estrangeira.

Cheguei ao hostel Kokopelli, que recomendo bastante a quem passar por Paracas. Fui bem recebida, reservei meus passeios para o dia seguinte e logo fui acomodada no meu dormitório, dividido com mais 5 pessoas. Coloquei minha bagagem no locker, comprei uma água no bar (onde estava rolando uma festa animada ao som de hip hop) e fui tomar um banho. Levei um susto gigantesco ao ver meu rosto no espelho, inchado e muito vermelho. Ao tirar a roupa, vi que meu corpo inteiro estava vermelho e quente como se eu tivesse tomado um torrão ao sol. Após o banho, fui dormir. Acordava ensopada, em seguida congelava, tremia, tinha calafrios. Uma hora acordei com a cabeça explodindo e levantei para tentar achar um remédio na mochila. Desmaiei. Acordei no piso gelado, com minha lanterninha acesa, caída ao meu lado. No quarto, todos dormiam.

Esse foi o momento mais triste da viagem. Perguntei-me o que eu estava fazendo ali, longe de casa, sozinha. Queria demais alguém conhecido que eu pudesse apenas abraçar e chorar. Queria minha mãe pra me fazer um chazinho e dizer que ia ficar tudo bem. Subi a escada para o meu colchão, na parte de cima de um dos beliches, e chorei baixinho até dormir, sentindo as bochechas arderem de febre.

A boa notícia é que TUDO que podia acontecer de ruim nessa viagem aconteceu no meu primeiro dia, e daí para frente foi só alegria. Eu juro! Conto mais no próximo texto. 🙂